Google

Elementar, meu caro Lineu

por

*Texto originalmente publicado em 15 de maio de 2013, no portal bocaina.bio.br.

— Por Ivan Luiz Fiorini de Magalhães¹ —

 

Atualmente, há cerca de 1,5 milhão de organismos descritos pela ciência – e as estimativas do número de espécies ainda desconhecidas variam de 4 a 70 milhões. A organização do conhecimento dessas espécies e a descrição de organismos ainda desconhecidos são de responsabilidade dos taxonomistas.

 

Esse ramo da biologia teve seu início oficial em 1758, com a obra do sueco Carolus Linnaeus, em que espécies animais e vegetais receberam seus nomes científicos formais pela primeira vez.

 

 

Muitas vezes, o taxonomista é visto como um biólogo que permanece trancado em um museu, identificando espécimes fixados. Porém, a taxonomia envolve trabalhos de campo e investigação histórica dignos de um detetive.

 

Muitas das espécies conhecidas foram descritas no século 18 e início do século 19. A maioria dos autores que trabalhavam nessas épocas era bastante produtiva – eram comuns trabalhos contendo dezenas ou centenas de espécies novas. Por isso, em geral as descrições eram bastante curtas.

 

Embora muitos desses trabalhos incluam pranchas com lindos desenhos, frequentemente os detalhes que permitem a correta identificação das espécies não estão descritos ou ilustrados. Com isso, os taxonomistas modernos têm muita dificuldade em identificar esses organismos somente a partir das descrições originais. A solução é examinar os espécimes-tipo: os exemplares nos quais os autores originais basearam sua descrição.

 

Uma prancha com desenhos de crustáceos do livro “Historia Física y Política de Chile” (1849), organizado por Claudio Gay. Nesse trabalho, foram descritos centenas de espécies animais desse país.

 

Assim, depois de consultar as descrições originais, o próximo passo é tentar localizar esses espécimes-tipo. Como muitos dos autores antigos eram europeus, a maior parte dos espécimes-tipo dos séculos 18 e 19 estão em museus da Inglaterra, França e Alemanha.

 

Muitos não estão devidamente catalogados, e encontrá-los nem sempre é uma tarefa fácil. Pior ainda: vários se perderam com o tempo, ou foram destruídos, como alguns que estavam em museus bombardeados durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Nesse caso, a saída é tentar coletar indivíduos da mesma localidade dos espécimes-tipo. Porém, novamente os trabalhos antigos eram muito precários nesse aspecto: há várias espécies citadas para localidades inespecíficas, como “Brasil” ou “América do Sul”. Em alguns casos, é possível descobrir de onde os espécimes vieram quando se conhece o naturalista que os coletou.

 

Era comum que espécies fossem descritas a partir de grandes expedições, como as viagens de Darwin ou de Spix e Martius. Nesse caso, é possível checar o itinerário dos exploradores e tentar descobrir a origem das espécies em questão e, assim, tentar coletar novos indivíduos no local.

 

Mapa representando parte do itinerário de Claudio Gay em sua viagem pelo Chile. O material coletado nessa expedição foi descrito por especialistas em diferentes grupos de organismos. Por Carlos Muñoz Pizarro, “El Itinerario de Don Claudio Gay”, Museo Nacional de Historia Natural, 1944.

 

Tudo isso é um trabalho de investigação que envolve procurar por bibliografia antiga, visitar museus e ir a campo. Mesmo assim, muitas vezes não se consegue as informações necessárias para se identificar as espécies antigas, e o nome fica “suspenso” até que se consiga descobrir sua verdadeira identidade.

 

No entanto, na maioria das vezes, os taxonomistas conseguem identificar e redescrever as espécies adequadamente. Além disso, no processo de visita aos museus e de expedições ao campo, novas espécies e registros geográficos são frequentemente encontrados – e, com isso, vamos completando cada vez mais o quadro da biodiversidade do nosso planeta.

 

¹Ivan Luiz Fiorini de Magalhães é Biólogo e Mestre em Ecologia pela UFMG. Trabalha com Sistemática, Taxonomia, Ecologia e Biogeografia de aranhas.

Deixe seu comentário aqui