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Agroecologia - Um olhar sistêmico sobre os agroecossistemas
Por: Iara Fonseca de Sousa                                            Postado dia 24/05/2021Bacharel em Ciências Biológicas (UNESP- São Vicente/SP), Ms. Em Agroecologia e Desenvolvimento Rural (UFSCAR-Araras/SP) e PhD em Ciências (USP-ESALQ/CENA – Piracicaba/SP). Experiência em projetos na área de agroecologia, metodologias participativas, ecologia de saberes, agricultura familiar e extensão rural - [email protected]









Para falar sobre Agroecologia (AE) é imprescindível nos remetermos ao processo de modernização/industrialização da agricultura no Brasil, iniciado a partir da década de 1950. Este período, reconhecido por Revolução Verde, consistiu na artificialização dos ecossistemas e na apropriação dos fatores de produção pelo capital, transformando-os em mercadorias. Neste cenário, a ciência exerce um papel central através do desenvolvimento do controle das forças produtivas e a consequente legitimação de qualquer forma de intervenção sobre os recursos naturais, subordinando-os definitivamente ao homem e rompendo, desta forma, com o processo de coevolução social e ecológica que foi mantido, historicamente, pelo campesinato [1] (GUZMÁN CASADO et. al., 2000).

A modernização agrícola no Brasil foi responsável por uma série de alterações, tanto no modo de produção, como na organização social e econômica em torno dessa atividade. Resumidamente, este processo consistiu na disseminação de um pacote tecnológico pautado em monocultivos, uso de mecanização, de sementes certificadas e híbridas, uso intensivo de adubos químicos e agrotóxicos. As consequências da adoção deste pacote tecnológico estão relacionadas com a perda de fertilidade do solo, erosão, contaminação dos recursos naturais, dos alimentos e das pessoas, perda da biodiversidade e desequilíbrio ecológico, aumento dos custos de produção, concentração de terras e da renda e acentuação da desigualdade social.

A insustentabilidade socioambiental e econômica deste modelo
suscitou a emergência de movimentos contrários a este paradigma na agricultura e promotores de alternativas técnicas e organizacionais no meio rural. A agroecologia (AE), concebida como ciência, prática e movimento, resulta de um longo processo de contestação e busca de alternativas ao modelo agrícola industrial e de reconhecimento e interação com os saberes e práticas elaborados por povos e comunidades tradicionais.

[1]:  No campesinato, a agricultura associa-se a um modo de vida, de compreensão e de relação com a natureza e com a sociedade, o que determina, tanto o manejo dos recursos naturais como a economia local.
De acordo com Altieri (1999), Gliessman (2000) e Caporal (2009) a AE, como campo do saber científico, surge a partir da interação entre cientistas de diferentes áreas (agronomia, zoologia, ecologia, botânica e fisiologia de plantas) com os conhecimentos agronômicos desenvolvidos localmente por comunidades rurais e tradicionais que resistiram à imposição do modelo do agronegócio (JACOB, 2016).

No campo dos movimentos sociais, a AE, além de ser concebida como um princípio/ conceito que proporciona a construção de modelos de agricultura consideradas sustentável, apresenta-se como uma estratégia de mobilização social e política ao reafirmar a importância das interações entre agricultores e consumidores a fim de se refletir sobre o sistema agroalimentar (NORDER et al., 2015).

Esta abordagem traz implícito que a AE se diferencia de uma
proposta atrelada a transferência de tecnologias, ou ainda que se paute apenas pela racionalidade técnico-científica (mesmo que estas estejam alinhadas com correntes da ecologia e da sustentabilidade dos agroecossistemas), mas sim, que está comprometida com uma proposta que emerge do contexto e das especificidades locais.

“[...] o que realmente pode validar as práticas agrícolas não são os resultados obtidos em laboratórios ou estações experimentais, mas sim as práticas de cultivos de populações tradicionais - indígenas e camponesas” (LEFF, 2002, p. 39).
Imagem Bocaina

Evento de Formação sobre manejo de Sistemas Agroflorestais

Neste sentido, considera-se a AE um campo do conhecimento, que se constrói interculturalmente, uma vez que por apontar a necessidade de uma abordagem sistêmica e holística sobre os agroecossistemas, considera as populações (com suas representações e ações) como partes do sistema. Esta prerrogativa é encontrada na abordagem da AE apresentada por Sevilla Guzmán como sendo:

[...] o manejo ecológico dos recursos naturais que, incorporando uma ação
social coletiva de caráter participativo, permita projetar métodos de desenvolvimento
sustentável. Isso se realiza através de um enfoque holístico em uma estratégia sistêmica
que reconduza o curso alterado da evolução social e ecológica, mediante o
estabelecimento de mecanismos de controle das forças produtivas para frear as formas
de produção degradantes e expoliadoras da natureza e da sociedade, causadoras da atual
crise ecológica. Em tal estratégia, desempenha o papel central da dimensão local como
portadora de um potencial endógeno que, através da articulação do conhecimento
camponês com o científico, permita a implementação de sistemas de agricultura
alternativa potenciadores da biodiversidade ecológica e sociocultural (GUZMÁN,
1997, p.19).

Segundo Descola (1999), as relações ecológicas e as práticas socioeconômicas nos territórios tradicionais colaboram, de modo decisivo, para a continuidade da biodiversidade. Nesta perspectiva, o conceito de agroecossistema é ampliado por incluir a relação entre natureza e cultura, vinculando-se ao conceito de coevolução socioambiental (DE BIASE e SILVA JUNIOR, 2010, p.34) apresentado por Sevilla Guzmán e alguns autores da antropologia, que consideram a relação direta entre o ambiente natural e as formas de organização socioprodutiva das sociedades. Neste sentido, as práticas e interferências no meio não se dissociam da forma como o grupo social se organiza, dos valores por estes adotados e da configuração do ambiente com o qual se relaciona.

“[...] as estruturas sociais dos grupos humanos são produto de uma adaptação
aos ecossistemas fazendo parte de sua biodiversidade, em sua dimensão sociocultural.
Em definitivo existe uma configuração histórica de identidades etnoecossistêmicas,
produto da coevolução social e ecológica” (ALONSO MIELGO e SEVILLA GUZMÁN,
1994, p.5).

Destaca-se que, nesta abordagem, a AE não é apolítica, não é neutra e nem dissociada de um movimento que adota valores de justiça social, participação democrática e sustentabilidade (LACEY, 2015). De acordo com o mesmo autor, os tipos de tecnologia utilizados na AE refletem as condições culturais, geográficas e ecológicas da lavoura. Isso não significa que a pesquisa e práticas agroecológicas não recorrerão à conhecimentos e inovações obtidos pelas estratégias descontextualizadoras, como por exemplo, da microbiologia e da biotecnologia, mas que estes conhecimentos e inovações estarão subordinados a outros valores (LACEY e MARICONDA, 2014).

“O que é importante é o contexto de uso das inovações e quem exerce o controle sobre esse uso” (LACEY, 2015, p.177).

Reconhece-se, portanto, a AE enquanto uma proposta de superação do modelo agrícola e de desenvolvimento hegemônico através da compreensão da complexidade inerente aos agroecossistemas e da legitimação do saber/fazer popular e tradicional. Desta forma, muito além de orientações técnicas para uma produção agrícola de baixo impacto ambiental, a AE incorpora em seus princípios uma dimensão sociopolítica voltada para o fortalecimento das populações rurais, historicamente excluídas do processo de desenvolvimento.

Por este motivo, destaca-se a importância da participação dos atores sociais na construção de conhecimentos agroecológicos (CCA), pois, só a partir da participação é que se desvelará o potencial endógeno e sociocultural de cada agroecossistema e, consequentemente, o resgate de autonomia e enfrentamento ao processo de exclusão social e deterioração ambiental.


Foto capa: https://www.flickr.com/photos/agenciabrasilia/32961326492
Imagem Bocaina

Mutirão para implantação de um Sistema Agroflorestal

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Referências:

ALONSO MIELGO, A.M.; SEVILLA GZMÁN, E. El discurso ecotecnocrático de la sostenibilidad. Córdoba: Universidad de Córdoba/ISEC, 1994.
ALTIERI, M. Agroecología: bases cinetíficas para una agricultura sustentable. Montevideo: Nordan-Comunidad, 1999.
CAPORAL, F. R. Agroecologia: uma nova ciência para apoiar a transição a agriculturas mais sustentáveis. In: Agroecologia: uma ciência do campo da complexidade. Org: CAPORAL, F.R.– Brasília, 2009, 111 p
DE BIASE, L.; SILVA JUNIOR, R. D. Diálogos entre Agroecologia e Antropologia. Curso de Fundamentação para Projetos em Agricultura Sustentável, 2010.
DESCOLA, P. A selvageria oculta. In: NOVAES, A. (Ed.) A outra margem do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p.107-24.
GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Ed. UFGRS, 2000.
GUZMÁN, E. Sevilla. Origem, evolução e perspectivas do desenvolvimento sustentável. In: ALMEIDA, J., NAVARRO, Z. Reconstruindo a agricultura: idéias e ideais na perspectiva de um desenvolvimento rural sustentável. Porto Alegre: UFRGS, 1997.
GUZMÁN CASADO, G.; GONZÁLEZ DE MOLINA, M.; SEVILLA GUZMÁN, E. (Coord.). Introducción a la Agroecología como desarrollo rural sostenible. Madrid: Mundi-Prensa, 2000.
JACOB, L. B. Agroecologia na universidade: entre vozes e silenciamentos. Curitiba: Appris, 2016, 209p.
LACEY, H. A agroecologia: uma ilustração da fecundidade da pesquisa multiestratégica. Estudos Avançados, São Paulo, v.29, n.83, 2015, p.175-181.
LACEY, H.; MARICONDA, P. R. O modelo da interação entre as atividades científicas e os valores na interpretação das práticas científicas contemporâneas. Estudos Avançados, v.28, n.82, 2014, p.181-99
LEFF, E. Agroecologia e Saber Ambiental. In: Revista de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável, Porto Alegre, v.3, nº. 1, 2002, p. 36-51.
NORDER, L. N.; LAMINE, C.; BELLON, S. Agroecologia: Polissemia, pluralismo e controvérsias. In: BRANDENGURG, A. et al. (Orgs). Redes de Agroecologias: Experiências no Brasil e na França. Curitiba: Kairós Ed., 2015. 284 p. 65-86.