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Esqueceram de mim: conservação e impactos em peixes de água doce
Por: Luisa Resende Manna                Postado dia 21/06/2021Bióloga formada pela USU-RJ, mestre e doutora em Ecologia e Evolução pelo PPGEE-UERJ e professora visitante (PAPD) no Departamento de Ecologia da UERJ. Desenvolve pesquisas na área de Ecologia de Populações e Comunidades, com ênfase em ecologia trófica, ecologia funcional e interações espécie-habitat de peixes neotropicais, além da atuação em diversas ações de divulgação científica.









Quando se fala sobre conservação de ecossistemas, será que os sistemas de água doce vêm em seus pensamentos? É muito comum que informações sobre os impactos causados em ambientes marinhos e em florestas tropicais sejam divulgados nas grandes mídias, mas os ambientes aquáticos continentais são negligenciados nesse contexto. Apesar desses tipos de ambientes representarem menos que 1% da superfície do planeta, sua biodiversidade é substancialmente importante apenas, por exemplo, se considerarmos aproximadamente as 18.000 espécies de peixes que são neles encontrados, o que corresponde a 1/4 de todos os vertebrados do planeta. No entanto, a pressão antrópica sobre esses ecossistemas vem crescendo exponencialmente e os impactos gerados são cada vez mais nocivos à integridade da biodiversidade de organismos de água doce. O estudo recém-publicado por Su et al. (2021) revelou que as bacias hidrográficas menos impactadas representam apenas 13,4% de toda superfície hidrográfica mundial, sustentando apenas 21,7% da ictiofauna de água doce. Assim, é possível perceber que esses ambientes e sua biodiversidade vêm sofrendo constantes pressões de impacto.

Entre os impactos que afetam os sistemas de água doce, podemos citar a construção de hidrelétricas, a poluição, o desmatamento da vegetação ripária, a introdução de espécies não nativas e alterações no uso do solo. Todas essas atividades podem influenciar fortemente na manutenção e funcionamento dos rios e riachos brasileiros. E dentro desses ambientes, os peixes são organismos que sofrem modificações significativas em seu ciclo de vida e, consequentemente, na sua persistência no ecossistema. Outro ponto importante de lembrar é que alguns impactos, como incêndios florestais e poluição do ar, também podem atingir de forma indireta esses sistemas. A crise sanitária que estamos vivendo também acarreta diversos problemas para a conservação e manutenção da biodiversidade de peixes de água doce. O trabalho publicado por Cooke et al. (2021) mostrou que o relaxamento de políticas ambientais, o aumento da produção de esgoto e lixo doméstico seguido de sua liberação direta nos sistemas aquáticos, e a alta demanda do fornecimento de água para áreas residenciais podem ser alguns dos impactos negativos causados pela pandemia da COVID-19.
Imagem da Bocaina
Desenho esquemático demonstrando que, dependendo dos limites das Unidades de Conservação, uma parte importante dos rios pode ficar fora do alvo de conservação (área destacada em vermelho). Essa quebra de fluxo pode afetar diretamente o curso natural dos rios e os peixes que realizam suas funções ecológicas ao longo de todo o contínuo de rio.
No início de 2021, a WWF publicou um documento muito importante relatando que espécies de peixes de água doce são esquecidas em estratégias de conservação. O autor e seus colaboradores destacam a importância dessas espécies em diversos aspectos naturais e sociais. Entre eles, sua participação importante na cadeia trófica ao servir de fonte alimentar para aves e mamíferos e assim, ajudando na manutenção dos sistemas naturais. Além desse papel fundamental para o funcionamento dos ecossistemas, centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo dependem dos peixes de água doce para sua alimentação e subsistência, especialmente as comunidades tradicionais e mais vulneráveis. Muitas dessas espécies são economicamente importantes e impulsionam indústrias de bilhões de dólares em todo o mundo. Apesar disso tudo, os peixes de água doce não são vistos como possíveis espécies ameaçadas e de fato, sua visibilidade não é tão alta dentro das discussões sobre conservação. Além disso, as unidades de conservação foram, por muitos anos, desenhadas sob a perspectiva de conservar ambientes terrestres e se por acaso, o curso de algum rio ou riacho passasse por dentro dessas unidades, eles seriam alvos da conservação. Mas será que isso seria suficiente para conservá-los? Rios e riachos são sistemas unidirecionais que percorrem milhares de quilômetros até sua desembocadura. E pensando em sistemas naturais com fluxos unidirecionais, é fácil perceber que conservar apenas uma porção desse fluxo não seria suficiente. Isso porque existe uma forte conexão entre as nascentes dos rios e suas partes de baixada. Assim, interrompendo esse fluxo, toda a complexidade desses ambientes não consegue funcionar de forma natural.

Em 2018, uma iniciativa global foi criada (Alliance for Freshwater Life - https://allianceforfreshwaterlife.org/ ) com o objetivo de reverter o declínio global da biodiversidade de água doce através de atividades de pesquisa, compilação de dados, ações de conservação, educação, divulgação e o desenvolvimento de estratégias políticas. A principal mensagem dessa iniciativa é a da construção de um mundo onde as pessoas entendam, valorizem e conservem a biodiversidade de água doce, e obviamente, os peixes que fazem parte dessa biodiversidade. No entanto, ainda existem pontos específicos que essa iniciativa não é capaz de contemplar, como algumas particularidades políticas e culturais que existem em países em desenvolvimento, as quais acabam dificultando a aplicação dessas estratégias em sistemas de água doce de ambientes tropicais.

Rios e riachos brasileiros são alguns exemplos de ambientes tropicais de água doce e que apresentam diferenças marcantes entre eles, inclusive em relação a ações de conservação. Os grandes rios abarcam espécies de peixes de grande porte e economicamente importantes, como o pirarucu, uma espécie amazônica e alvo de conservação. Olhem, um ponto positivo! O projeto de conservação do pirarucu, criado pelo Instituto Mamirauá é um belo exemplo de manejo sustentável de uma espécie de peixe de água doce (https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=yvqdMQbF1JI&feature=emb_logo ), mas infelizmente essa não é a realidade para a maior parte dos peixes dulcícolas. E quando entramos no mundo dos peixes de riachos, entramos em um mundo praticamente invisível! Afinal, você acha que pode existir uma diversidade de peixes tão alta naquele córrego que passa perto da sua casa? E quando você faz turismo em regiões de cachoeira, será que existem peixes por lá?
Imagem Bocaina

Fotos Luisa Manna

Os ambientes de riachos representam grande parte das águas continentais brasileiras. E dentro deles, uma diversidade imensa de pequenos peixes realizam suas funções e interações ecológicas. Os peixes de riachos se dividem em diferentes grupos funcionais, desde espécies de pequeno porte como os barrigudinhos, que servem de alimento para outros peixes, passando por espécies que se movimentam bastante ao longo de toda a extensão do riacho representadas pelos lambaris, até espécies de maior porte que contribuem para a reciclagem de nutrientes, como os cascudos e outras classificadas como predadores de topo, as traíras, conhecidas como os tubarões dos riachos. Cada grupo de espécies tem sua especificidade e são fundamentais para a manutenção desses sistemas naturais. Não as conservar e não evitar futuros impactos sob esses ambientes, pode fazer com que essa vasta riqueza ecológica desapareça. Toda essa riqueza nem sempre é vista como algo importante para a manutenção dos serviços ecossistêmicos, mas é importante lembrar que muitos riachos brasileiros são fundamentais para a captação de água, para manter os ambientes florestais saudáveis e em equilíbrio, além de fornecer momentos de lazer para pessoas que gostam de estar em contato com a natureza. Alguns desses peixes são considerados ornamentais e representam grande parte das atividades de aquarismo e outros, utilizados no controle biológico de pragas urbanas a partir da predação de larvas de mosquitos e consequentemente, podem ser capazes de diminuir a proliferação de agentes causadores de arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. Será que você imaginava que dentro de um filete de água poderia existir essa vasta diversidade ecológica? Pois é, parece difícil enxergar isso tudo, mas acredite, os peixes de riachos não são invisíveis! E o papel que eles desempenham, muito menos! Esses pequenos peixes estão presentes por todo o território brasileiro e mundial. E para mantê-los vivos é preciso direcionar um olhar especial e conservacionista para eles.
Imagem Bocaina

Fotos: Luisa Manna e Jeferson Amaral

Infelizmente não existem muitas ações de conservação dirigidas especificamente a esse grupo de organismos no território brasileiro, mas muitos esforços para converter esse cenário vêm sendo realizados por diversos pesquisadores. A pesquisa sobre a ecologia de peixes de riachos cresceu de forma considerável nos últimos 20 anos e os estudos voltados para diversas áreas do conhecimento estão crescendo. Conhecer a ecologia, a diversidade biológica, suas funções ecossistêmicas e suas interações ecológicas representam alguns desses esforços. Para que essas informações sejam adicionadas ao conhecimento científico, diversos trabalhos de campo, em laboratório e ações de extensão são conduzidas por grupos de pesquisadores associados a diferentes instituições brasileiras.
Imagem Bocaina

Fotos: Arquivo de imagens do Laboratório de Ecologia de Peixes – UERJ

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No entanto, muitas lacunas ainda precisam ser preenchidas e para que esses esforços continuem, nós, pesquisadores dedicados a esse grupo de organismos, devemos compartilhar o nosso conhecimento com toda a sociedade e mostrar a grande importância dos peixes na conservação de sistemas naturais. Temos certeza de que o encanto desses pequenos peixes (quase invisíveis!) irá despertar a sua curiosidade e o seu desejo de mantê-los desempenhando suas atividades ecológicas a todo vapor!

Para conhecer mais, dê uma olhada nas referências utilizadas para a construção desse texto e boa leitura!

Referências:

Caramaschi et al. (2021). Special issue – Ecologia de Peixes de Riachos. Oecologia australis, vol. 25, n. 2. https://revistas.ufrj.br/index.php/oa
Cooke, S. J., Twardek, W. M., Lynch, A. J., Cowx, I. G., Olden, J. D., Funge-Smith, S., ... & Britton, J. R. (2021). A global perspective on the influence of the COVID-19 pandemic on freshwater fish biodiversity. Biological Conservation, 253, 108932.
Darwall, W., Bremerich, V., De Wever, A., Dell, A. I., Freyhof, J., Gessner, M. O., ... & Weyl, O. (2018). The Alliance for Freshwater Life: a global call to unite efforts for freshwater biodiversity science and conservation. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, 28(4), 1015-1022.
Su, G., Logez, M., Xu, J., Tao, S., Villéger, S., & Brosse, S. (2021). Human impacts on global freshwater fish biodiversity. Science, 371(6531), 835-838.
WWF – The world’s forgotten fishes (2021). https://europe.nxtbook.com/nxteu/wwfintl/freshwater_fishes_report/index.php

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