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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Jhonny J. M. Guedes
Postado dia 06/11/2021

Biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução na Universidade Federal de Goiás. Seus interesses residem em aplicar suas experiências com sistemática e taxonomia em abordagens macroecológicas, particularmente dentro da temática de lacunas de biodiversidade.















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Já ouviu falar em ciência cidadã? Esse termo que surgiu a cerca de três décadas tem ganhado cada vez mais destaque e popularidade nos últimos anos. Basicamente, a ciência cidadã representa a participação do público em projetos científicos (1) através, por exemplo, da coleta e/ou processamento de dados de programas de monitoramento – de animais, plantas, planetas, estrelas, e por ai vai (2, 3). Ou seja, a ciência cidadã representa a colaboração mútua entre cientistas e o público em geral.

Pessoas que participam destes projetos são comumente chamadas na literatura como cientistas cidadãos, cientistas amadores, não profissionais, ou não cientistas. Independente do termo utilizado, um ponto importante é que estas pessoas geralmente prestam serviço voluntário, ou seja, o fazem como hobby por gostarem ou terem curiosidade sobre uma dada área da ciência. Um exemplo clássico é a observação de pássaros (Figura 1), atividade realizada por milhares de pessoas em diversas regiões, e que, associada a projetos de ciência cidadã, passou a fornecer aos cientistas diversas informações importantes sobre inúmeras espécies de aves (4).

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Figura 1: Atividade de observação de pássaros. Fonte: Wikimedia Commons

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Apesar do termo ciência cidadã ser relativamente novo, sua origem remonta a alguns milênios. Na China antiga, por exemplo, gafanhotos migratórios podiam destruir colheitas inteiras, e as informações fornecidas pela população ajudavam a rastrear futuros surtos (5). Mais ‘recentemente’, temos dados sobre colisões de pássaros em faróis, coletados por faroleiros, que datam de 1890, e informações sobre a observação (contagem) sistemática de pássaros por cientistas cidadãos que remontam ao ano de 1900 (4). No século XX, a ciência cidadã foi empregada de maneira mais sistemática particularmente nas áreas da ornitologia (ciência que estuda os pássaros) e astronomia (ciência que estuda os corpos celestes, como estrelas e planetas). Recentemente, com grandes avanços na Internet e em poderio computacional, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, como da biologia da conservação (6), (macro)ecologia, e mudanças climáticas (7), também passaram a explorar o grande potencial da ciência cidadã para obtenção de dados sobre os mais diversos organismos e regiões.

Com relação a pesquisas em biodiversidade, com o passar dos anos dados sobre a biodiversidade tem sido descritos cada vez mais de forma quantitativa (ou numérica) ao invés de qualitativa. Atualmente, informações como riqueza, abundância e distribuição das espécies (pelos registros de ocorrência) são essenciais para diversos estudos ecológicos, evolutivos e conservacionistas. Logo, a ciência cidadã tem se tornado uma das principais avenidas na ‘quantificação’ da biodiversidade (2). Projetos dessa natureza, particularmente os de longo prazo, podem fornecer dados essenciais aos cientistas e tomadores de decisões sobre, por exemplo, tendências populacionais, estrutura e composição de comunidades, interações ecológicas, distribuição geográfica, taxonomia (ex., descoberta de novas espécies), dentre tantas outras. Como exemplos, cerca de 65% de novos registros de insetos para a Nova Guiana nos últimos anos foram fornecidos por cientistas cidadãos e aproximadamente 75% dos holótipos (espécime cujo nome científico de uma espécie está lastreado) de novas espécies foram coletados por entomologistas amadores (8). Cientistas cidadãos contribuem não só com a coleta de novas espécies, mas também com sua descrição formal; das mais de 770 espécies descritas, em média, todos os anos na Europa desde 1950, mais de 60% foram descritas por cientistas cidadãos (9). Além disso, projetos como o iNaturalist  (Figura 2), eBird , Carolina Herp Atlas , incentivam que pessoas enviem fotos de animais ou plantas de diversas partes do globo aos sites, fotos que poderão ser identificadas (se possível) por especialistas, e posteriormente, usadas em estudos científicos, tudo isso a custos relativamente baixos.

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Figura 2: Página inicial do iNaturalist com destaque para o número de observações já feitas.

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Apesar das inúmeras vantagens da ciência cidadã, a credibilidade dos dados produzidos (ex., precisão e acurácia) é comumente alvo de muito debate, e possivelmente, representa o principal desafio associado a essa iniciativa (10) – mesmo que em algumas situações a qualidade dos dados fornecidos por profissionais e não profissionais sejam similares (11). Vieses (geográficos, socioculturais, etc.) associados aos dados coletados por cientistas cidadãos também representam outro ponto de atenção. No entanto, vale destacar que, independente da origem, dados de biodiversidade apresentam ‘naturalmente’ muitos vieses (12). Além disso, cientistas cidadãos (e seus dados) normalmente estão dispersos espacialmente (presentes em diversas regiões), o que pode representar uma vantagem, visto que cientistas em si tendem a se aglomerar em torno de universidades/centros de pesquisa (13), e logo, estudar principalmente áreas próximas do seu ambiente de trabalho. Claramente, estes e outros problemas precisam ser considerados e cuidadosamente analisados. No entanto, alguns problemas podem ser resolvidos ou mitigados através, por exemplo, da aplicação de testes de nivelamento e uso de protocolos padronizados de acordo com o nível de habilidade dos participantes, de programas para treinamento e/ou aumento do engajamento dos participantes, da validação de observações/registros por parte de especialistas, e do aprimoramento e/ou desenvolvimento de tecnologias (ex., inteligência artificial) que ajudem tanto os participantes quanto os próprios cientistas na curadoria dos dados (14). Obviamente, todas essas estratégias exigem tempo, esforço, e financiamento para que sejam devidamente implementadas. Porém, elas são necessárias para aumentar a credibilidade dos dados obtidos, assim como dos das próprias produções científicas derivadas destes dados.

Um ponto importante a ser destacado é que o desenvolvimento da ciência cidadã trás benefícios não só para a comunidade científica, mas também para ao público participante. Cientistas cidadãos tendem a se familiarizar com a ciência e com o pensamento científico no decorrer dos projetos (15), o que pode contribuir para a mudança da percepção da sociedade sobre a ciência (16), algo essencial diante do intenso negacionismo científico observado atualmente. De fato, estudos apontam que as pessoas que participam de projetos de ciência cidadã podem apresentar maior engajamento com questões científicas, além de ganharem novos conhecimentos e habilidades (17). Além disso, essa iniciativa é uma forma interessante de chamar a atenção de não cientistas para questões de extrema relevância, como a atual ‘crise da biodiversidade’ causada por elevadas taxas de extinção de espécies, a importância da conservação da biodiversidade (18), e as ameaças impostas pelo aquecimento global (7, 19). Outro ponto crucial é que projetos de ciência cidadã podem aumentar a proximidade do público com a natureza, algo que pode trazer benefícios pra saúde dos participantes (Figura 3), ajudando, por exemplo, no combate da ansiedade e depressão (20), problemas que hoje afetam milhares de pessoas em todo o mundo.

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Figura 3: A ciência cidadã propicia maior interação com a natureza e trazer benefícios a saúde dos participaantes. Fonte: Unsplash.

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Estamos apenas começando a compreender tanto o verdadeiro potencial quanto os desafios da ciência cidadã, que deve continuar a ganhar tração com o passar dos anos, se difundindo para diversas áreas da ciência onde ainda é sub-explorada. Consequentemente, com essa maior difusão novas ferramentas precisarão ser desenvolvidas, assim como maior controle da qualidade dos dados, novas análises estatísticas e maior integração entre cientistas de diversas áreas para lidar com o grande volume de dados que serão obtidos. Apesar da ciência cidadã ter uma ótima relação custo-benefício, seu escalonamento e aprimoramento em termos de melhoria de qualidade também dependerão de mais investimentos, tanto de instituições públicas quanto privadas. Porém, independente dos desafios, a ciência cidadã oferece novas oportunidades para que cientistas possam elaborar e responder diversas novas questões sobre o mundo onde vivemos, ao mesmo tempo em que permite comunicar a ciência ao público de maneira mais efetiva.

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Foto da capa: Disponível em https://www.handleyregional.org/blog/try-some-citizen-science

Referências:
1. Gura T (2013) Citizen science: amateur experts. Nature 496(7444):259–261.
2. Chandler M, et al. (2017) Contribution of citizen science towards international biodiversity monitoring. Biological Conservation 213:280–294.
3. Marshall PJ, Lintott CJ, Fletcher LN (2015) Ideas for citizen science in astronomy. Annual Review of Astronomy and Astrophysics 53(1):247–278.
4. Bonney R, et al. (2009) Citizen science: A developing tool for expanding science knowledge and scientific literacy. BioScience 59(11):977–984.
5. Irwin A (2018) Citizen Science comes to age. Nature 562:480–482.
6. Encarnação J, Teodósio MA, Morais P (2021) Citizen Science and Biological Invasions: A Review. Frontiers in Environmental Science 8(January):1–13.
7. Dickinson JL, et al. (2012) The current state of citizen science as a tool for ecological research and public engagement. Frontiers in Ecology and the Environment 10(6):291–297.
8. Brûlé S, Touroult J (2014) Insects of French Guiana: A baseline for diversity and taxonomic effort. ZooKeys 130(434):111–130.
9. Fontaine B, et al. (2012) New species in the old world: Europe as a frontier in biodiversity exploration, a Test Bed for 21st century taxonomy. PLoS ONE 7(5). doi:10.1371/journal.pone.0036881.
10. Cohn JP (2008) Citizen science: Can volunteers do real research? BioScience 58(3):192–197.
11. Tiedeman K, Hijmans RJ, AlexanderMande, Waetjen DP, Shilling F (2019) The quality and contribution of volunteer collected animal vehicle collision data in ecological research. Ecological Indicators 106:105431.
12. Boakes EH, et al. (2010) Distorted views of biodiversity: Spatial and temporal bias in species occurrence data. PLoS Biology 8(6). doi:10.1371/journal.pbio.1000385.
13. Sheard JK, Sanders NJ, Gundlach C, Schär S, Larsen RS (2020) Monitoring the influx of new species through citizen science: The first introduced ant in Denmark. PeerJ 2020(4):1–19.
14. Freitag A, Meyer R, Whiteman L (2016) Strategies Employed by Citizen Science Programs to Increase the Credibility of Their Data. Citizen Science: Theory and Practice 1(1)(2):1–11.
15. Trumbull DJ, Bonney R, Bascom D, Cabral A (2000) Thinking scientifically during participation in a citizen-science project. Science Education 84(2):265–275.
16. Price CA, Lee HS (2013) Changes in participants’ scientific attitudes and epistemological beliefs during an astronomical citizen science project. Journal of Research in Science Teaching 50(7):773–801.
17. Peter M, Diekötter T, Kremer K (2019) Participant outcomes of biodiversity citizen science projects: A systematic literature review. Sustainability (Switzerland) 11(10):1–18.
18. Lewandowski EJ, Oberhauser KS (2017) Butterfly citizen scientists in the United States increase their engagement in conservation. Biological Conservation 208:106–112.
19. Champion C, Hobday AJ, Tracey SR, Pecl GT (2018) Rapid shifts in distribution and high-latitude persistence of oceanographic habitat revealed using citizen science data from a climate change hotspot. Global Change Biology 24(11):5440–5453.
20. Kotera Y, Lyons M, Vione KC, Norton B (2021) Effect of nature walks on depression and anxiety: A systematic review. Sustainability 13(4015):1–17.


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