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A importância da agricultura sustentável para conservação dos recursos naturais
Por: Natália Thaynã Farias Cavalcanti                  Postado dia 13/05/2021Doutoranda em Desenvolvimento e Meio ambiente
Departamento de Ciências Geográficas – Universidade Federal de Pernambuco - UFPE









O crescimento de mais 2 bilhões de pessoas previsto na população mundial para 2050 exigirá um grande esforço para aumentar em 30% a produção de alimentos. Assim, a agricultura mundial enfrenta grandes desafios para atender a futura demanda (WEZEL et al., 2014). Portanto, para suprir às necessidades nutricionais da crescente população e ao mesmo tempo limitar o impacto ambiental, é necessário fortalecer a produção agrícola de forma sustentável (MARTIN-GUAY et al., 2018).

O Brasil apresenta uma economia caracterizada pelo modelo exploratório de seus recursos naturais, elencando seu desenvolvimento na exaustiva produção de produtos primários de modo nocivo e predatório (SALHEB et al., 2009). Esse modelo, historicamente marcado pelo o modo de produção agropecuária disseminado pela revolução verde, baseado na monocultura, apresenta vantagens econômicas, contudo possui severos danos ambientais (SAMBUICHI, R. H. R. et al., 2012). A Revolução Verde provocou o aumento da produção mundial, mas teve impactos negativos no meio ambiente e na sociedade, como degradação do solo, perda de biodiversidade, poluição do solo e da água, pragas, concentração de renda e desigualdade social. Com esses efeitos, surgiram movimentos para apoiar uma agricultura sustentável.

Atualmente, vários agroquímicos (ou seja, herbicidas, fungicidas, inseticidas, nematicidas, moluscicidas, rodenticidas, fertilizantes químicos) são usados de maneira imprudente, afetando a microbiota benéfica do solo (Figura 1). Qualquer substância usada para controlar, repelir ou matar plantas, animais e microrganismos é pesticida, e essas substâncias incluem herbicidas, inseticidas e fungicidas. A demanda por pesticidas está aumentando. Os custos de mão de obra, a escolha do método de aplicação e a promessa de controle rápido de pragas e doenças tornaram o uso de pesticidas judicial ou desenfreado em todo o mundo (MEENA et al., 2020).

O uso indiscriminado dessas substâncias, principalmente os agrotóxicos, tem levado ao acúmulo de resíduos tóxicos nos alimentos, solo, ar e água, além do desenvolvimento de resistência a pragas. Além disso, os pesticidas afetam as enzimas do solo, que são biocatalisadores essenciais responsáveis pela qualidade do solo. Para atender à segurança alimentar, é necessário produzir mais alimentos, de forma sustentável e segura, em uma área cada vez menor de terras agricultáveis disponíveis e com diminuição dos recursos hídricos (CAMPOS et al., 2019)
Exemplo de imagem
Figura 1: Esquema da resposta e os efeitos dos pesticidas na microbiota do solo, comunidades e biodiversidade.Fonte: MEEENA et al. (2020).
Em geral, o agronegócio está longe de ser aceito de forma unânime pela sociedade brasileira. Muitos setores acreditam que a agricultura intensiva é protegida pelo governo e que essa prática é uma das principais causas de desmatamento, emissões de carbono, perda de biodiversidade e poluição da água (IORIS, 2018). Poucos avanços são observados pela agricultura intensiva na busca por alternativas que levem em consideração o ecossistema.
Dessa forma, a agricultura sustentável vem como alternativa para garantir a conservação dos recursos naturais, por meio de práticas importantes já amplamente conhecidas como diversificação e rotação de culturas, adubação verde, plantio direto, cobertura do solo, controle biológico e uso de biofertilizantes, a fim de atender à crescente demanda por alimentos de forma ecologicamente correta. Diversos autores trabalham com a definição da Agricultura Sustentável, as principais palavras citadas são a preservação dos recursos naturais para as futuras gerações, manutenção e melhoria da produtividade, manejo e conservação do solo e da biodiversidade (ALTIERI, 2009; CAPORAL; COSTABEBER, 2003, GLIESSMAN, 2000).
Todos os sistemas agrícolas sustentáveis exibem uma série de atributos importantes que promovem a conservação dos recursos naturais. De acordo com Pretty (2020) são eles:
1. utilizar variedades de culturas e raças de gado com uma alta relação de produtividade;
2. evitar o uso desnecessário de insumos externos;
3. aproveitar processos agroecológicos, como ciclagem de nutrientes, fixação biológica de nitrogênio, alelopatia, predação e parasitismo;
4. minimizar ou eliminar o uso de tecnologias ou práticas riscos que têm impactos adversos sobre o meio ambiente e saúde humana;
5. fazer uso produtivo de capital humano na forma de conhecimento, capacidade de se adaptar, inovar e de capital social para alcançar melhorias em todo o sistema;
6. minimizar os impactos dos sistemas nas externalidades, como emissões de gases de efeito estufa, água limpa, sequestros de carbono, biodiversidade e dispersão de pragas, patógenos e ervas daninha.

Na agricultura sustentável temos a agroecologia, que enfatiza inter-relação de todos os componentes do agroecossistema e a dinâmica complexa dos processos. A produção, conservação de recursos e benefícios socioeconômicos de propriedades agrícolas, projetadas com base em princípios agroecológicos, foram amplamente descritos na literatura, como exposto na Tabela 1 (ALTIERI et al., 2017).


Tabela 1. Principais impactos ambientais, sociais e de segurança alimentar de várias iniciativas agroecológicas implementadas na América Latina
Imagem Bocaina
A agroecologia disponibiliza o conhecimento e as metodologias necessárias para desenvolver uma agricultura ambientalmente adequada, altamente produtiva, socialmente equitativa e economicamente viável. O desafio principal da agricultura sustentável é proporcionar o melhor uso dos recursos naturais, que pode ser superado reduzindo o uso de insumos externos, por meios de estratégias de diversificação que aumentam o sinergismo entre os componentes do agroecossistema (ALTIERI, 2012).

Para que haja conservação dos recursos naturais na agricultura sustentável é fundamental mudar o uso da terra. De acordo com Vandermeer et al. (1998) sistemas agrícolas complexos (cultivo diversificado) são mais sustentáveis em termos de conservação de recursos quando comparados com os sistemas simples (monocultivo). Assim, promover ecossistemas complexos pode resultar na redução de perda de água e solo, utilização da entressafra onde o cultivo normalmente não é possível, reciclar os nutrientes de camadas mais profundas do perfil do solo e outros fatores. Dessa forma, podemos entender então que a prática da agricultura sustentável é imprescindível para manutenção da vida. É por meio dela que podemos garantir a produção de alimentos conservando os recursos naturais e garantindo a segurança alimentar das populações futuras.

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Referências:

ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 5º ed. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2009. 120p.
ALTIERI, Miguel A.; NICHOLLS, Clara I.; MONTALBA, Rene. Technological approaches to sustainable agriculture at a crossroads: an agroecological perspective. Sustainability, v. 9, n. 3, p. 349, 2017.
ALTIERI, Miguel. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. São Paulo. Expressão popular, 2012.
CAMPOS, Estefânia VR et al. Use of botanical insecticides for sustainable agriculture: Future perspectives. Ecological Indicators, v. 105, p. 483-495, 2019.
CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Segurança alimentar e agricultura sustentável: uma perspectiva agroecológica. Ciência & ambiente, v. 1, n. 27, p. 153-165, 2003.
GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000.
IORIS, Antonio Augusto Rossotto. O significado político e as consequências a longo prazo da hegemonia do agronegócio no Brasil. In: MACHADO, C.; SANTOS, C. F. dos.; BARCELLOS, S. B (org.) Conflitos Ambientais e Urbanos: Pesquisas e Resistências no Brasil e Uruguai. Rio Grande: Editora FURG, 2019. p. 26-60.
MARTIN-GUAY, Marc-Olivier et al. The new green revolution: sustainable intensification of agriculture by intercropping. Science of the Total Environment, v. 615, p. 767-772, 2018.
MEENA, Ram Swaroop et al. Impact of agrochemicals on soil microbiota and management: A review. Land, v. 9, n. 2, p. 34, 2020.
PRETTY, Jules. The agroecology of redesign. J Sustainable Organic Agric Syst. v. 70, n.2, p. 25-30, 2020.
SALHEB, G. J. M. et al. Políticas públicas e meio ambiente: reflexões preliminares. Planeta Amazônia: Revista Internacional de Direito Ambiental e Políticas Públicas, Macapá, v. 1. n, 1. p. 05-27, 2009.
SAMBUICHI, R. H. R. et al. A sustentabilidade ambiental da agropecuária brasileira: impactos, políticas públicas e desafios. Brasília: Ipea, 2012. (Texto para Discussão, n. 1.782).
VANDERMEER, John et al. Global change and multi-species agroecosystems: concepts and issues. Agriculture, Ecosystems & Environment, v. 67, n. 1, p. 1-22, 1998.
WEZEL, Alexander et al. Agroecological practices for sustainable agriculture. A review. Agronomy for sustainable development, v. 34, n. 1, p. 1-20, 2014.