Receba as novidades do blog e conteúdos exclusivos de conservação

Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Rogério Parentoni Martins
Postado dia 28/05/2022

Idealizador deste Blog e pesquisador visitante, bolsista sênior pelo CNPq, Departamento de Biologia, Universidade Federal do Ceará.















Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Conceitos são estruturas linguísticas utilizados para caracterizar atributos específicos de um objeto de tal modo que possam servir na intercomunicação de descrições e ideias. Conceitos devem captar certos atributos diferenciais entre os objetos a fim de que possam situá-los em categorias distintas. Desse modo, possibilitariam certa rapidez na identificação dos objetos para que os discursos que se fizerem por seu intermédio não necessitem ser explicitados em múltiplos detalhes e só assim serem compreendidos. É desnecessário, por exemplo, quando falamos sobre um bebê que seja descrito o grau de maturidade de seus órgãos internos. No senso comum, sabemos quando o bebê deixa de sê-lo para ser entendido como criança e assim sucessivamente. No entanto, para propósitos analíticos específicos, como, por exemplo, em certos estudos morfofisiológicos sobre o comportamento de aprendizagem, dependendo do grau de profundidade do conhecimento que se pretenda alcançar, poderá ser necessário descrever e captar o estado de desenvolvimento e a função de diferentes áreas do cérebro durante a ontogenia do indivíduo.

Conceitos referem-se a objetos ou ideias cujas características possam ser captadas por meio dos sentidos. Embora apenas alguns poucos conceitos sejam nesse particular inequívocos, outros encerram complexidade tal que necessitam ser idealizados, ou seja, caracterizados por meio de aspectos que se pretendem universais e possam prontamente serem identificados e quem sabe inteligíveis. Todavia, esses tipos de conceitos complexos podem “esconder” detalhes, que a depender do interesse do estudo, devem ser explicitados, como por exemplo, o conceito ecossistema.

Ecossistemas pertencem à categoria de conceitos complexos, por isso sua pressuposta universalidade pode ser contestada quando se pretende caracterizá-los como uma unidade cognoscível e sobre a qual não deveriam pairar dúvidas sobre sua constituição inorgânica e orgânica. Quando cunhou o conceito ecossistema, Tansley (1935) classificou-o como um “isolado mental”, isto é um conceito que teria um significado unitário delimitado quando apreendido.

Esse conceito foi muito bem aceito entre ecólogos, pois de fato em sua origem pareceu ser universal e praticamente acessível como unidade de estudo. O objetivo de Tansley, ao cunhar esse conceito, era relacional, aliás uma característica imanente da ciência ecologia sejam quais forem os níveis hierárquicos de organização abordados por essa ciência. Dentro da perspectiva hierárquica, Tansley pretendeu chamar a atenção sobre o câmbio de substâncias entre os organismos e meio ambiente, caracterizando assim o ecossistema como uma unidade fundamental da ecologia, dentro de uma hierarquia de sistemas físicos que vai do átomo ao universo (Schowalter 2017).

Como não tenho aqui a pretensão de elaborar uma história do conceito, os leitores interessados poderão recorrer a Golley (1993) que bem se encarregou dessa tarefa. Também não pretendo aqui elaborar uma metafísica para esse conceito, o que foi preliminarmente realizado por Coutinho et al. (2012).

Nosso objetivo é empiriológico, na acepção de Maritain (1935, p. 69). A distinção feita por esse filósofo talvez seja útil para delimitar diferentes papéis que o conceito ecossistema pode assumir a depender do foco que se lance sobre ele. Maritain distinguiu entre os níveis analíticos ontogenético e empiriológico. Seu exemplo poderá servir para talvez compreendermos essa dicotomia, mais do que tentar defini-los. Imagina o filósofo que um botânico em trabalho de campo, ao observar uma planta faça a seguinte pergunta. “O que é um vegetal? ”. Para responder a essa pergunta, e entender dessa forma seu objeto de trabalho, seria necessário delimitá-lo por meio de certas características que seriam atributos apenas da categoria “vegetal”. Daí deveria partir-se para a análise ontológica, ou seja, o que é ser vegetal. No entanto, quase certamente, a esse botânico formado inteiramente sob perspectiva empiriológica, jamais ocorreria a formulação de tal pergunta. Essa seria concernente ao âmbito do conhecimento filosófico. Ainda utilizando o exemplo do botânico de Maritain, se aquele cientista, ao contrário, perguntasse como classificaria essa planta em um herbário de tipos, a análise seria empiriológica, por conseguinte, o âmbito seria o do conhecimento científico.

Meu objetivo aqui foi o de analisar empiriológicamente o conceito ecossistema como uma rede de inter-relações entre componentes físico-químicos do ambiente e os organismos que os utilizam e os disponibilizam em certo espaço e tempo. Delimitar recortes temporais e espaciais são decisões metodológicas que viabilizam a realização de um trabalho científico baseado em conceitos complexos. Porém, tais decisões podem “esconder” aspectos importantes das relações estudadas, principalmente porque essas podem estar além da demarcação realizada, especialmente quando se trata de tempo e espaço. Além da análise orgânica do ecossistema, esse aspecto delimitatório também será necessariamente discutido porque em se tratando de ecossistemas as fronteiras espaço-temporais que os demarcariam podem não ser tão perceptíveis. Por isso, o conceito ecossistema não mais poderia ser tratado e compreendido como um “isolado mental”.

Referências:Coutinho, F.A., Martins, R.P. & Neves, A.C.O. (2012). Uma metafísica para a ecologia. Argumentos 4(7): 111-118.
Golley, F. (1993). History of the ecosystem concept in ecology. Yale University Press.
Maritain, J. (1996). A Filosofia da Natureza. São Paulo, Edições Loyola. https://archive.org/details/philosophyofnatu00mari
Schowalter, T. D. (2017). Ecosystem Structure and Function. In: Insect Ecology - An Ecosystem Approach. Elsevier.
Tansley, A. G. (1935). The Use and Abuse of Vegetational Concepts and Terms. Ecology Vol. 16, No. 3, pp. 284-307.

VEJA OS ÚLTIMOS TEXTOS PUBLICADOS NO BLOG CIÊNCIA EM AÇÃO