Receba as novidades do blog e conteúdos exclusivos de conservação

Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Larissa Yoshida Roselli
Postado dia 08/01/2022

Bióloga pela UNESP – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Mestra e doutoranda em Biodiversidade de Ambientes Costeiros, oferecido pela UNESP – Câmpus do Litoral Paulista. Possui interesse em ecologia e atua na área de biodiversidade e conservação de aves em ambientes costeiros, com o intuito de identificar vulnerabilidades em seus habitats.















Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

As aves migratórias neárticas são aquelas que se reproduzem no ártico durante o verão boreal e se deslocam para a América do sul fugindo do inverno, até locais com condições climáticas mais favoráveis. Durante a migração, as aves necessitam se alimentar e descansar, assim procuram os chamados stopovers, que são pontos estratégicos dentro de suas rotas, onde há abundância de alimento. Os stopovers são essenciais para a sobrevivência dessas aves, pois dependem do acúmulo de gordura para terem condições fisiológicas adequadas para chegarem até as áreas de invernada, assim como para o retorno as áreas de reprodução.
 
As aves migratórias neárticas compreendem muitas espécies da ordem Charadriiforme, que são conhecidas como aves limícolas. De acordo com o ICMBIO (2013) essas aves dependem dos ambientes úmidos e se alimentam nas zonas entre-marés e margens de corpos d’água, como lagunas e estuários, embora também possam ocupar outros tipos de habitat. Por essas características, essas aves migratórias têm preferência por pontos de parada na região costeira do Brasil e também outras áreas úmidas, como o Pantanal.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: Maçarico-branco Calidris alba (Pallas, 1764) forrageando na praia da Ilha Comprida, Litoral sul do Estado de São Paulo. Foto: Larissa Yoshida Roselli.

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Além das aves, o litoral brasileiro também é ocupado pelo ser humano, com intensa atividade recreativa, tráfego, presença de animais domésticos e aumento da urbanização, esse compartilhamento de espaço causa impactos diretos nas aves limícolas, que podem entender o ser humano como um possível predador (Frid & Dill, 2002). Alguns estudos demonstram que a distribuição, abundância e o comportamento das aves sofrem efeitos negativos da recreação, coleta de invertebrados e pesca (Burton et al., 2002; Burger et al., 2004; Finney et al., 2005;).

O principal impacto da presença humana é a restrição aos recursos, pois as aves se afastam de seus locais de alimentação com a aproximação de pessoas e/ou animais domésticos. Em estudo no Chile, Navedo et al. (2019) analisaram os efeitos dos distúrbios humanos na atividade de forrageio da espécie Maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica), comparando uma baía sem distúrbios e outra com distúrbios, e identificaram que mesmo a baixa presença de humanos na praia pode reduzir significativamente a densidade e a atividade de forrageio dessa espécie.
 Na região onde há atividades antrópicas, as aves perderam cerca de 5% do tempo de forrageio, o que parece ser pouco, mas que pode causar prejuízos aos indivíduos, pois no período pré migração as aves necessitam dobrar a massa corpórea, e assim aumentam a taxa de consumo de alimento, mas com a perda de 5% desse período de engorda, as aves não conseguem atingir o peso ideal e são forçadas a iniciar a migração com poucas reservas energéticas, podendo não conseguir compensar esse dano ao longo do ciclo anual.

A diminuição do tempo de forrageio também pode ser explicada pelo aumento do comportamento de vigilância, as aves interrompem sua alimentação para ficarem atentas à aproximação das pessoas ao redor e, dependendo da distância, fogem para outras áreas (Martín et al., 2014; Navedo et al., 2019). Outro fator que dificulta a alimentação das aves, é o aumento de veículos trafegando pelas praias, além do risco de atropelamento e o distúrbio sonoro, os veículos podem causar a compactação do sedimento e maior penetração dos invertebrados, que são os alimentos das aves limícolas (Neves et al., 2008)

O consumo insuficiente de alimento pode causar problemas severos em níveis individuais, entretanto se as espécies não encontram ambientes propícios à sua sobrevivência para evitar esses danos, em longo prazo os distúrbios de origem antrópica podem fazer com que as aves abandonem uma área permanentemente ou ainda causar a diminuição do tamanho populacional de algumas espécies (Pfister et al., 1992).

Como dito acima, alguns distúrbios podem provocar a diminuição do tamanho populacional de algumas espécies, sendo importante a conservação destas, principalmente as que já apresentam declínio de suas populações, como o Maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) e o Maçarico-acanelado (Calidris subruficollis), que estão classificados internacionalmente como “quase ameaçados” (Birdlife international, 2021).

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 2: Maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) forrageando na praia da Ilha Comprida. Indivíduo anilhado no Québec, Canadá, no dia 06/10/2021. Foto: Larissa Yoshida Roselli.

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Com o início das férias de fim de ano, é incontestável que há um aumento do número de pessoas nas praias, este período coincide com a época em que as aves migratórias estão passando pelo litoral do Brasil, para chegarem até suas áreas de invernada. Assim como nós vamos à praia para descansar, as aves migratórias também estão utilizando esse espaço para a mesma finalidade, entretanto a maior diferença é que se elas não tiverem esse tempo de descanso, a probabilidade de não retornarem para casa é muito maior que a nossa.

Para que nós possamos aproveitar nossos momentos de lazer sem causar prejuízos para as aves, o Plano de Ação Nacional para Conservação de Aves Limícolas Migratórias sugere algumas boas práticas, como manter os cães na coleira, manter-se afastado de bandos de aves, respeitar ambientes onde há possibilidade de encontrar ninhos e evitar se aproximar das aves enquanto elas estão se alimentando. Além das boas práticas, a sociedade civil também pode contribuir com os cientistas na conservação das aves limícolas, informando quando avistar um indivíduo anilhado por meio de um formulário disponível no site do CEMAVE .

Referências:BirdLife International (2021). IUCN Red List for birds. Disponível em http://www.birdlife.org
Burger, J.; Jeitner, C.; Clark, K. & Niles, L. J. (2004). The effect of human activities on migrant shorebirds: successful adaptive management. Environmental Conservation, 31(4), 283–288. doi:10.1017/s0376892904001626
Burton, N. H. K.; Armitage, M. J. S.; Musgrove, A. J. & Rehfisch, M. M. (2002). Impacts of Man-Made Landscape Features on Numbers of Estuarine Waterbirds at Low Tide. Environmental Management, 30(6), 857–864. doi:10.1007/s00267-002-2732-5
Finney, S. K.; Pearce-Higgins, J. W. & Yalden, D. W. (2005). The effect of recreational disturbance on an upland breeding bird, the golden plover Pluvialis apricaria. Biological Conservation, 121(1), 53-63.
Frid, A. & Dill, L. (2002). Human-caused disturbance stimuli as a form of predation risk. Conservation ecology, 6(1).
ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Sumário Executivo do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias. Brasília: ICMBio, 2013.
Martín, B.; Delgado, S.; de la Cruz, A.; Tirado, S. & Ferrer, M. (2014). Effects of human presence on the long-term trends of migrant and resident shorebirds: evidence of local population declines. Animal Conservation, 18(1), 73–81. doi:10.1111/acv.12139
Navedo, J. G.; Verdugo, C.; Rodríguez-Jorquera, I. A.; Abad-Gómez, J. M.; Suazo, C. G.; Castañeda, L. E.; Araya, V.; Ruiz, J. & Gutiérrez, J. S. (2019). Assessing the effects of human activities on the foraging opportunities of migratory shorebirds in Austral high-latitude bays. PLoS One, 14(3), e0212441.
Neves, L. P. D.; da Silva, P. D. S. & Bemvenuti, C. E. (2008). Temporal variability of benthic macrofauna on Cassino beach, southernmost Brazil. Iheringia. Série Zoologia, 98(1), 36-44.
Pfister, C.; Harrington, B. A. & Lavine, M. (1992). The impact of human disturbance on shorebirds at a migration staging area. Biological Conservation, 60(2), 115–126. doi:10.1016/0006-3207(92)91162-l





LEIA MAIS NO BLOG CIÊNCIA EM AÇÃO

Feito com as
Extensões da Hotmart