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Peculiaridades do Pampa para a conservação de aves campestres
Por: Lucilene Inês Jacoboski                                 Postado dia 18/05/2021Doutora e mestra em Ecologia pela UFRGS









Quando pensamos em conservação de espécies, a primeira ideia que vem à nossa cabeça é a proteção dos habitats nativos e a exclusão de qualquer atividade que possa impactar esse ambiente. De fato, na maioria dos casos essa é a alternativa mais promissora para a conservação da biodiversidade. No entanto, nos campos do Pampa (IBGE 2004), a dinâmica da vegetação é bastante peculiar, uma vez que os campos sempre estiveram associados com a ação de animais pastadores. Desta forma, para alguns grupos taxonômicos, um nível baixo e/ou intermediário de distúrbio (pastejo) nos campos é benéfico para a manutenção de uma maior diversidade de espécies. Por exemplo, a riqueza de espécies vegetais é maior em campos pastejados se comparada com campos não pastejados (Andrade et al. 2019).

Já para as aves dos campos do Pampa, o pastejo pode limitar a ocorrência de várias espécies, assim como a ausência total de pastejo pode inibir a presença de outras espécies de aves. Algumas características da vegetação dos campos determinam a ocupação pelas aves, que escolhem seu habitat de forma hierárquica considerando várias características do ambiente, a altura da vegetação é uma delas.
 As espécies de aves dependentes dos campos podem ser classificadas em grupos, conforme especificidade ao habitat. De um lado, temos as aves que necessitam de campos de vegetação baixa e rala, como os caminheiros (Anthus spp.), que são mais facilmente encontrados em campos pastejados. De outro lado, temos um grupo de aves que não tolera os distúrbios provocados pelo pastejo. Espécies desse grupo necessitam de campos de vegetação alta e densa. Neste grupo, podemos citar o ameaçado papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta) e também os coleirinhos (Sporophila spp.). Além destes dois grupos, um terceiro grupo de espécies se adapta bem àqueles campos que apresentam um mosaico de vegetação alta e baixa, onde o pastejo não é tão intensivo. Nesse grupo está o também ameaçado, veste-amarela (Xanthopsar flavus). Para outras espécies dependentes dos campos, a presença esparsa de arbustos na paisagem é essencial, seja para esconderijo ou para construção dos ninhos, é o caso do tio-tio (Phacellodomus striaticollis). Além da vegetação, outros fatores estão envolvidos na organização de uma assembleia local de aves no Pampa. Por exemplo, a altitude, o tipo de solo, a região fitogeográfica, entre outros (Fontana e Bencke 2015). Enfim, há uma série de fatores que vão determinar a diversidade de aves em uma determinada região do Pampa.
Exemplo de imagem
Figura 1: Exemplos das aves dos Pampas

Assim para maximizar a diversidade de aves nos campos do Pampa, o ideal seria termos na paisagem do Pampa um mosaico de vegetação em diferentes alturas e densidades e também a presença de elementos-chave na paisagem, como arbustos (Fontana et al. 2016; Jacoboski et al. 2017). Todos esses fatores beneficiam a ocorrência das espécies de aves associadas à cada um dos grupos citados acima. No entanto, na prática, isso nem sempre ocorre. Por exemplo, a prática do sobrepastejo em muitas propriedades limita a ocupação dos campos por muitas espécies de aves. Também, atualmente a conversão dos campos para outros usos do solo inviabiliza o habitat para aves especialistas campestres.
Para conservar as aves do Pampa, é essencial proteger a vegetação desse bioma. Determinações legais podem evitar a conversão dos campos em propriedades particulares. As Áreas de Preservação Permanente (APP) são uma determinação do Código Florestal Brasileiro, e tem por objetivo proteger a vegetação das margens de cursos d’água e/ou áreas úmidas (CFB 2012). Entretanto, essa determinação do código nem sempre é cumprida. Em algumas regiões do Pampa, APPs são mais facilmente encontradas dentro de áreas destinadas às plantações florestais. Essas APPs formam corredores na paisagem conectando a vegetação nativa com a vegetação do entorno das plantações. As APPs abrigam muitas espécies de aves dependentes dos campos de vegetação alta. Em estudos realizados entre 2014 e 2021 foram registradas inclusive duas espécies de aves ameaçadas nesses campos. Durante este estudo também verificamos um aumento da ocorrência de arbustos e aves associadas a estes. Ou seja, a ausência total de distúrbios em campos protegidos no Pampa, também pode ser um fator de ameaça para aves campestres. Com a exclusão total do pastejo dentro de áreas protegidas, ocorre um avanço da vegetação arbustiva sobre os campos (Andrade et al. 2019). Em longo prazo, a invasão de plantas lenhosas, em algumas regiões, pode substituir totalmente a vegetação campestre (Pillar e Vélez-Martin 2010; Sühs et al. 2020). Assim, aves dependentes dos campos serão extintas localmente nessas áreas.

Estratégias para a conservação das aves campestres devem envolver a aplicação de algum nível de distúrbio na vegetação, em diferentes intensidades e frequências, formando mosaicos de vegetação em diferentes alturas e densidades na paisagem. A introdução de um nível mínimo de distúrbio em áreas de campo abandonado pode aumentar a qualidade do habitat para aves especialistas campestres e também para outros taxa que dependem dos campos para sobreviver. Em áreas protegidas, o manejo da vegetação deve ser realizado em caráter experimental, com um monitoramento contínuo do grupo alvo para conservação. Os mosaicos da vegetação em diferentes alturas e densidades podem maximizar a diversidade de aves em diferentes regiões do Pampa.

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Referências:

> Andrade BO, Bonilha CL, Overbeck GE, Vélez-Martin E, Rolim RG, Bordignon SAL, Schneider AA, Ely CV, Lucas DB, Garcia EN, dos Santos ED, Torchelsen FP, Vieira MS, Filho PJSS, Ferreira PMA, Trevisan R, Hollas R, Campestrini S, Pillar VDP, Boldrini II (2019) Classification of South Brazilian grasslands: Implications for conservation. Appl Veg Sci 22:168-184. https://doi.org/10.1111/avsc.12413
> CFB 2012. Código Florestal Brasileiro. Lei Nº 12.651, de 25 de maio de 2012. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm.
> Fontana CS, Bencke GA (2015) Biodiversidade de aves. In: Pillar VDP, Lange O (Eds) Os campos do Sul. Porto Alegre: Rede Campos Sulinos, UFRGS, pp. 93-99
> Fontana CS, Dotta G, Marques CK, Repenning M, Agne CE, dos Santos RJ (2016) Conservation of grasslands birds in South Brazil: a land management perspective. Nat Conserv 14:83-87. https://doi.org/10.1016/j.ncon.2016.09.005
> IBGE (2004) Mapa da vegetação do Brasil e Mapa de Biomas do Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística https://ww2.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/21052004biomashtml.shtm#sub_download
> Jacoboski LI, Paulsen RK, Hartz SM (2017) Bird-grassland associations in protected and non-protected areas in southern Brazil. Perspect Ecol Conserv 15:109-114. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2017.05.002
> Overbeck GE, Müller SC, Fidelis A, Pfadenhauer J, Pillar VDP, Blanco CC, Boldrini II, Both R, Forneck ED (2007) Brazil’s neglected biome: the south Brazilian campos. Perspect Plant Ecol 9:101-116. https://doi.org/10.1016/j.ppees.2007.07.005
> Pillar VDP, Vélez-Martin E (2010) Extinção dos Campos Sulinos em unidades de conservação: um fenômeno natural ou um problema ético? Nat Conserv 8:84-88. https://doi.org/10.4322/natcon.00801014
> Sühs RB, Giehl ELH, Peroni N (2020) Preventing traditional management can cause grassland loss within 30 years in southern Brazil. Sci Rep 10:783. https://doi.org/10.1038/s41598-020-57564-z

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