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Brejos de altitude: ilhas de endemismo e áreas chaves para a conservação de anfíbios e répteis do Ceará
Por: Igor Joventino Roberto
Postado dia 13/08/2021
Biólogo (Universidade Federal do Ceará), Mestre em Bioprospecção Molecular (URCA), doutor em Zoologia (Universidade Federal do Amazonas), Pós-doutorado (Universidade Federal do Ceará), consultor ambiental, atua principalmente nas áreas de zoologia, taxonomia, sistemática e conservação de anfíbios e répteis.









Ao longo de milhares de anos diferentes fatores, como mudanças climáticas, processos geomorfológicos e alterações antrópicas moldaram os diferentes domínios vegetacionais do mundo (Ellis et al., 2010; Costa et al., 2018; Finch & Meadows, 2019). Na América do Sul, várias pesquisas demonstraram que os biomas que conhecemos hoje passaram por diferentes mudanças ao longo do tempo (e.g. Hoorn et al., 2010; Werneck et al., 2011; Costa et al., 2018) Processos de expansão e retração florestal ao longo dos últimos 40 milhões de anos, formaram diferentes corredores de vegetação em diferentes períodos geológicos entre os dois grandes domínios florestais do Brasil, a floresta amazônica e a mata atlântica (Prates et al., 2016; Ledo & Colli, 2017). Nos períodos de expansão dos ambientes abertos mais secos como o bioma Caatinga, algumas ilhas de florestas úmidas conseguiram se manter por estarem localizadas em formações serranas com altitudes entre 500 e 900 metros de altitude. Esses oásis de vegetação florestal úmida em meio ao domínio seco e árido da Caatinga, na depressão sertaneja, ficaram conhecidos como Brejos de altitude ou Brejos nordestinos (Andrade-Lima, 1982).

O estado do Ceará é conhecido por estar completamente inserido no bioma Caatinga, o único bioma exclusivo do Brasil, e conhecido pela sua vegetação xérica, com plantas que apresentam caducifólia, ou seja, que perdem suas folhas durante o período seco do ano. Resultado de milhares de anos de evolução, se adaptando ao baixo regime de chuvas e a sua inconstância ao longo dos anos (da Silva et al., 2017). Mas como toda regra existem exceções (Figura 1). É justamente no estado do Ceará que podemos encontrar vários desses Brejos de altitude, que surgem destoando da paisagem árida do sertão. Dentre os mais conhecidos: o Planalto da Ibiapaba, a Serra de Baturité, a Serra de Maranguape, a Serra de Aratanha se localizam no no norte do Estado, enquanto a Chapada do Araripe se localiza ao sul (Figura 2).
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Figura 1: Diferentes tipos de complexos vegetacionais no estado do Ceará: Caatinga sensu stricto a esquerda, e Brejos de altitude a direita.

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Figura 2: Localização dos principais Brejos de altitude no estado do Ceará: 1: Planalto da Ibiapaba, 2: Serra da Meruoca, 3: Serras de Maranguape e Aratanha, 4: Serra de Baturité e 5: Chapada do Araripe. Figura modificada de Moro et al. 2015.

São nessas regiões onde se encontram a fauna endêmica e ameaçada do Ceará, e um dos grupos que mais apresenta endemismos no Estado são os répteis e anfíbios (Borges-Nojosa & Caramaschi, 2003; Roberto & Loebmann, 2016). Esses animais são excelentes modelos para demonstrar como esses processos que moldaram a paisagem atual dos Brejos de altitude resultaram na maior diversidade de espécies, alto índice de endemismos e populações relictuais provenientes dos biomas Amazônia e Mata Atlântica (Fouquet et al., 2012; Castro et al., 2019).

Desde que comecei a pesquisar os anfíbios e répteis do Ceará, ainda na graduação em meados dos anos 2000, fiquei fascinado pela sua diversidade. Naquela época, só duas espécies de sapinhos de aproximadamente 2-3 cm de comprimento de um gênero antes conhecido apenas para a Amazônia, Adelophryne, eram consideradas endêmicas do Ceará (Hoogmoed et al., 1994). Uma dessas espécies, Adelophryne maranguapensis, só ocorre na Serra de Maranguape, em altitudes acima de 800m de altitude e se reproduz depositando seus ovos em bromélias (Figura 3) (Cassiano-Lima et al., 2020). Essa espécie se encontra em perigo de extinção e sofre com a perda de habitat na região, pelo desmatamento e retirada de bromélias para comercialização. A outra espécie, Adelophryne baturitensis, ocorre em diferentes Brejos de altitude, como na Serra de Baturité, Ibiapaba e Aratanha, apresentando uma maior versatilidade de habitats, ocorrendo desde os 500 m de altitude.

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Figura 3: Adelophryne maranguapensis, espécie endêmica da Serra de Maranguape, Ceará, e em perigo de extinção. A direita um macho adulto e a esquerda uma desova depositada em bromélia.

Com o aumento dos inventários faunísticos nos Brejos de altitude e o desenvolvimento de estudos taxonômicos foram descritas várias novas espécies endêmicas dos Brejos de altitude. Duas espécies de anfíbios anuros: Proceratophrys ararype (Figura 4D) (Mângia et al., 2018) e Rhinella casconi (Figura 4C) (Roberto et al., 2014); uma espécie de lagarto (Placosoma limaverdorum) (Figura 4A) (Borges-Nojosa et al., 2016), e duas serpentes (Apostolepis thalesdelemai e Atractus ronnie) (Figura 4B) (Passos et al., 2007; Borges-Nojosa et al., 2017). Muitas delas se encontram ameaçadas de extinção como as espécies Adelophryne maranguapensis e Atractus ronnie, ambas em perigo de extinção, enquanto outras ainda não tiveram seus status de conservação avaliados, mas provavelmente se encontram ameaçadas de extinção. Este é o caso do sapo, Proceratophrys ararype, descrito em 2018, que possui uma distribuição restrita à mata úmida da encosta da Chapada do Araripe (Mângia et al., 2018). Essa região também é lar de outra ave ameaçada de extinção, o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), e ambas estão ameaçadas devido ao desmatamento e canalização das nascentes, habitats utilizados por ambas as espécies para sua reprodução (Girão & Souto, 2005).
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Figura 4: Espécies endêmicas dos Brejos de altitude do Ceará: A: Placosoma limaverdorum, B: Atractus ronnie; C: Rhinella casconi; D: Proceratophrys ararype.

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Apesar desse conhecimento sobre os endemismos dos Brejos de altitude do Ceará, ainda se desconhecia o real número de espécies de anfíbios e répteis e a sua distribuição no Estado, essas informações são fundamentais para a elaboração de estratégias de conservação, e avaliação do status de conservação das espécies. Apesar de listas pré-existentes já terem sido publicadas no passado (e.g. Rocha, 1948; Cascon & Lima-Verde, 1990), foi apenas em 2016 que foi elaborada a lista da herpetofauna do Ceará através de uma extensa busca bibliográfica e inventários de campo, sendo compilado um total de 57 espécies de anfíbios e 126 de répteis (Roberto & Loebmann, 2016). Os autores verificaram que a maior diversidade de espécies ocorria nos Brejos de altitude que possuíam, além de espécies com ocorrência na Caatinga e do Cerrado, espécies restritas aos ambientes de florestas úmidas nas regiões mais elevadas das Serras. Nos Brejos de altitude são encontradas mais da metade das espécies que ocorrem no Estado. Através de uma análise para detectar as áreas chaves para a conservação das espécies (KBA) (Eken et al., 2004), os autores também indicaram que as Serras de Maranguape, Aratanha e Baturité possuíam o maior número de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, mas ao mesmo tempo não estavam inseridas em unidades de conservação integral, o que seria fundamental para a conservação dessas espécies. Apenas na Serra da Ibiapaba existe uma unidade de conservação integral, o Parque Nacional de Ubajara.

Uma estratégia que vem sendo desenvolvida em outro Brejo de altitude, Serra de Baturité, para suprir essa carência, foi a criação de uma rede de Reservas particulares de Patrimônio Natural (RPPN) que vem auxiliando na proteção e conservação das espécies que ocorrem nesta região. Essa rede foi criada inicialmente para impulsionar a conservação do periquito cara-suja, Pyrrhura griseipectus, uma espécie de ave ameaçada de extinção que vêm sendo uma espécie bandeira para esse brejo de altitude, ajudando a conservar todas as demais espécies da região, incluindo os anfíbios e répteis. Além disso a disseminação do conhecimento acerca da rica biodiversidade nos brejos de altitude e a educação ambiental que vem sendo desenvolvida na região são fundamentais para conscientizar o povo sobre a importância da conservação dessas áreas.

Apesar de todo o aumento das pesquisas e do conhecimento sobre a biodiversidade dos Brejos de altitude, novas espécies de anfíbios e répteis endêmicas dos Brejos de altitude cearenses ainda não estão formalmente reconhecidas pela ciência, não estando descritas ainda. Esse é um aspecto extremamente importante do estudo da taxonomia, ramo da ciência responsável principalmente pela descrição e classificação dos organismos e suas relações evolutivas (De Queiroz & Gauthier, 1990). Apenas após a descrição das espécies que podemos avaliar o status de conservação das mesmas e dessa forma traçar estratégias de preservação.

No momento novas espécies ainda estão sendo descritas para os Brejos de altitude do Ceará (Roberto, I.J comunicação pessoal), e ao mesmo tempo está sendo elaborada a primeira lista de espécies ameaçadas do Estado, através do Programa Cientista Chefe do Governo do Estado do Ceará (https://www.sema.ce.gov.br/fauna-do-ceara ), dessa forma será possível se traçar estratégias de conservação mais eficazes em níveis local e regional, auxiliando na preservação dos anfíbios e répteis do estado do Ceará e dos Brejos de altitude.

Mais sobre o autor:

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Referências:

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