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Desafios e perspectivas na conservação do peixe-boi da Amazônia

Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Diogo Alexandre de Souza
Postado dia 18/10/2021

Biólogo, mestre em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo INPA. Atualmente é aluno de Doutorado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Tem interesse em ecologia e conservação de mamíferos aquáticos.















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A bacia amazônica comporta o sistema fluvial mais extenso do mundo, ocupando uma área estimada em 7 milhões de km2. A região possui uma diversidade excepcional de habitats como lagos, igarapés e extensas planícies de inundação, conhecidas popularmente como várzeas e igapós, mas que nos dias atuais vêm sofrendo impactos humanos severos por conta do desmatamento, construção de hidrelétricas, atividades de mineração entre outros. É neste cenário - imensidão aquática e mudanças ambientais - que habita a única espécie de sirênio (mamíferos aquáticos exclusivamente herbívoros) de água doce, o peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Embora os ecossistemas de água doce da Amazônia estejam menos degradados do que outras regiões do Mundo, o ritmo contínuo dos impactos humanos e a dificuldade de detectar declínios populacionais pode colocar o peixe-boi em uma preocupante trajetória.

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Figura 1: O peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Foto: Anselmo d`Affonseca

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O peixe-boi da Amazônia é o maior mamífero de água doce da América do Sul. É endêmico, ou seja, a espécie é exclusiva dos rios da bacia Amazônica, ocorrendo desde os principais rios do Peru, Colômbia, Equador até a foz do rio Amazonas no Brasil. Esses magníficos animais chegam a medir 2,5 metros de comprimento e pesar quase meia tonelada, consumindo 10% do seu peso corporal em plantas aquáticas e semiaquáticas por dia (um animal de 200kg chega a ingerir 20kg de plantas/dia). A espécie atua como principal controladora da biomassa de plantas aquáticas da região, além de disponibilizar pelas fezes e urinas, partículas vegetais e micronutrientes para toda a cadeia trófica aquática.

Atualmente, existem três ameaças particularmente importantes para o peixe-boi da Amazônia: a caça, a captura acidental em redes de pesca e a alteração do habitat. O peixe-boi sempre foi mencionado como fonte de proteína alimentar para inúmeras populações humanas da Amazônia, antes mesmo da chegada dos europeus ao Brasil. A caça de subsistência é uma prática cultural que permanece amplamente difundida nas comunidades indígenas e ribeirinhas, mas o impacto ou a sustentabilidade desta atividade nunca foi alvo de estudos com a espécie. Porém, foi a exploração indiscriminada em larga escala comercial nos séculos passados que reduziu drasticamente suas populações (Antunes et al., 2016). Nos dias atuais, embora T. inunguis seja protegido por lei em muitos países, o comércio ilegal da carne ainda persiste em mercados e feiras populares da maioria das cidades onde a espécie ocorre. Para agravar os desafios de conservação do peixe-boi, o uso crescente de redes de pesca nas últimas décadas aumentou a captura acidental de filhotes, sendo uma ameaça atual para a espécie.

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Figura 2: A caça do peixe-boi no rio Purus na década de 1940. Foto: Silvino Santos.

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As construções de hidrelétricas na Amazônia têm provocado intensas modificações nos ecossistemas aquáticos, que podem impactar consideravelmente as populações de peixes-bois, devido à alteração do pulso de inundação e redução do fluxo de nutrientes em rios e planícies de inundação à jusante das barragens. Adicionalmente, as previsões climáticas para a Amazônia indicam uma intensificação nos eventos de secas e inundações severas (Malhi et al., 2009) que irão aumentar a vulnerabilidade do peixe-boi. Na época de vazante do rio, T. inunguis migra para áreas profundas e lagos perenes, mas em períodos de seca extrema estes ambientes ficam rasos ou desaparecem, expondo os animais aos caçadores. Na seca de 2010, estima-se que 1.000 peixes-bois foram mortos na calha do rio Solimões, com relatos semelhantes em secas extremas anteriores (Lago Tefé em 1995) (Brum et al., 2021).

Em geral, é difícil documentar mudanças populacionais nas espécies de vida longa (o peixe-boi pode viver até 55 anos), amplamente distribuídas e pouco estudadas. T. inunguis é extremamente difícil de observar na natureza, e nenhuma informação sobre sua abundância está disponível. No entanto, suas características biológicas com baixas taxas reprodutivas - a gestação dura 12 meses e produz apenas um filhote que é amamentado por 2 anos - os tornam propensos a declínios populacionais. Por conta disso, no Brasil (ICMBio, 2018) e no Mundo (Marmontel et al., 2016) a espécie é considerada ameaçada de extinção na categoria Vulnerável.

As ameaças atuais para o peixe-boi e seu habitat são enormes, assim como os desafios para garantir sua conservação. Dessa maneira, esforços têm sido realizados para mitigar as pressões antrópicas e reverter o grau de ameaça sofrido pela espécie. O peixe-boi é protegido por leis e regras nacionais e internacionais há muito tempo (no Brasil pela lei n°5.197 de 3 de janeiro de 1967). Contudo, estes mecanismos de conservação têm capacidade limitada para proteger a espécie, principalmente porque são mal aplicados ou porque requerem dados de tendência populacional da espécie que não existem (este problema não é exclusivo do peixe-boi). Essas leis fornecem proteção importante e necessária, mas a falta de recursos humanos e financeiros dos órgãos ambientais nos países amazônicos limita o potencial de eficácia da legislação, deixando a espécie vulnerável por falta de fiscalização.

A construção dos Planos de Ação Nacionais (PANs) têm se mostrado como importante instrumento de conservação para as espécies ameaçadas de extinção. No Brasil, o PAN Mamíferos Aquáticos Amazônicos (Portaria ICMBio nº19/2019) identificou as ações de pesquisa e conservação prioritárias para proteger o peixe-boi (por exemplo, o fortalecimento dos programas de soltura de peixes-bois cativos na natureza). Esta louvável iniciativa, no entanto, não inclui dispositivos para financiamento do governo para implementação das ações propostas pelo PAN.
 Consequentemente, continua a ser responsabilidade dos pesquisadores e das organizações não governamentais obter os recursos necessários para executar as atividades, situação que limita sua eficácia.

De acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), o termo soltura é definido como a “liberação de um organismo na natureza visando restabelecer uma população viável na área original de ocorrência” (IUCN, 2013). Embora esta ação seja fundamental (atualmente existem cerca de 150 peixes-bois da Amazônia cativos no Brasil), a prioridade é mitigar a caça para que o número de filhotes órfãos resgatados diminuam, pois a manutenção em cativeiro e a devolução à natureza são bastante onerosas. Ressalta-se aqui os esforços do Projeto Peixe-boi do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/INPA, que desde 1974 realiza importantes atividades de pesquisa e conservação da espécie.

Os peixes-bois que chegam ao cativeiro do INPA para reabilitação (média de 12 filhotes/ano) são, na sua grande maioria, filhotes órfãos vítimas da caça ilegal ou da captura acidental em redes de pesca, resgatados por ribeirinhos e órgãos ambientais. O sucesso do programa de reabilitação de filhotes gerou um plantel de animais aptos a serem devolvidos ao seu habitat natural (da Silva et al., 2019). Além de fechar o ciclo iniciado no resgate e reabilitação dos peixes-bois, a atividade de soltura confere oportunidade única para a coleta de dados ecológicos e comportamentais da espécie na natureza, atuando também como estratégia de sensibilização nas comunidades ribeirinhas inseridas na área do projeto.

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Figura 3: Filhote de peixe-boi resgatado e encaminhado para o cativeiro do INPA. Foto: AMPA

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Desde 2016, foram liberados 44 peixes-bois na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, localizada no baixo rio Purus, e distante 240 km de Manaus/AM. Esta ação conta com apoio das comunidades localizadas na área de soltura. Para isso, inúmeras ações de educação ambiental foram desenvolvidas pela Associação Amigos do Peixe-boi/AMPA junto com outros parceiros do projeto. Para verificar a adaptação pós-soltura, os animais recebem um cinto transmissor VHF (Very High Frequency) no pedúnculo caudal, e o monitoramento feito por assistentes locais treinados, usando a técnica de radiotelemetria. O envolvimento dos moradores com o projeto tem gerado um senso de responsabilidade com a conservação da espécie e seu habitat. Os resultados do monitoramento mostram que o protocolo de soltura tem sido exitoso, com 83% de sucesso de adaptação dos animais pós-soltura. Além disso, o monitoramento tem permitido entender o habitat da espécie, cujas informações serão úteis para a gestão da Reserva Piagaçu-Purus.

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Figura 4: Peixe-boi criado em cativeiro sendo devolvido à natureza. Foto: Bruno Kelly

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Figura 5: Comunitário da Reserva Piagaçu-Purus durante o monitoramento via radiotelemetria dos peixes-bois. Foto: Diogo de Souza

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Diante da estreita relação com a floresta e os rios, as populações ribeirinhas tornam-se os principais atores na tomada de decisão e construção de estratégias de conservação da biodiversidade amazônica. Reverter o atual estado de conservação do peixe-boi requer 1) ação urgente em pesquisa ecológica da espécie (áreas de distribuição, padrões de movimento e seleção de habitat) e aumento do financiamento disponível para monitorar as respostas populacionais da espécie aos impactos humanos, e 2) abordagem política que, no mínimo, estabeleça a aplicação efetiva da legislação existente. Certamente, a caça para o comércio ilegal da carne de peixe-boi deve ser tratada com celeridade, pois representa a maior ameaça para a espécie. A capacidade de fiscalização dos órgãos ambientais precisa ser substancialmente melhorada para reduzir a mortalidade da espécie. No Brasil, esforços de sensibilização e educação ambiental tiveram bons resultados na diminuição da caça do peixe-boi em várias regiões. É necessário a criação de um amplo programa de educação ambiental, com ênfase nas localidades onde a pressão de caça é mais intensa e nos grandes centros urbanos onde existe a maior demanda pela carne. Ações informativas junto as colônias de pesca e comunidades ribeirinhas têm sido efetivas para reduzir os emalhes acidentais de filhotes de peixe-boi em redes de pesca, bem como orientar os procedimentos para a soltura imediata dos animais.

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Figura 6: Ação de educação ambiental nas comunidades ribeirinhas do baixo rio Purus. Foto: AMPA

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Devido à relevância ecossistêmica e histórica para as populações humanas da Amazônia, a manutenção do peixe-boi da Amazônia paras as futuras gerações é responsabilidade de todos. Vida longa ao peixe-boi da Amazônia!!!

Referências:
Antunes, A.P., Fewster, R.M., Venticinque, E.M., Peres, C.A., Levi, T., Rohe, F., Shepard, G.H. 2016. Empty forest or empty rivers? A century of commercial hunting in Amazonia. Science Advances. 2, e1600936.
Brum, S., Rosas-Ribeiro, P., Amaral, R.S., de Souza, D.A., Castello, L., da Silva, V.M.F. 2021. Conservation of Amazonian aquatic mammals. Aquatic Conservation: Marine Freshwater Ecosystem. 1:1–19. https://doi.org/10.1002/aqc.3590
da Silva, V.M.F., de Souza, D.A., d’Affonseca, A., Amaral, R.S., Romero, R. 2019. Mamíferos Aquáticos da Amazônia. Manaus: Editora INPA, 120 p.
ICMBio, 2018. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, ICMBio/MMA, Brasilía, DF, pp. 98–103, https://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/comunicacao/ publicacoes/publicacoes-diversas/livro vermelho 2018 vol2.pdf.
IUCN/SSC, 2013. Guidelines for Reintroductions and Other Conservation Translocations. Version 1.0. Gland, Switzerland: IUCN Species Survival Commission, viiii + 57 pp.
Malhi, A.L.E., Aragão, L.E.O.C., Galbraith, D., Huntingford, C., Fisher, R., Zelazowski, P., ... Meir, P. 2009. Exploring the likelihood and mechanism of a climate-change-induced dieback of the Amazon rainforest. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106, 20610–20615.
Marmontel, M., de Souza, D.A., Kendall, S., 2016. Trichechus inunguis. The IUCN Red List of Threatened Species.

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