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O aumento da população das águas-vivas: possíveis causas e impactos nas teias tróficas dos oceanos
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Bruna Letícia Nogueira da Costa Oliveira
Postado dia 18/12/2021

Oceanógrafa formada na Universidade Federal do Ceará. Durante a graduação desenvolveu pesquisas voltadas a análise de plâcton, além de participar de atividades de Educação Ambiental. Atualmente, está vinculada ao Programa de Pós Graduação em Oceanografia do Instituto Oceanográfico (IO-USP). Sua pesquisa de mestrado é voltada a distribuição de cnidários no oceano Atlântico.















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Água-viva é o termo popularmente utilizado para se referir às medusas, as quais são organismos que fazem parte do grupo dos cnidários planctônicos. Uma característica marcante dos seres desse grupo é a presença de nematocistos — estruturas que consistem em uma pequena cápsula arredondada com um filamento espiralado preenchido por toxinas urticantes. Existem diversos casos de banhistas que, ao acidentalmente encostarem em uma água-viva, sofreram alguma lesão; na verdade, o que ocorre é a sensação de uma queimadura originada pela penetração de toxinas na pele.

O estudo de Purcell (2012) mostrou que grandes proliferações de medusas ocorrem em alguns locais que foram altamente impactados por atividades humanas ao longo dos anos. Dentre os fatores que podem impactar a abundância destes organismos, destacam-se principalmente o aquecimento global, a sobrepesca e a eutrofização. A seguir, cada um desses fatores será abordado com mais detalhes.

1.1 Aquecimento Global

A temperatura da água dos oceanos está aumentando, o que causa diversos impactos à vida marinha. Tratando-se das águas-vivas, verificou-se que há maior proliferação de muitas espécies ao longo do globo quando em temperaturas mais elevadas, assim como mostrado na Figura 1 (PURCELL, 2012). Isso acontece porque altas temperaturas podem aumentar a reprodução assexuada, onde não ocorre encontro de gametas, desses organismos (PURCELL, 2007).

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: Representação da proliferação de algumas espécies de águas vivas com o aumento da temperatura dos oceanos
Fonte: Elaborada pela autora.

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É válido ressaltar que existem espécies cuja proliferação é mais acentuada em águas com temperaturas mais amenas, como é o da Chrysaora Melanaster, cuja biomassa foi estudada na porção leste do Mar de Bering (BRODEUR et al., 2008). Além disso, os organismos possuem uma faixa de temperatura que conseguem suportar e quando ocorre um aumento muito grande que se aproxima dessa faixa os animais não necessariamente irão se beneficiar desse aumento (PURCELL, 2007).

Assim como afirmam Guerrero et al. (2018), alguns eventos extremos também podem influenciar os padrões de abundância das águas-vivas. Essa pesquisa visou compreender os impactos nos cnidários de uma onda de calor que atingiu a Europa em 2003 e mostrou que esse evento climático implicou na redução de um grupo de águas-vivas, Scyphozoa, enquanto causou o aumento de outro grupo, Hydrozoa. Para estimar os efeitos desse fenômeno, os autores coletaram dados do mesmo ano em que ocorreu a onda de calor, 2003, e do ano posterior, 2004, quando a temperatura do oceano supostamente estaria em condições normais. Após as análises, concluiu-se que, além de mudanças na abundância, houve uma alteração na estrutura da comunidade desses organismos; no ano com a presença de onda calor, ocorreu a proliferação de uma maior quantidade de espécies.

1.2 Sobrepesca

A sobrepesca ocorre quando os organismos alvos da pesca são removidos em excesso, ao ponto de não conseguirem se regenerar naturalmente. A retirada exacerbada de peixes do ambiente pode favorecer a população de águas-vivas, como representado na Figura 2. Esse é o caso da região da Namíbia, país localizado na costa da África, de acordo com um estudo realizado por Roux et al. (2013). Nesta pesquisa, os autores sugeriram que o aumento da população de águas-vivas nesta região está relacionado à diminuição na quantidade de peixes de pequeno tamanho — o que, por sua vez, poderia estar associado à ausência de predação, pois muitos peixes predam águas-vivas, e/ou também ao aumento da quantidade de alimento disponível, dada a diminuição da quantidade de peixes que anteriormente competiam com as águas-vivas por alimento.

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Figura 2: Representação esquemática da sobrepesca e da sua relação com a abundância de algumas espécies de águas-vivas.
Fonte: Elaborada pela autora.

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O aumento da população de águas-vivas em Namíbia, ocasionado pela sobrepesca, é chamado de “jellyfication”. Os pesquisadores relataram que esse fenômeno é bastante preocupante, pois houve a alteração de toda a teia alimentar, onde, anteriormente, a sardinha produzia um elo, fazendo com que a energia fosse transferida para as aves marinhas e outros tipos de peixes, e, atualmente, são as águas-vivas as responsáveis por direcionar esse fluxo de energia aos animais presentes no fundo marinho (ROUX et al., 2013).

1.3 Eutrofização

A eutrofização é caracterizada pelo aumento de nutrientes em corpos d’água. Esse processo pode levar à redução do oxigênio e à redução da quantidade de luz que entra na água, impactando negativamente diversos organismos marinhos. Quando a eutrofização ocorre em determinado local, há uma grande quantidade de alimento disponível, o que acarreta no aumento da quantidade de animais, como representado na Figura 3.

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Figura 3: Representação esquemática da proliferação de águas-vivas causada pela eutrofização.
Fonte: Elaborada pela autora.

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O processo de eutrofização, como citado anteriormente, pode interferir na quantidade de luz que penetra na água, o que, no estudo de Ohata et al. (2012), já foi relacionado com a diminuição da alimentação do peixe Carapau-do-Japão (Trachurus japonicus), que preda a larva da anchova japonesa (Engraulis japonicus). Porém, a pesquisa não verificou a interferência da luz na alimentação da espécie de água-viva Aurelia aurita, que também preda a larva Engraulis japonicus. Isso pode ser explicado pelo fato dos peixes utilizarem a visão para auxiliar na predação, enquanto as águas-vivas não. Sendo assim, as águas-vivas podem obter vantagem sobre os peixes em locais com baixa visibilidade (PURCELL, 2012).

Além disso, algumas espécies de águas-vivas são capazes de habitar locais onde há baixa concentração de oxigênio, podendo se favorecer com a eutrofização (PURCELL, 2012).

2. Considerações finais
 
Os impactos causados pelos seres humanos podem ser a causa do aumento da quantidade de águas-vivas em diversas regiões do mundo (PURCELL, 2012). Partindo desse princípio, devem ser realizados mais estudos que permitam um melhor entendimento de como esses organismos reagem a essas alterações. Isso porque as informações básicas sobre a biologia populacional não são conhecidas em muitas localidades (BROTZ, 2012). Apesar disso, ainda com informações escassas, diversos estudos mostraram que algumas espécies de águas-vivas se beneficiam ou não são impactadas negativamente pelo aumento da temperatura das águas dos oceanos, pela sobrepesca e pela eutrofização, e é sabido que a proliferação destes organismos tem o potencial de causar alterações na teia trófica.

Referências:BRODEUR, R. D., Decker, M. B., Ciannelli, L., Purcell, J. E., Bond, N. A., Stabeno, P. J., et al. Rise and fall of jellyfish in the eastern Bering Sea in relation to climate regime shifts. Progress in Oceanography, vol. 77(2-3), p. 103-111, 2008.

BROTZ, L.; Cheung, W. W.; Kleisner, K.; Pakhomov; E.; Pauly, D. Increasing jellyfish populations: trends in large marine ecosystems. Jellyfish Blooms IV, p. 3-20. Springer, Dordrecht. 2012.

GUERRERO, E.; Gili, J. M.; Grinyó, J.; Raya, V.; Sabatés, A. Long-term changes in the planktonic cnidarian community in a mesoscale area of the NW Mediterranean. Plos one, vol. 13(5), 2018.

PURCELL, J. E. Jellyfish and ctenophore blooms coincide with human proliferations and environmental perturbations. Annual review of marine science, vol. 4, p. 209-235, 2012.

PURCELL, J. E., Uye, S. I., & Lo, W. T. Anthropogenic causes of jellyfish blooms and their direct consequences for humans: a review. Marine Ecology Progress Series, vol. 350, p. 153-174, 2007.

ROUX, J. P.; van der Lingen, C. D.; Gibbons, M. J.; Moroff, N. E.; Shannon, L. J.; Smith, A. D.; Cury, P. M. Jellyfication of marine ecosystems as a likely consequence of overfishing small pelagic fishes: lessons from the Benguela. Bulletin of Marine Science, vol. 89(1), p. 249-284, 2013.

OHATA, R.; Masuda, R.; Yamashita, Y. Ontogeny of antipredator performance in hatchery‐reared Japanese anchovy Engraulis japonicus larvae exposed to visual or tactile predators in relation to turbidity. Journal of Fish Biology, vol. 79(7), p. 2007-2018, 2011.





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