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Áreas Úmidas: Grandes estoques de carbono na era da Mudança Climática
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Marcela Ribeiro e Silva Teixeira
Postado dia 27/09/2021

Bióloga, mestre em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar trabalhando com caracterização de áreas úmidas costeiras e seus respectivos serviços ecossistêmicos. Doutoranda, busca criar um índice de qualidade para áreas úmidas costeiras usando como indicador os serviços ecossistêmicos disponíveis, no litoral de Santa Catarina.









A Terra, em todas suas formas, cores e texturas, elementos bióticos ou abióticos envolvidos em um grande sistema autônomo e natural, garante a existência da humanidade em seu contexto mais agradável. Porém, o ser humano se esquece de sua dependência dos recursos naturais, transferindo diversos riscos para si mesmo.

Entendendo melhor a relação do ser humano com a provisão desses recursos tão essenciais, em 1981 o casal Paul e Anne Ehrlich, da Universidade de Stanford, cunharam a expressão Serviços Ecossistêmicos (SE); serviços oferecidos pelo ecossistema a fim de garantir a sobrevivência e bem-estar do ser humano, tais como:

• serviços de provisão: comida, água e madeira;
• serviços de regulação e suporte: controle de doenças, atenuação de enchentes e tempestades, filtragem e estocagem de água, etc; e
• serviços culturais: desenvolvimento cognitivo, práticas esportivas, enriquecimento espiritual, recreação, etc. (MEA, 2003).

Para que esses serviços sejam oferecidos em sua plenitude é necessário que os processos ecossistêmicos ocorram, sendo essencial um sistema biodiverso, sobretudo quanto a biodiversidade funcional, que traz uma gama de características funcionais desempenhadas por espécies individuais ou em grupos, garantindo processos e funções do ecossistema (DIAZ et al., 2006). Estes processos estabelecem um capital natural, responsável por parte do valor econômico mundial (COSTANZA et al., 1997) (Figura 1).

Como já foi apresentado, componentes bióticos, abióticos e sua interrelação são responsáveis pela provisão de bens e serviços (SCHNEIDERS & MULLER, 2017). Nesse sentido as Áreas Úmidas (AUs) desempenham um papel importante na provisão de serviços ecossistêmicos.
Imagem da Bocaina
Figura 1: Modelo Cascata, adaptado de Haynes-Young & Potschin (2018), usando o manguezal como exemplo para definir um serviço a partir dos processos, até os benefícios oferecidos a humanidade (TEIXEIRA, 2019)
As AUs, mesmo representando apenas 1,5% da cobertura terrestre, são responsáveis por 40% de todo SE disponível no planeta (ZENDLER, 2003), ou seja, sua estrutura, processos biofísicos e funções são capazes de manter um fluxo constante de serviços (BURKHARD & MAES, 2017). Nesse sentido, vale destacar que os serviços prestados por tais áreas são de importância não só social e ambiental, mas também econômica (JUNK et al., 2014; JUNK, et al., 2015).
AUs fazem parte da interface terrestre-aquática, geralmente encontradas em uma posição topográfica baixa, que favorece o recebimento de água, propágulos e sedimentos levados da encosta (CLARKSON et al., 2013; NUNES DA CUNHA; PIEDADE; JUNK e PIEDADE, 2015) (Figura 2). De acordo com a Convenção de Ramsar, esse macrohabitat pode ser definido, como: continental (representando 90%) ou costeira (representando 10%), natural ou artificial, de alagamento permanente ou periódico (RAMSAR, 2016) (Figura 2).

Imagem Bocaina

Figura 2: Áreas úmidas costeiras na Ilha de Santa Catarina no bairro “Daniela”. Foto de Marcela Teixeira.

Burger (2000) rememora a situação das AUs anos atrás, onde eram consideradas insalubres e improdutivos economicamente, e ainda, que necessitavam de saneamento. Para os tomadores de decisões o saneamento de tais áreas significaria transformar o ambiente em aterros, campos de produção, construção civil através da drenagem da água. Com o avanço da pesquisa, fica evidente a importância tanto ambiental como econômica de tal ecossistema.

Em associação das funções das AUs aos valores obtidos a partir dos serviços disponíveis, essas áreas se destacam pelo alto valor financeiro e natural e potencial de prover serviços por muitos anos, o que se opõe à lógica da agricultura moderna ou a atividade industrial/comercial por ser insustentável e esgotar recursos naturais. Como exemplo, temos o serviço ecossistêmico de armazenamento de grandes quantidades de carbono nos tecidos das plantas vivas presentes em AUs, uma propriedade que é capaz de mitigar o efeito causado pelos Gases de Efeito Estufa (GEE) e o aquecimento global (MITSCH & GOSSELINK, 2000).
Imagem Bocaina

Figura 3: Banhado na Ilha de Santa Catarina, foto de Marcela Teixeira.

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À vista disso, entramos num assunto de extrema urgência. A comunidade científica reconhece a variação cíclica da temperatura a longo prazo, porém a contribuição humana para a degradação do meio, fez surgir o “efeito estufa ampliado”, fenômeno decorrente da industrialização. A emissão excessiva de GEE são liberados na atmosfera sobre o pretexto de “desenvolvimento”, mas trazem um risco incalculável através da mudança climática. Dessa maneira, ações de mitigação para a redução de GEE são essenciais, como por exemplo: o transporte e sequestro de carbono através de conservação do meio ambiente e reflorestamento (FERREIRA, 2021).
 
As AUs em regiões tropicais apresentam uma dinâmica de acumulo de matéria orgânica no solo devido à alta temperatura e elevada humidade que aumenta as taxas de decomposição intensificando o acúmulo de carbono nessas áreas (CERRI; CERRI, 2007), garantindo o equilíbrio do ecossistema e do balanço dos GEE através do sequestro de carbono. O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC, 2007) admite que esse mecanismo apresenta o maior potencial para mitigação de GEE, com uma contribuição aproximadamente de 89% nessas áreas. Para o IPCC, o sequestro de carbono em áreas úmidas para mitigação dos GEE assume, portanto, um papel de destaque.
 
Num cenário dentro do território brasileiro, em análise do estoque de carbono em áreas úmidas de microbacias do Pantanal, foi concluído que áreas degradadas desse macrohabitat tiveram uma redução de 76% em sua capacidade de armazenamento de carbono. Ou seja, a diminuição no estado de conservação das pastagens naturais ativas localizadas em AUs, reduzem expressivamente o armazenamento de C no solo (CARDOSO et al., 2017). Outro estudo realizado no cerrado mineiro por Souza e Rosolen (2014) conclui que os solos da superfície de áreas úmidas apresentam maiores concentrações de carbono do que paisagens urbanizadas ou agrícolas.
Observando os apontamentos, apenas a via sustentável nos possibilita a liberdade de escolha e bem-estar. Mesmo que recente, a ferramenta identificada e nomeada como serviços ecossistêmicos tem grande potencial de aprimorar e colaborar com o desenvolvimento da conservação do meio ambiente. Como foi visto, os SE podem ser usados como indicador para áreas com potencial expressivo de acúmulo de carbono capazes de mitigar os GEE, diminuindo seus efeitos, e trazendo mais estabilidade para a vida na Terra.
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Referências:

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BURKHARD, B.; MAES, J. (2017). Introdução. In: Burkhard B, Maes J (Eds.). Mapping Ecosystem Services. Pensoft Publishers, Sofia, 374.

CERRI, C. C.; CERRI, C. E. P. (2007). Agricultura e aquecimento global. In: Boletim da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 32, p. 40-44.

CLARKSON, R.B.E.; AUSSEIL, A.; GERBEAUX, P. Wetland ecosystem services. In Ecosystem Services in New Zealand; Dymond, J.R., Ed.; Manaaki Whenua Press: Lincoln, New Zealand, 2014

COSTANZA, R.; d’ARGE, R.; DE GROOT, R.; FARBER, S.; GRASSO, M.; HANNON, B.; KARIN, L.; NAEEM, S.; O’NEIL, R. V.; PARUELO, J.; RASKIN, R. G.; SUTTON, P.; BELT, M. V. D. (1997). The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature. 387.

DIAZ, S.; FARGIONE, J.; CHAPIN III, F. S.; TILMAN, D. (2006). Biodiversity loss threatens human well-being. Plos Biol. 4 (8), 1300–1305

FERREIRA, L. C. (2021). O desafio da governança das mudanças climáticas: uma análise multinível e multiatores. São Paulo: Diálogo Brasil-Alemanha de Ciências, Pesquisa e Inovação. n 9.

IPCC. (2007). Climate Change 2007: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Cambridge: Cambridge University Press. P. 347.

JUNK, W. J.; PIEDADE, M. T. F.; LOURIVAL, R.; WITTMANN, F.; KANDUS, P.; LACERDA, L. D.; BOZELLI, R. L.; ESTEVES, F. A.; NUNES DA CUNHA, C.; MALTCHIK, L.; SCHONGART, J.; SCHAEFFER-NOVELLI, Y.; AGOSTINHO, A. A. (2014). Brazilian wetlands: their definition, delineation, and classification for research, sustainable management, and protection. Aquatic Conserv: Freshw. Ecosyst. 24, 5-22.

JUNK, W. J.; PIEDADE, M. T. F. (2015). Áreas Úmidas (AUs) Brasileiras: Avanços e conquistas recentes. Associação Brasileira de Limnologia. Boletim ABlimno. 41(2), 20-24.

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TEIXEIRA, M. R. S. (2019). Identificação e classificação de áreas úmidas costeiras relacionadas à valoração de seus serviços ecossistêmicos na ilha de Santa Catarina (Florianópolis) – Brasil. (Dissertação de Mestrado em Ecologia e Recursos Naturais) – Centro de Ciências Biológicas e da Saúde – Universidade Federal de São Carlos – São Paulo.

ZEDLER, J. B. (2003). Wetlands at your service: reducing impacts of agriculture at the watershed scale. Frontiers in Ecology and the Environment, 1(2), 65-72.

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