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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Marina Alves Méga de Andrade
Postado dia 18/10/2021

Estudante do bacharelado de Biologia Marinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estagiária do Laboratório de Ecologia e Conservação de Ambientes Recifais (LECAR) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalhando atualmente com a comparação do monitoramento bentônico entre plataformas de análise manual e automatizada. Grande interesse em conservação, comportamento e interações.















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Os ambientes recifais são de extrema importância ecológica, social e econômica. Devido à sua grande diversidade, complexidade e produtividade primária são comparáveis às grandes florestas tropicais (Reaka-Kudla et al., 1997) e constituem uma teia complexa de associações entre diversos seres (Zilberberg et al., 2016), como corais, algas, esponjas, ouriços-do-mar, peixes, dentre outros. Além disso, os recifes fornecem uma gama de serviços ecossistêmicos indispensáveis para os seres humanos, como proteção da linha de costa contra tempestades, ondas e correntes, recursos alimentícios, turismo e potenciais fármacos (Zilberberg et al., 2016; Moberg & Folke, 1999). Entretanto, o cenário que esses ecossistemas enfrentam desde a chegada do Antropoceno não é dos melhores, sofrendo com impactos desde a escala local até a escala global.

Impactos Antrópicos

O aumento das concentrações de CO2 na atmosfera, seguidos pelo aquecimento global e a acidificação dos oceanos, são exemplos de impactos globais que os ambientes recifais sofrem. O excesso de CO2 sequestrado pelos oceanos reage com a água (H2O) produzindo Ácido Carbônico (H2CO3), que se dissocia formando íons bicarbonato (HCO3-) e H+ (Hoegh-Guldberg et al., 2007; Zilberberg et al., 2016). O H+ reduz o pH da água e tende a reagir com íon carbonato (CO3-), diminuindo a disponibilidade dele para organismos calcificadores como os corais (Hoegh-Guldberg et al., 2007) (Figura 1). Assim, esses organismos passam a apresentar uma redução nas taxas de calcificação, favorecendo a bioerosão (Hoegh-Guldberg et al., 2007), e a demanda energética sofre um aumento (Zilberberg et al., 2016). O aquecimento dos oceanos causado pelo aquecimento global também influencia diretamente nos animais que habitam os recifes. Dentre os impactos podemos citar alterações metabólicas, migrações, disseminação de doenças, mortalidade em massa e o famoso branqueamento de corais. Esses cnidários possuem simbiontes denominadas de zooxantelas, que através da fotossíntese transferem para eles os compostos necessários para nutrição e crescimento (Zilberberg et al., 2016). Determinados estressores ambientais, como o aquecimento das águas dos oceanos, fazem com que os corais expulsem ou percam suas zooxantelas e fiquem branqueados (Zilberberg et al., 2016), perdendo a principal forma de nutrição e ficando suscetíveis à doenças (Figura 2). Esses animais podem se recuperar ou podem morrer dependendo do tempo de duração e da intensidade do estressor, resultando no declínio desses ecossistemas e afetando todos os outros organismos relacionados (Zilberberg et al., 2016).

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Figura 1: Relação entre o aumento de CO2 atmosférico e a diminuição das taxas de calcificação dos corais devido a redução do pH da água (acidificação dos oceanos). Imagem retirada de (Hoegh-Guldberg et al., 2007).

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Figura 2: A) Esquema de branqueamento de corais (Zilberberg et al., 2016); B) Colônia de Acropora sp. branqueada, foto por Vardhan Patankar.

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Além disso, os impactos locais também têm forte influência nos ambientes recifais e possuem efeito sinérgico aos impactos globais. A retirada de peixes herbívoros através da sobrepesca, juntamente com a poluição por nutrientes, tendem a aumentar a cobertura de algas que alteram o microbioma dos corais, aumentam a suscetibilidade à doenças, causam perda de tecido, sombreamento e até mortalidade dos mesmos (Zaneveld, J. et al., 2016). A poluição por esgoto industrial também causa sérios danos a esses ecossistemas: os metais pesados se acumulam ao longo da cadeia alimentar e trazem grande prejuízo aos animais e aos seres humanos que deles se alimentam (Zilberberg et al., 2016). O turismo, apesar de benéfico socioeconomicamente, deve ser regulamentado e bem estruturado. Caso o contrário, pode apresentar impactos como mudanças comportamentais nos animais (Benevides, L. et al., 2019; Giglio, V. et al., 2019) pisoteio e destruição dos corais que fornecem abrigo e alimento para outros organismos (Hannak, J. et al., 2011), presença de lixo e ressuspensão de sedimento (Zilberberg et al., 2016). O desmatamento de florestas costeiras aumenta o aporte de sedimento que chega ao mar, aumentando a turbidez da água e diminuindo a penetração de luz, o que prejudica a fotossíntese das zooxantelas. Assim, os corais obtêm menos energia e perdem na competição com outros organismos, levando à alterações na estrutura da comunidade (Nyström, M. et al., 2000) e o possível colapso do ecossistema. Por fim, apesar da relação ainda não ser tão clara, estudos apontam casos em que recifes não impactados em escala local são mais resistentes à impactos globais (Carilli et al., 2009), tornando assim, de extrema importância a necessidade de controlar os impactos localmente (Zilberberg et al., 2016).

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Mas o que é necessário para conservar esses ecossistemas?

Diversas medidas podem ser tomadas para mitigação dos impactos sofridos pelos recifes, indo desde níveis individuais até o nível coletivo. Uma das principais maneiras de conservar os ecossistemas é a criação de unidades de conservação (UC), que podem ser divididas em: área de proteção integral ou áreas de uso sustentável (Zilberberg et al., 2016). Entretanto, a criação dessas áreas não é suficiente: deve ser acompanhada pela fiscalização de atividades ilegais, criações de medidas que controlem pesca e turismo, medidas socioambientais, educação ambiental e planos de manejo específicos para aquela unidade (Zilberberg et al., 2016) (TAMAR, s.d.). Os benefícios que as UC 's trazem são diversos, como a melhoria da qualidade da água, mantimento dos estoques pesqueiros, manutenção do equilíbrio do ecossistema e crescimento mais saudável dos corais (Zilberberg et al., 2016).

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Figura 3: Atol da Rocas, único Atol do Atlântico Sul, declarado em 1979 como a primeira área marinha protegida do Brasil. Foto por: Sérgio Floeter

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Quanto ao turismo, é importante que os guias sejam treinados e algumas condutas sejam definidas e estimuladas, como: não caminhar sobre o fundo recifal - evitando pisotear os corais e outros animais bentônicos-, não encostar nos animais - evitando danos aos organismos e às pessoas-, não ressuspender sedimento, não coletar conchas, esqueletos e carapaças, não descartar o lixo indevidamente, não perseguir os animais e evitar o uso de flash (Giglio, V. et al., 2018; Zilberberg et al., 2016; Segal, B et al., 2007). Além disso, quando realizado dentro das unidades de conservação, devem ter limitado o número de pessoas por dia e época do ano e o valor dos ingressos pode ser revertido para projetos de conservação (Zilberberg et al., 2016). Mais informações sobre turismo e mergulho sustentável estão disponíveis em materiais desenvolvidos por especialistas, como este vídeo:

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Segundo o SEEG, entre 1990 e 2019 houve um aumento de 17% na emissão de gás carbônico no Brasil, totalizando 2,17 gigatoneladas em 2019. O desmatamento, o aumento no tamanho do rebanho bovino, na demanda de energia elétrica por termelétricas, do uso do diesel pelo transporte e os resíduos sólidos, são exemplos de fatores responsáveis por esse aumento nas emissões de CO2 (SEEG, 2020). Ainda segundo o SEEG, entre as possíveis ações para minimizar o impacto causado por esses fatores estão: i. Prevenir e combater incêndios florestais, além de fortalecer a fiscalização e controle do desmatamento ilegal, ii. incentivar a restauração ecológica e ações de arborização urbana para ampliar a cobertura florestal, iii. Adotar a tecnologia de LED e preferir equipamentos elétricos mais eficientes (selo A PROCEL), iv. Incentivar e investir em energia limpa, v. preferir utilizar bicicletas e transporte público coletivo, vi. priorizar a compra de produtos de agricultura familiar local, vii. realizar coleta seletiva e fortalecer cooperativas de reciclagem e viii. ampliar e aplicar soluções para tratamento de esgoto. Outras possíveis medidas podem ser encontradas em: Seeg Brasil .

Por fim, para entender o funcionamento dos recifes e como eles se comportam frente aos impactos que sofrem, possibilitando o desenvolvimento de planos de conservação, são necessárias pesquisas de longo prazo (Quimbayo et al., 2018). Através delas é possível observar se houve declínio na diversidade local, se o ambiente sofreu uma mudança de fase, monitorar a saúde recifal, verificar a existência de espécies invasoras e verificar a representatividade dos grupos funcionais. Pesquisas para obtenção de dados sobre a biologia dos animais, microbioma associado, conectividade entre populações, dinâmica de comunidades, diversidade genética e estratégias reprodutivas também são fundamentais para entender holisticamente o ambiente e aperfeiçoar as práticas de manejo visando a conservação e recuperação de áreas degradadas (Zilberberg et al., 2016).

Referências:Carilli, J.E.; Norris, R.D.; Black, B.A.; Walsh, S.M.; McField, M. (2009). Local Stressors Reduce Coral Resilience to Bleaching. PLoS ONE, 4(7):e6324. Disponível em: <doi:10.1371/journal.pone.0006324>.

Hoegh-Guldberg, O; Mumby, P; Hooten, A.J; Steneck, R.S; Greenfield, P; Gomez, E; Harvell, C; Sale, P; Edwards, A; Caldeira, K; Knowlton, N; Eaking, C.M; Iglesias-Prieto, R; Muthiga, N; Bradbury, R; Dubi, A; Hatziolos, M. (2008). Coral Reefs Under Rapid Climate Change and Ocean Acidification. Science (New York, N.Y.). 318. 1737-42. 10.1126/science.1152509.

Inclusão social: primeiro, o Tamar cuida de gente. Projeto Tamar. Disponível em: <https://www.tamar.org.br/interna.php?cod=165>. Acesso em: 08 outubro de 2021

Judith S. Hannak; Sarah Kompatscher; Michael Stachowitsch; Jürgen Herler (2011). Snorkelling and trampling in shallow-water fringing reefs: Risk assessment and proposed management strategy. Journal of Environmental Management, Volume 92, Issue 10, Pages 2723-2733, ISSN 0301-4797. doi.org/10.1016/j.jenvman.2011.06.012.

Larissa J. Benevides; Gabriel C. Cardozo-Ferreira; Carlos Eduardo L. Ferreira; Pedro Henrique C. Pereira; Taciana K. Pinto; Cláudio Luis S. Sampaio. (2019). Fear-induced behavioural modifications in damselfishes can be diver-triggered. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, Volumes 514–515, Pages 34-40, ISSN 0022-0981. doi.org/10.1016/j.jembe.2019.03.009.

Moberg, F & Folke, C (1999). Ecological goods and services of coral reef ecosystem. Ecological Economics 29 (1999) 215–233. Elservier.

Nystrom, M., Folke, C. & Moberg, F. Coral reef disturbance and resilience in a human-domiated environment. Trends Ecol. Evol. 15, 413–417 (2000)

Quimbayo, J.P; Mendes, T.C; Cordeiro, C.A.M.M; Longo, G.O; Giglio, V.J; Vergara, D.C; Floeter, S.R; Villaça, R; Freire, A.S; Francini-Filho, R.B; Ferreira, C.E.L (2018). Variação temporal das comunidades recifais no Arquipélago de São Pedro e São Paulo: ações de monitoramento de longa duração (PELD). . In J. E. L. Oliveira, D. L. Viana, & M. A. C. Souza. Arquipélago de São Pedro e São Paulo: 20 anos de pesquisa (pp. 112–127). Recife: Via Design Publicações.

Reaka-Kudla, M.L. The global biodiversity of coral reefs: a comparison with rain forests. In: Reaka-Kudla, M.L.; Wilson, D.E.; WilsonI, E.O. Biodiversity II: understanding and protecting our biological resources. Washington, D.C.: Joseph Henry Press, 1997. 83–108.

Segal, B.; Castro, C.B.; Negrão, F.; Gouveia, M.T.J; Melo, T.H.M. (2007). Turismo sustentável em ambientes recifais. Serie de livros do Coral Vivo.

SEEG, (2020). Análise das emissões brasileiras de Gases de Efeito Estufa e suas implicações para as metas de clima do Brasil 1970-2019.

Soluções para redução das emissões de gases de efeito estufa nos municípios brasileiros. SEEG. Disponível em: <https://plataforma.seeg.eco.br/solutions/#/>. Acesso em: 09 outubro de 2021

Vinicius J. Giglio; Maria L. F. Ternes; Alexandre D. Kassuga & Carlos E. L. Ferreira. (2019). Scuba diving and sedentary fish watching: effects of photographer approach on seahorse behavior. Journal of Ecotourism, 18:2, 142-151, DOI: 10.1080/14724049.2018.1490302

Zaneveld, J.; Burkepile, D.; Shantz, A. et al. Overfishing and nutrient pollution interact with temperature to disrupt coral reefs down to microbial scales. Nat Commun 7, 11833 (2016). https://doi.org/10.1038/ncomms11833

Zilberberg, C., Abrantes, D.P., Marques, J.A., Machado, L.F., Marangoni, L.F. de B., (2016). Conhecendo os recifes brasileiros: rede de pesquisas Coral Vivo. Serie Livros Museu Nacional, Rio de Janeiro.

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