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Trabalho de Campo: A Pedra Fundamental da Biologia

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— Por Ivan Magalhães*, em 13 de maio de 2015 —

O trabalho de um biólogo sempre se inicia no campo.

Muita gente pensa que isso só vale para aqueles que atuam em áreas diretamente relacionadas ao meio ambiente, como botânica, zoologia e ecologia. Mas mesmo bioquímicos, geneticistas e fisiologistas, entre outras áreas, estudam espécimes, linhagens de células, ou sequências de genes de organismos que um dia foram recolhidos na natureza. Assim, não é exagero dizer que o trabalho de campo é a pedra fundamental da biologia.

Ir a campo é especialmente importante para biólogos que estudam a biodiversidade, como os taxonomistas – os pesquisadores responsáveis por catalogar, nomear e descrever espécies. É muito comum que me perguntem “nossa, mas encontrar uma espécie nova é uma coisa bem difícil, né?”. A verdade é que existe uma grande proporção da biodiversidade ainda esperando por ser descoberta. As estimativas variam, mas se acredita que entre 50 e 90% das espécies que existem ainda não foram catalogadas pela ciência.

E uma das formas de encontrar esses organismos ainda desconhecidos é justamente ir a lugares que ainda não foram estudados e coletar espécimes. Ou seja, mais de 200 anos depois das viagens dos primeiros grandes naturalistas, esse trabalho continua sendo importante! Gostaria de dar o exemplo de uma viagem recente que fiz à Isla de Los Estados, uma ilha no extremo sul das Américas. Essa ilha faz parte da Argentina, e é a porção final da cordilheira dos Andes.

Bem ali no pontinho vermelho, ó:

 

Localização da Isla de los Estados

 

Como a maior parte do sul da Argentina e Chile, a vegetação predominante são os bosques de Nothofagus – um gênero de árvores aparentados aos pinheiros. Embora seja bastante frio, é também bastante úmido, e o resultado é um bosque realmente impressionante!

 

Puerto Parry, uma das baías da Ilha. As árvores mais altas são Nothofagus. Há também bastante samambaias e musgos, e várias outras plantas no sub-bosque.

Os Nothofagus podem ser bastante altos – esses têm uns 20 ou 30 metros de altura.

 

A coleta foi feita com colegas do Museo Argentino de Ciencias Naturales, de Buenos Aires, e do Centro Austral de Investigaciones Científicas, de Ushuaia. Nosso objetivo era amostrar vegetação, aves, e aracnídeos da Ilha, que é uma reserva ambiental da província de Tierra del Fuego. Obviamente, por se tratar de uma ilha, tivemos que viajar em um barco.

 

A Ocean Tramp, nosso veleiro-casa durante as duas semanas da expedição.

A Ocean Tramp atracada em Puerto Parry.

 

Aqui estão algumas das paisagens e bichos que encontramos por lá:

 

A chegada à Ilha, depois de uma não tão tranquila noite atravessando o canal que a separa da Isla Grande de Tierra del Fuego.

Puerto Hoppner, a primeira baía onde atracamos. Em alguns pontos, os Nothofagus são bem mais baixinhos, e por isso é comum referir-se a essa vegetação como bosques achaparrados.

 

Uma Linyphiidae, a segunda família mais diversificada de aranhas, e especialmente diversa em regiões frias e temperadas do globo.

 

Uma vista espetacular de Puerto Parry.

 

Rubrius antarcticus, uma aranha muito comum embaixo de pedras perto da costa.

 

Bandas de viento, um tipo de sucessão ecológica natural em que as árvores maiores e mais velhas bloqueiam as mais jovens da ação do vento e acabam morrendo.

 

Uma colônia de pinguins-rei (Aptenodytes patagonicus) que se restabeleceram na ilha há alguns anos.

 

Algumas aranhas vivem em microambientes específicos, como o folhiço. Para encontrá-las, é necessário peneirar a camada de folhas que se acumula no solo do bosque. Às vezes, são tão pequenas que não sabemos a que família pertencem, até levá-las ao laboratório e examiná-las com uma lupa ou microscópio.

 

Um minúsculo caracol – no campo, você sempre vai topar com outros bichos além dos que procura!

 

Emmenomma, um gênero de aranhas endêmico do sul da América do Sul. Essa é uma fêmea com seu saquinho de ovos.

 

 

Antigamente, na ilha funcionava uma prisão. Hoje, restam somente as ruínas.

 

Axyracrus elegans, um Anyphaenidae que vive embaixo de cascas de árvores.

Puerto Cook.

 

San Juan de Salvamento, no extremo leste da ilha.

 

Mecysmauchenius segmentatus, uma fêmea com seus ovos. Essa família é um dos vários exemplos que mostram que os bosques de Nothofagus da Argentina e do Chile tem afinidades biogeográficas com a Nova Zelândia e Tasmânia – essa família só pode ser encontrada nessas regiões.

 

Entre o material que coletamos, já encontramos duas espécies novas – e isso porque não terminamos o processamento dos espécimes. Temos também temos material fresco para extração de DNA de várias espécies, que permite estudos de classificação baseada em sequências de DNA e de genética de populações.

Por fim, todo o material ficará depositado na coleção científica do Museo Argentino de Ciencias Naturales, onde poderá ser estudado ao longo dos anos – muitas vezes se passam décadas entre um espécime ser coletado e ser descrito!

Assim, podemos dizer que o trabalho foi bastante proveitoso. Além do saldo científico, o trabalho de campo sempre tem outros ganhos. Tivemos a oportunidade de visitar lugares históricos, como uma das baías onde esteve atracado o Beagle, navio onde viajou Charles Darwin.

 

Voltando ao continente pelo canal do Beagle – batizado em homenagem à embarcação que levou Charles Darwin em sua viagem ao redor do mundo.

 

A viagem sempre permite formar laços com os outros pesquisadores que fazem parte da expedição, e sempre resulta em bons ‘causos’ para serem contados depois. E não se pode deixar de citar as paisagens lindíssimas, de tirar o fôlego. Tudo isso me faz pensar que os biólogos têm um trabalho privilegiado, pois vivem experiências maravilhosas, ao mesmo tempo em que podem contribuir para entender melhor o mundo em que vivemos.

 

*Ivan Magalhães é biólogo e trabalha com taxonomia, sistemática e biogeografia de aranhas. Atualmente é doutorando no Museo Argentino de Ciencias Naturales, em Buenos Aires.

3 Comments to Trabalho de Campo: A Pedra Fundamental da Biologia

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  1. claudia Fiorini

    Ivan, mais uma vez provando que esta busca pelo estudo da vida é importante para a sua essência como ser manifestando através do seu trabalho e pelo amor com o qual o realiza interligado com o mundo à nossa volta e tudo que ainda tem para ser descoberto. Um estudo recheado de aventuras, descobertas,belezas naturais e este envolvimento harmonioso dos biólogos com a nossa Terra. Parabéns mais uma vez pelo seu belo trabalho e fotografias maravilhosas. Muito obrigada por nos trazer estas maravilhas até nós e pela sua disposição em enfrentar contratempos do dia a dia no seu trabalho. Cláudia Fiorini.

  2. Parabéns Ivan,

    Pelo seu trabalho que admiro e pela facilidade em escrever/descrever um texto tão agradável e educativo!!

    Bela expedição essa eim.

    Abraços