Receba todas as nossas novidades e conteúdos exclusivos

Início > Conteúdos > Ciência em Ação > Paralelos entre Biologia da Conservação e Educação Ambiental

Paralelos entre Biologia da Conservação e Educação Ambiental
Por: Suzana Machado Padua
Postado dia 17/08/2021
Educadora Ambiental com doutorado pela UnB e mestrado pela Universidade da Flórida, co-fundadora e Presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas e professora da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade - ESCAS/IPÊ









A razão de se ter criado a Biologia da Conservação reflete a inabilidade ou ineficácia da humanidade em lidar com a natureza. Os campos específicos do conhecimento têm sido predominantes, levando à formação de especialistas em diversas áreas do saber, mas que nem sempre contemplam uma noção do todo. Falta, na maioria dos profissionais ligados à conservação, uma visão sistêmica, holística, de interdependência, fundamental para se compreender as teias da vida e a conexão entre todos os elementos existentes no planeta.

Como agravante, a concentração humana nos centros urbanos tem resultado em um maior distanciamento do ser humano com sua essência natural. É como se o que ocorre na natureza não afetasse a qualidade de vida em geral, e em especial a da espécie humana, que muitas vezes adia enxergar o que se passa, até que os efeitos de suas ações batam à sua porta, como falta d’água, poluições, deslizamentos de terras, erosões, e até pandemias, como a que assolou o mundo nos últimos dois anos.

Nesse cenário, os ecossistemas naturais foram sendo degradados, a biodiversidade perdida, a qualidade da água e do ar deteriorada e o planeta biologicamente empobrecido. Levou tempo para que se percebesse a necessidade de buscar alternativas regenerativas para as consequências das ações humanas. Todavia, nas últimas três ou quatro décadas, muitos vêm se debruçando na identificação de caminhos mais promissores com soluções mitigadoras para aquilo que é deletério aos ambientes naturais.

A conservação da natureza passou a ser uma necessidade premente, já que cada vez se tem menos habitats naturais. Pensadores de muitas áreas se envolveram a diferentes temas para proporem soluções. Ainda nos primórdios dessa busca, Arne Naess (1995) foi visionário e inovador ao questionar o que estava acontecendo, e, baseado em observações e estudos, acabou propondo o que chamou de Ecologia Profunda. Naess via lacunas na ecologia tradicional que não respondia à complexidade do que ocorria no mundo real. Para ele, as perguntas tinham que ser mais profundas e abrangentes, o que não acontecia na academia porque atingiria outras áreas do saber que não da ecologia.


Imagem da Bocaina
Tucano - Foto de Mauricio Guardiano - Unsplash
A noção do planeta visto como um corpo vivo foi defendida por James Lovelock (1975), com sua Teoria de Gaia, nome grego da deusa Terra e, portanto, uma alusão ao nosso lar. Nela, tudo está conectado e o que acontece a um ser ou elemento reverbera no todo. Essa hipótese pressupõe que a biosfera, com todos os seus componentes físicos, é intimamente integrada, formando um complexo sistema que mantém as condições climáticas e biogeoquímicas em homeostase, que seria o mais próximo ao equilíbrio que permite a vida tal como a conhecemos. Lovelock também não foi levado a sério no mundo da ciência tradicional quando lançou sua teoria.

Outro pensador que merece reconhecimento e é considerado “Pai” da Biologia da Conservação é Michael Soulé (1980), que também percebeu como a conservação da natureza é multifacetada e impossível de ser tratada unilateralmente. No início, este campo não foi considerado “ciência” nos meios tradicionais de pesquisa, mas estava cada vez mais claro que a visão precisava ser amplificada, integrando diversos campos do saber e do agir para que a conservação fosse bem sucedida.
Por que esses e outros pensadores foram negados pela ciência tradicional? Parece que tudo o que sai dos padrões estabelecidos tende a sofrer resistência. Hegel já defendia o avanço da humanidade num ciclo de tese, antítese e síntese, que seria novamente questionada para que a evolução do pensamento não esmorecesse. Essa foi a sua forma de descrever o avanço no conhecimento.

Na mesma linha, Gaston Bachelard (1984) percebeu a importância de questionar continuamente o que é considerado verdade para que avanços ocorram e novas descobertas científicas sejam possíveis. Sua epistemologia, como foi conhecida essa forma de pensar a ciência, impõe um processo de se estar sempre alerta ao novo, e a não aceitação do que está estabelecido. Exige uma indagação contínua que visa mover o fluxo do pensamento e do conhecimento.

Edgar Morin (1996) defende a complexidade como base para a ciência. Segundo ele, se o pesquisador se atenta a um só campo do conhecimento, enxerga apenas a ponta do iceberg. Com isso, deixa de ver a multiplicidade e a riqueza dos aspectos que envolvem seu estudo. Perde o que pode ser a fonte e as consequências de sua pesquisa, não levando em conta a multiplicidade de aspectos que propiciam o enriquecimento do conhecimento.

Mais recentemente, e com certo humor, surgiu um conceito interessante proposto por Murilo Gun: combinatividade. A criatividade, para Gun, é um conglomerado de conhecimentos que juntos criam novidades; é a combinação de saberes que leva a novas descobertas. Mesmo que Gun não tenha se referido à ciência propriamente dita, sua ideia de integrar campos distintos pode trazer novas perspectivas para especialistas e generalistas. A combinatividade teria, assim, o potencial de contribuir para o avanço de novas descobertas também no mundo da conservação.

Porém, a resistência a mudanças e a rupturas de pensamentos adquiridos e incorporados é comum, seja no âmbito individual ou no coletivo. Essa tendência atinge a todos, inclusive o ambiente acadêmico, que é considerado um incentivador de avanços, mas que também esbarra em preconceitos adquiridos. É preciso mudar porque ousar faz parte das grandes descobertas, mesmo que muitas vezes ideias novas levem anos para serem aceitas. A história está repleta de exemplos de desbravadores de conhecimentos inovadores que morreram por suas ideias, seja nas ciências, nas religiões ou na introdução de diferentes modos de vida.

Hoje, as evidências de que a humanidade precisa mudar são incontestáveis. Um relatório recente do IPCC (agosto de 2021) indica que grande parte dos câmbios climáticos se deve indubitavelmente às ações humanas. Outro indicador recente alarmante é a disparidade entre ricos e pobres, com uma concentração de riqueza nunca vista – 1% dos mais ricos detém o equivalente ao que 99% dos habitantes restantes da Terra possuem. A tendência de escolhas egoístas precisa ser extirpada em todos os sentidos. Mas como deixar de priorizar o bem individual para se beneficiar a coletividade? É uma revolução paradigmática, pois se pequenas mudanças encontram barreiras para se manifestarem, como reverter um quadro predominante de concentração de poder e riqueza que leva à tanta destruição? Como deixar de agir em causa própria para pensar no que é melhor para a coletividade - para o planeta?

As respostas estão sendo buscadas em muitos ambientes. Mas, sem dúvida, é necessário um salto de percepção. É preciso uma revolução no pensamento e um despertar para a beleza da vida. Talvez seja necessário instigar a ousadia desde a infância e em todo o processo de aprendizagem. Deve-se não mais incentivar que as crianças e aprendizes sejam iguais para reduzir o trabalho de se dar aulas a turmas numerosas, por exemplo. Ao contrário, o ideal é despertar talentos individuais por meio de disciplinas convencionais adicionadas à arte, ao esporte e a qualquer outra forma de expressão criativa. Se isso vai dar certo ou não, só o tempo dirá, mas é uma tentativa, em meio a muitas que merecem atenção.
Como a educação ambiental se tornou fundamental?

Se é a humanidade que tem causado os maiores impactos ao planeta, é ela que precisa mudar sua perspectiva, sua visão, seu olhar, seus valores e agir de acordo com o que é correto, ético e sustentável. Porém, mudar comportamentos, como já foi apontado, não é fácil e exige, primeiramente, que o ser humano acredite em algo maior que faça sentido. Algo que traga a percepção do valor da vida e de nosso papel como um ser em meio a muitos, levando em conta que todos têm direito a seguir dignamente seu processo evolutivo natural.

Para que isso ocorra, não basta saber. Conhecimentos precisam embasar as crenças de modo a se construir credibilidade no fazer e como um meio para se errar menos. O ser humano é integral, com seu lado direito do cérebro (intuitivo, sensível, afetivo e de valores) e seu lado esquerdo (racional, objetivo e estruturado), mesmo que há milênios o racional tenha sido priorizado, tendo deixado o sensível na retaguarda. Mas é o equilíbrio entre os dois hemisférios que se faz necessário se visamos qualquer chance de mudanças.
Imagem Bocaina

Josue Michel - Unsplash

Talvez esse seja o principal diferencial da educação ambiental em relação à educação tradicional. A constatação de que a educação oferecida não estava surtindo efeitos positivos no que tange aos impactos ao meio ambiente levou vários pensadores a elaborarem as bases da educação ambiental, que incluiu valores, engajamento, empoderamento para ação com base em reflexões que levam a escolhas mais conscientes. Bill Stapp (1996) foi um desses pensadores e junto a um seleto grupo desenhou e definiu o campo da educação ambiental. Stapp acreditava na ação para a resolução de problemas e deu exemplo de como isso seria possível, focando diversos temas, principalmente a qualidade da água.

A ideia é que os conhecimentos transmitidos passem a ter componentes adicionais que ajudem o indivíduo a se tornar um cidadão com aptidões a agir com base em reflexões, e não mais por obediência a autoridades hierárquicas. É um processo transformador que pode levar à transgressão das estruturas estabelecidas com base em escolhas que beneficiem a todos, humanos e não humanos do planeta.
Imagem Bocaina

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Este é o escopo ideal do que é essa nova educação e explica o pensamento por trás do que se pretende. Mas, a educação ambiental também é bastante questionada nos ambientes acadêmicos, e raramente é vista como ciência. Hoje, alguns educadores trabalham com metodologias científicas para elevar a credibilidade desse campo a patamares que tragam maior reconhecimento de sua importância.

Assim como a Biologia da Conservação, a educação ambiental lida com complexidades em todas as suas esferas de atuação. Conservação da natureza necessita de muitas visões da realidade onde ocorre e por isso precisa lançar mão de mecanismos para sensibilizar, informar e engajar os seres humanos. O intuito é que as pessoas se tornem aliadas à conservação e não transgressoras, e que passem a defender as questões socioambientais que levam à sustentabilidade. Na visão sistêmica embutida na Biologia da Conservação, a educação ambiental tem papel relevante, talvez mesmo imprescindível para alcançar objetivos tão ambiciosos.

Cabe aos cientistas e conservacionistas integrarem de fato seu arsenal de saberes para que juntos tenham a chance de mudar as realidades destrutivas. Mesmo que muito tempo já tenha se passado desde que as grandes perdas começaram a ocorrer, mesmo que muitas dessas perdas sejam irreversíveis em diferentes aspectos, precisamos agir juntos, com base em valores e conhecimentos que nos levem a perspectivas mais promissoras de proteção da vida na Terra. Esse é o nosso mais importante papel como cidadãos do planeta Terra: proteger Gaia, nosso lar, com todas as frentes que estiverem ao nosso alcance. A ousadia por inovação e mudanças precisa ser contínua e cada vez mais integrada.


Mais sobre a autora:

Link para curriculum lattes: http://lattes.cnpq.br/0615879056028445
Email: [email protected]
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/suzana-padua-891b5621/

Foto da capa: Nasa - Unsplash

Referências:

BACHELARD, Gaston. A Epistemologia. Editora Edições 70. 1984.
GUN, Murilo. https://www.facebook.com/murilogunfanpage/videos/337381433746354 ; https://www.youtube.com/watch?v=wL9C7vOLAQ4
LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press. 1979.
MORIN, Edgar. Epistemologia da complexidade. In: Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas. 1996.
NAESS, Arne. Self-realization: an ecological approach to being in the world. In: The deep ecology movement: an introductory anthology. DRENGSON, A. e Y. INOUE (organizadores). Berkeley: North Atlantic Books. 1995. p.13-30.
SOULÉ, Michael. Thresholds for survival: maintaining fitness and evolutionary potential. In: Conservation Biology, an Evolutionat-Ecological Perspective. M. E. Soule e B. A. Wilcox. Sunderland (organizadores). Massachusetts: Sinauer Associates, Inc. 1980.
STAPP, William B., WALS, Arjen E.J. e STANKORB, Sheri L. Environmental education for empowerment: action research and community problem solving. Iowa: Kenda//Hunt Publishing Company. 1996.