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Comportamento animal: da observação à conservação









O interesse humano pelos animais vem desde nossas origens. Prova disso são as pinturas rupestres. Por vezes tais pinturas retratam animais, principalmente, sendo caçados ou cercados pelo homem. Em outro momento da história, deixamos de se interessar e retratar apenas os animais e passamos a observar também seus comportamentos. Extensos relatos sobre o comportamento de algumas espécies, domésticas e selvagens, podem ser encontrados em documentos antigos de diversas religiões politeístas e civilizações antigas. Isso se deve ao fato que muitas destas civilizações e/ou religiões cultuavam divindades antropozoomórficas – parte humana, parte animal. Portanto, tais divindades apresentavam caracteres/comportamentos da sua forma animal.

As civilizações avançaram e as observações sobre o comportamento animal se modificaram. Entretanto alguns tópicos permanecem os mesmos. A partir da observação do comportamento animal o ser humano foi capaz de:

a) Saber quando, como e do que poderia se alimentar.

b) Domesticar diversas espécies de animais.

c) Evitar a ação de animais predadores

Na era moderna o comportamento animal foi estudado por diferentes naturalistas: Charles Darwin, Charles Otis Whitman, Oskar Heinroth, Wallace Craig, entre outros. Mas a maior mudança no estudo do comportamento animal ocorreu na década de 1930. As observações feitas Nikolaas Tinbergenm, Konrad Lorenz e Karl von Frisch mudaram os rumos das observações do comportamento animal, que passou a ser chamado “Etologia”.
Exemplo de imagem
Atualmente, os estudos com comportamento animal vão além de simplesmente observar o comportamento das espécies. Eles apresentam relações diretas com outros campos da biologia como: ecologia, biologia evolutiva, neuroanatomia, neurobiologia. Os pesquisadores de hoje passaram a se interessar mais no processo comportamental em si, do que em uma única espécie ou em um grupo específico de espécies. Esse interesse faz com que um dos objetivos atuais de se estudar o comportamento animal esteja voltado para a conservação das espécies, o que permitiu o aprimoramento de técnicas de manejo, bem como técnicas de conservação e reintrodução de fauna.

Com o aumento da perda de diversidade global, a preservação das espécies necessita de métodos específicos de identificação, localização e monitoramento de indivíduos e populações. Nesse contexto, dados de comportamento animal são uma importante ferramenta para ser utilizada na conservação de espécies, principalmente, quando estas duas temáticas – comportamento animal e conservação – são tratadas em conjunto.

Em 1999, Charles Snowdon elencou razões pelas quais o estudo do comportamento animal gerou contribuições importantes para a conservação e manejo das espécies e recursos naturais:
1) O comportamento dos animais, frequentemente, fornece os primeiros indícios de degradação ambiental. Mudanças em comportamentos sexuais e em outros comportamentos ocorrem muito mais cedo e em níveis mais baixos de distúrbio ambiental do que alterações no padrão reprodutivo e no tamanho de populações. Se tais mudanças são notadas apenas quando a população diminui, pode ser que não haja salvação para o ambiente. Quando estudos de comportamento são realizados em ambiente natural, são geradas bases monitoramentos ambientais no futuro. Por exemplo, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos usa alterações comportamentais no deslocamento de pequenos peixes de água doce como um indicador de possível poluição por pesticida.

2) Por mais básica que seja, uma pesquisa sobre comportamento animal pode ter implicações econômicas a partir do manejo de espécies. As pesquisas iniciadas por Arthur Hasler, sobre a migração de salmões continuam a fornecer importantes informações que levam ao manejo sustentável dos peixes e a preservação da indústria do salmão no noroeste do Pacífico. Os resultados obtidos por Hasler permitiram um modelo de pesca de salmão sustentável na região dos Grandes Lagos.

3) Os resultados obtidos em estudos de comportamento animal permitem a redução no uso de agrotóxicos e geram subsídios para o uso do controle biológico. Resultados de estudos do comportamento animal descrevem variáveis envolvidas na reprodução de insetos e localização de plantas hospedeiras, levando ao desenvolvimento de feromônios não-tóxicos para o controle de pestes, evitando dessa forma o uso de pesticidas tóxicos e permitindo a introdução de predadores naturais de determinadas espécies de presas.

4) Resultados sobre o comportamento de forrageio de abelhas, pode ser aplicado a mecanismos de polinização que, por sua vez, são importantes na reprodução e propagação de plantas.

5) Muitas espécies são conhecidas por serem dispersoras de sementes, sendo essências na propagação das espécies vegetais e preservação de habitats. O conhecimento do comportamento de forrageio de tais espécies é capaz de gerar a compreensão da regeneração florestal.

6) O conhecimento do comportamento de espécies que estão sob ameaça de extinção, permite a criação de medidas efetivas de proteção. A realocação, o manejo e a conservação efetiva de uma espécie ameaça não é possível sem o conhecimento de aspectos de sua história natural, como seus comportamentos (padrões migratórios, tamanho de território, interações com outros grupos, demandas de forrageio, comportamento reprodutivo, comunicação etc.).

7) Criadouros conservacionistas são muito bem-sucedidos quando consideram aspectos de comportamento animal. Estudos básicos sobre o comportamento reprodutivo das espécies leva ao melhoramento das técnicas de criação e reprodução em cativeiro, permitindo a conservação das espécies.
Felizmente, o avanço de pesquisas aliando as duas temáticas e das vantagens desta prática, já geram alguns efeitos práticos para a conservação das espécies e suas populações. Particularmente no
Brasil, talvez o “case” de maior sucesso seja o do mico-leão-dourado (Leotopithecus rosalia), onde informações sobre seu comportamento (relação com paisagens fragmentadas, comportamento de forrageio, reação frente a espécies invasoras, etc) serviram como ferramenta para sua conservação e manejo.

Com o avanço dos estudos comportamentais relacionados à conservação, programas conservacionistas surgiram e mais espécies (Ararinha-azul [Cyanopsitta spixii], Mutum-do-Nordeste [Mitu mitu], Arara-azul [Anodorhynchus hyacinthinus – “Projeto Arara Azul”], Queixada [Tayassu pecari], Anta [Tapirus terrestres - “Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira”], Perereca-de- Alcatrazes [Ololygon alcatraz – “Projeto de Conservação da Perereca-de-Alcatrazes”]) podem ter um futuro garantido, graças à sua conservação e manejo que teve como base o seu comportamento.
Imagem Bocaina

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