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Sinalizador de rios (ainda) conservados: a cuíca d’água
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Gabby Guilhon
Postado dia 29/08/2021

Bióloga formada pela UFRJ, especialista em Ensino de Biociências e Saúde pela Fiocruz e mestre em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Atualmente é aluna de doutorado em Zoologia pela UFMG. Desenvolve pesquisas sobre anatomia e morfologia funcional com ênfase em marsupiais, além de atuar como divulgadora científica sobre mamíferos na página do Instagram @mastocafé









O que vem a sua mente quando falamos sobre um ambiente aquoso bem conservado? Acredito que você imagine uma água cristalina, sendo possível de observar vários peixes, talvez uma tartaruga em caso de mares ou costão rochoso, acertei? Mas alguma vez já passou pela sua cabeça que um gambá poderia ser um indicativo de águas bem preservadas? Aposto que não!

Os gambás fazem parte de um grupo de mamíferos que inclui os cangurus e os coalas, e uma parte deles possui a bolsa marsupial para o desenvolvimento dos seus filhotes. Os gambás menores e menos conhecidos também podem ser chamados de cuícas, e todos pertencem à mesma família. No entanto, dentro de todo o grupo dos marsupiais, possuímos apenas uma única espécie que é muito especializada e adaptada ao ambiente aquático, a cuíca d’água.

A cuíca d’água (Chironectes minimus) é totalmente adaptada para a vida semi-aquática: possui um pelo denso, impermeável e que ajuda na flutuabilidade, grandes membranas interdigitais nas patas traseiras e uma cauda levemente achatada para auxiliar na natação, dedos compridos com função tátil para identificar movimentos sutis de suas presas embaixo da água, além de uma bolsa bem desenvolvida tanto no macho quanto nas fêmeas. Esta última protege não apenas os filhotes de um afogamento como também protege o saco escrotal dos machos do frio da água, para não influenciar na espermatogênese (Marshall, 1978) (Fig. 1). É de fato um animal incrível e que infelizmente poucos conhecem, o que dificulta ainda mais a sua conservação.
Imagem da Bocaina
Figura 1: Foto: Luiz Claudio Marigo/ naturepl.com

Por se tratar de uma espécie de ocorrência restrita a ambientes aquáticos e de hábitos noturnos, a cuíca d’água se torna uma espécie muito difícil de se observar, sendo difícil de avistar e mais ainda de coletar um espécime para estudo. Essa espécie não é coletada por armadilhas convencionais e foi necessário desenvolver armadilhas específicas e eficientes para pequenos mamíferos semi-aquáticos para que ela fosse capturada (Bressiani & Graipel 2008). Desta forma, por muitos anos (e ainda hoje) a cuíca d’água, apesar de ser um dos marsupiais mais intrigantes e únicos, é considerada pouco estudada e uma espécie de registros raros, além de poucos indivíduos para estudo em coleções mastozoológicas.
Felizmente, nas últimas décadas, um grande esforço vem sendo feito para um melhor entendimento da espécie, sua ecologia, distribuição e conservação, através de estudos de monitoramento de longa duração (Fig. 2). Dessa forma, apesar de ser tida como uma espécie rara, estudos em diferentes áreas da América do Sul a consideram uma espécie comum, e onde ela ocorre costuma ser abundante, ao menos de forma local. Porém, sua presença tem sido associada com rios e lagos bem preservados, o que a torna uma boa indicadora da conservação desses ambientes (Fernandez et al. 2015). O ponto positivo desta associação é que ao considerarmos a espécie como “comum” e com “ampla distribuição”, é uma evidência e que ainda possuímos uma quantidade razoável de trechos de rios bem conservados.
Imagem Bocaina

Figura 2: Chironectes minimus com um rádio colar para monitoramento (Fernandez et al. 2015)

Contudo, os pontos negativos podem sobrepor os positivos. No Brasil, e em toda a América do Sul, a expansão populacional, que consequentemente implica em um aumento da poluição dos pequenos rios e lagos, são fatores que dificultam, e muito, a preservação do ambiente aquático para a conservação da cuíca d’água. Além disso, já se sabe que a espécie tem uma preferência por largos trechos de rio com grande densidade arbórea. Isso indica que o desmatamento e a constante e crescente fragmentação de hábitat vem expondo a cuíca d’água cada vez mais ao risco de diminuição de ambientes propícios para a sua manutenção. Apesar do status de conservação da espécie pela lista vermelha da IUCN ser registrada como “pouco preocupante” (Pérez-Hernandez et al. 2016), as pesquisas indicam que este estado é subestimado e deveria ser alterado para “espécie vulnerável”, diante do avanço de todas as problemáticas em relação a preservação do seu hábitat natural (Fernandez et al. 2015, Prieto-Torres & Pinilla-Buitrago 2017).

Com isso, é fácil compreender que a cuíca d’água, além de ser uma espécie superinteressante e de biologia única, deve ser mais estudada e protegida. O seu habitat e sua forma de vida restritos ao ambiente aquoso, onde não só se reproduz, mas como também se alimenta, faz com que a espécie seja de fato, uma sinalizadora de águas bem preservadas. A conservação destes locais é imperativa para a sobrevivência do único gambá semi-aquático no mundo todo.

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Referências:

Bressiani VB, Graipel ME (2008) Comparação de métodos para captura da cuíca d’água, Chironectes minimus (Zimmerman, 1780) (Mammalia, Didelphidae) no sul do Brasil. Mastozoologia Neotropical 15: 33-39.

Fernandez et al. (2015) Natural history of the water opossum Chironectes m
inimus: A review. Oecologia Australis, 19(1): 47-62.
Marshall LG (1978) Chironectes minimus. Mammalian Species 109: 1-6

Pérez-Hernandez R, Brito D, Tarifa T, Cáceres N, Lew D, Solari S (2016) Chironectes minimus. The IUCN Red List of Threatened Species 2016: e.T4671A22173467. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2016-1.RLTS.T4671A22173467.en.

Prieto-Torres DA, Pinilla-Buitrago G (2017). Estimating the potential distribution and conservation priorities of Chironectes minimus (Zimmermann, 1780) Didelphimorphia: Didelphidae). Therya, 8(2): 131-144.

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