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Pesquisa no Brasil por um fio

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O ofício divulgado pelo presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento Nível Superior (CAPES), Abilio Afonso Baeta Neves no dia 1 de agosto de 2018 só veio confirmar o fato que nós pesquisadores já observamos a muito tempo: a pesquisa no Brasil está por um fio. Segundo o conselho da Capes, se os cortes forem confirmados, em agosto de 2019 serão suspensas todas as bolsas de apoio à pesquisa no Brasil. Só na Pós-graduação, mais de 93 mil discentes e pesquisadores serão atingidos. Na formação dos Profissionais da Educação Básica, 105 mil bolsas serão suspensas. Isso sem contar programas estratégicos como o de Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB), que conta com mais de 245.000 beneficiados. Essa é a projeção mais preocupante de que tenho notícia desde que resolvi ser um cientista a 15 anos atrás.

Movimento tenta mudar decisões do Governo sobre corte de gastos para a Ciência

Os cortes constantes de verba destinada para as universidades, instituições de pesquisa e iniciativas empreendedoras da ciência vieram para acabar com a esperança de um país melhor. Nenhuma crise pode justificar o descaso com um dos setores mais importantes de um país saudável. Para quem não conhece (ou não valoriza) o que é realizado com tão pouco dinheiro, nas últimas horas a ‪#‎MinhaPesquisaCAPES‬ no Facebook agrupou depoimentos de pesquisadores que só realizaram suas descobertas graças à bolsa. São depoimentos fantásticos, de inovações criadas por brasileiros nas mais variadas áreas. Dá um mega orgulho ver que conseguimos gerar tanta informação relevante com tão pouco recurso. Lembrando que todas as bolsas oferecidas não passam de 300 milhões de reais investidos, que parece muito mas não corresponde a nem um terço do que gastamos com auxílio moradia de políticos, por exemplo. A notícia tomou tamanha proporção que uma campanha dizendo Não ao retrocesso educacional e científico brasileiro! já conta com mais de 60.000 assinaturas em 19 horas. Outro abaixo assinado já teve mais de 15.000 votos em pouco mais de 24 horas.

Nem precisa dizer o que é mais importante pro Brasil, né?!

As pesquisas realizadas com o apoio da Capes e de outras agências de fomento permite que nós Brasileiros encontremos soluções para problemas da nossa realidade. Vacinas contra doenças tropicais, remédios que estão no mercado resolvendo várias enfermidades e estratégias de conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos só existem por causa desse precioso recurso destinado à pesquisa. Um país que não investe nesse setor está fadado ao atraso e à dependência de novas tecnologias e soluções criadas por outros países. Comprar esses produtos do exterior sai muuuito mais caro do que quando criamos nossa solução caseira. E se a ideia for boa, ainda podemos oferecer o serviço e a informação para outros países.

Evolução dos valores investidos em pesquisa pelo CNPq (outra agência de apoio à pesquisa) evidencia a falência da ciência brasileira.

A pesquisa no Brasil nunca foi tratada com respeito. Bolsistas não tem direito a férias, não tem décimo terceiro salário e ainda não podem trabalhar em outras iniciativas para complementar a renda. Muitas vezes trabalham mais de dez horas por dia em funções que demandam auto nível de experiência e são submetidos à práticas insalubres (seja em contato com reagentes contaminantes ou ficando dias acampado em lugares ermos). O maior absurdo é que o período trabalhando como bolsista não conta para a aposentadoria. Pesquisadores bolsistas nunca podem aposentar, mesmo que desempenhem um papel vital para nossa nação!

Seja no laboratório, na sala de aula ou no campo, pesquisadores contribuem para a sociedade

Apesar de todos esses problemas, milhares de bolsistas contribuem diretamente para um Brasil com maior igualdade e que dá conta de resolver seus problemas. Mas o que tem acontecido nos últimos meses é uma afronta tão grande que fico triste em saber que tanta coisa boa pode deixar de existir. O pensamento crítico é importante para qualquer cidadão e a falta de uma comunidade científica atuante diminui drasticamente os profissionais capacitados no mercado.

Tenho esperança que o quadro mude e que os cortes de gastos sejam direcionados para aquilo que é supérfluo ou incorreto e não para a maior fonte de produção de conhecimento que temos.

Texto de Lucas Perillo, bolsista Capes na Iniciação Científica, mestrado e parte do doutorado:

#‎MinhaPesquisaCAPES Lucas Perillo

Sou biólogo e cientista. Ainda na graduação trabalhei com iniciação científica entendendo como as larvas de moscas comportam em diferentes tipos de recurso. Trabalhei também com plantas que só existem em ambientes extremamente ameaçados (cangas de ferro) e ajudei a coletar espécies novas para a ciência. No mestrado investi na importância da altitude na distribuição das espécies e vimos que as espécies de vespas e abelhas mudam à medida que subimos a montanha. No doutorado continuei a pesquisa e coletei dados na Bahia e em Minas e vi que a altitude é mais importante que a latitude para determinar as espécies desses insetos. Importante pra entender se devemos preservar áreas em diferentes lugares na montanha. Mas além dos resultados das minhas pesquisas, toda essa caminhada moldou aquilo que sou hoje. Tenho certeza que sou um ser humano mais realizado e que contribuo mais para a sociedade depois de toda essa vivência. Nada disso seria possível se não tivesse as bolsas que permitiram meus estudos. Se não fosse a Capes, o CNPq e a FAPEMIG, não seria professor, não teria trazido novidades para a ciência e não teria o pensamento crítico que tenho hoje. Agradeço a todo cidadão brasileiro (sim, as bolsas vêm do que arrecadamos com impostos) que me ajudou a ser quem sou. E espero que os novos tenham as oportunidades que tive.

#‎MinhaPesquisaCAPES Felipe Fonseca

Sou formado em Ciências Biológica e fiz o mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre, pela #UFMG. Durante a graduação, realizei pesquisas que contribuíram para a conservação do nosso patrimônio natural, principalmente ligados aos ambientes de cavernas. Ainda tive o privilégio de participar de um projeto, no qual conseguimos criar e patentear um protótipo de armadilha para capturar o mosquito que transmite a Leishmaniose. Essa armadilha, além de ter se demonstrado eficiente, apresentou um valor de custo bem inferior ao que se é usado hoje pelos órgãos responsáveis. Durante meu mestrado, tive a oportunidade de descrever pela primeira vez no mundo, um patrimônio paleontológico inédito, numa região que não havia nenhum registro de pesquisa anteriormente, no norte de Minas Gerais. Essa descoberta foi fundamental para tomadas de decisão mais efetivas e racionais. Tudo isso só foi possível com auxílio de bolsa de pesquisa.


Também já foi beneficiado (a) com alguma bolsa de pesquisa? Deixe seu depoimento abaixo!

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