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Os principais impactos que contribuem para o declínio global das aves marinhas
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Danilo Freitas Rangel
Postado dia 29/09/2021

Biólogo formado pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), pós-graduado especialista em ecologia, biodiversidade e ensino híbrido. Desenvolve pesquisas em diversos temas de ecologia costeira com ênfase em aves costeiras, bioindicadores, poluição por lixo marinho e divulgação científica pelo (Laboratório de Ciências Ambientais/UENF). Fundador da SubMeet na execução de Boot Camps ecológicos, com foco para autonomia científica e aprimoramento profissional de ciências ambientais.









As aves marinhas são consideradas predadores de topo no ambiente oceânico e dependem do ambiente marinho para sobreviverem e compreendem aproximadamente 3,5% do número de espécies de aves existentes no planeta. Ao longo do tempo as aves marinhas sofrem impactos ambientais causados pelos humanos, ocasionando declínio populacional em todo o planeta, levando algumas espécies estão à beira da extinção (CROXALL et al., 2012).

.As aves marinhas estão entre os grupos de aves mais ameaçados, a captura incidental em diferentes artefatos de pesca, poluição, mudanças climáticas, presença humana e espécies invasoras são as principais ameaças para o declínio destas aves em nível global, onde aproximadamente 27% estão ameaçadas e 5% criticamente ameaçadas (CROXALL et al., 2012). Os grupos de aves marinhas Sphenisciformes (pinguins) e Procellariiformes (albatrozes e petréis), são os grupos mais ameaçados, mas principalmente os albatrozes que são espécies de reprodução lenta e com alta longevidade, mesmo com aumentos muito pequenos na mortalidade dos albatrozes pode causar grandes declínios populacionais (CROXALL et al., 2012).
Regiões costeiras com intensa ocupação humana impactam negativamente os seres vivos desde o plâncton até predadores de topo como as aves marinhas. Em áreas costeiras não urbanizadas ocorre a transferência de energia trófica de forma mais eficiente, mostrando assim a necessidade de conservar os ambientes costeiros principalmente a respeito da pressão da urbanização (COSTA et al., 2017). A poluição marinha é uma preocupação global, este tipo de poluição vem aumentando de forma alarmante, afetando diversas formas de vida, em especial as aves marinhas que são vulneráveis diretamente a este tipo de poluição, e frequentemente ingerem plástico confundindo com seus alimentos naturais (WILCOX et al., 2015).
Imagem da Bocaina
Figura 1: Atobá Marrom, Sula leucogaster (Boddaert, 1783). Foto por Davi Castro Tavares em trabalho de campo conjunto com o autor Danilo Freitas Rangel, no Arquipélago dos Franceses, Macaé-RJ.

As aves marinhas estão sofrendo uma redução do seu habitat de reprodução ao longo dos anos, porém na última década, foi possível identificar um aumento maior na redução de áreas de reprodução protegidas, principalmente pela disputa de terras para ocupação costeira proveniente da pressão turística (CROXALL et al., 2012). A intensa atividade pesqueira, embora favoreça as aves para seu habito alimentar com restos de peixes e peixes não comerciais que são descartados, pode também influenciar negativamente as aves marinhas, uma vez que os navios de pesca acabam atraindo as aves para próximo das embarcações, ocasionando capturas acidentais durante a pesca de arrasto, espinhel e rede de espera (PETRY; SCHERER; SCHERER, 2012).
Para mitigar o impacto da pesca sobre as aves marinhas, é necessário que haja mudanças simples nas ferramentas de pesca, como a instalação de bandeirolas para afugentamento das aves, evitando que elas voem em direção ao artefato de pesca, desta forma evitando a captura acidental. Estudos mostram que a educação ambiental e instalação de medidas que evitem a aproximação de aves marinhas aos artefatos de pesca, diminuem a interação acidental de captura destes animais (DIAS et al., 2019).

Os pinguins são frequentemente alvos de impactos antrópicos, como por exemplo a contaminação por petróleo, que ao entrar em contato com as penas causa uma desorganização da estrutura da plumagem, afetando a permeabilidade destes animais, além do impacto na saúde de longo prazo destes animais, como por exemplo a morte por intoxicação com petróleo. As espécies de pinguins parecem ser as mais impactadas pelo petróleo, uma vez que passam maior parte do tempo dentro da água, e isto aumenta a chance de ser contaminado (LIMA; GRANDE, 2014).

As mudanças climáticas também impactam negativamente a qualidade de vida das aves marinhas, diminuindo a densidade, abundância e composição de suas presas, isso também impacta modificando o comportamento destes animais, afetando principalmente espécies que vivem em regiões onde ocorre o efeito da ressurgência. As mudanças nos padrões de disposição do alimento destas aves podem afetar os padrões de migração de determinadas espécies, diminuição da abundância e distribuição (CHAMBERS, 2009).

O aumento no número de tempestades também é um efeito das mudanças climáticas, porém tem pouco efeito direto sobre as aves marinhas, entretanto o aumento da precipitação pode ocasionar alagamento dos ninhos. As épocas de menos precipitação também são influenciadas pelas mudanças climáticas, tornando-as mais severas, favorecendo a impactos indiretos como menos disponibilidade de presas e incêndios causados na vegetação seca ao redor dos ninhos (CHAMBERS, 2009). A criação de políticas públicas de emissão de gases do efeito estufa devem ser incentivadas em nível global para mitigar a ação do homem sobre as mudanças climáticas, encorajando ações de sustentabilidade na indústria por meios de incentivos relevantes que ajudem a indústria a entender seu papel na modificação do clima global, promovendo a conservação e recuperação de florestas e melhorando o processo de urbanização para o incentivo do uso de transportes coletivos de qualidade.

A presença humana também impacta as aves marinhas, principalmente a partir do afugentamento das aves. O turismo descontrolado pode ocasionar perda de habitat para estes animais, principalmente em ilhas costeiras, onde as aves marinhas preferem fazer seus ninhos (RANGEL, D.F.; TAVARES; ZALMON, 2020). Frequentemente os humanos introduzem espécies invasoras nos habitats naturais destas aves, como por exemplo os cães que passam a caçar e afugentar as aves, ou a presença de ratos ou gatos que podem ser levados acidentalmente ou não para as ilhas onde estas aves nidificam, impactando a taxa natalidade, se alimentando dos ovos e impactando negativamente também trazendo doenças para essas aves (TAVARES, D. C. et al., 2017).

O lixo marinho também é um grande vilão para as aves marinhas, principalmente o plástico. A produção de plástico cresce anualmente em todo o planeta e é correspondente com concentração de plástico encontrados nos oceanos. Estudos recentes mostram que é possível encontrar plástico em todos os oceanos do planeta, representando assim uma ameaça real para toda a vida marinha e indiretamente para a vida humana (WILCOX et al., 2015). O plástico é ingerido acidentalmente por aves marinhas ocasionando perda de peso, bloqueio do trato digestivo ou a morte do animal. Estudos recentes mostram que algumas espécies de aves marinhas se confundem ao buscar por materiais para fazer seus ninhos e acabam usando plásticos disponíveis no oceano, expondo desde cedo seus filhotes a poluição e riscos de emaranhamento, porém estas espécies são consideradas bioindicadores da poluição marinha por plásticos, indicando indiretamente a qualidade do oceano a partir do lixo marinho encontrado em seus ninhos (TAVARES, DAVI CASTRO et al., 2016). O plástico nos oceanos, embora muito abundante, não confere um impacto direto a curto prazo, desta forma afeta as aves a longo prazo diminuindo sua expectativa de vida ao ser ingerido e também contaminando seu ambiente, portanto, impactos como a captura acidental pela pesca, espécies invasoras e mudanças climáticas, causam maior declínio populacional nas aves marinhas (DIAS et al., 2019).
O principal fator de impacto identificado foi a captura acidental pela pesca, seguido consecutivamente da presença das espécies invasoras em seus habitats e mudanças climáticas, estes fatores impactam de forma mais direta para o declínio das aves. O plástico, embora esteja presente em todo o oceano, acaba por ser um efeito de longo prazo, onde estes animais ingerem acidentalmente, diminuindo sua expectativa de vida. Para contribuir com a conservação das aves marinhas, é preciso mitigar ou eliminar estas ameaças. Os pescadores precisam adequar suas ferramentas de pesca para evitar a captura acidental das aves, a educação ambiental para comunidades pesqueiras e a fiscalização presente também é necessária para um efeito duradouro destas medidas.

Recentemente uma pesquisa mostrou como é importante a ligação da cultura pop usando os diversos Pokémon morfologicamente semelhantes a aves marinhas como ferramenta de educação ambiental para a conservação destes animais, desta forma aproximando o tema de forma amigável para pessoas de todas as idades, em especial as crianças que tem contato com estes personagens muito antes de conhecer os animais (RANGEL et al, 2020).
Imagem Bocaina

Figura 2: Pokémon Pelipper (a), fonte: Ilustração oficial propriedade de The Pokémon Company (2020). Pelecanus occidentalis (b), fonte: https://www.iucnredlist.org/. (RANGEL et al, 2020).

O setor petrolífero precisa investir em tecnologias que possam impedir de forma eficaz o derramamento de petróleo no mar, evitando impactar toda a vida marinha e poupando recursos financeiros das empresas a longo prazo, devido a multas que recebem em cada derramamento que ocorre. As mudanças climáticas também chamam a atenção pois afetam não somente as aves marinhas diretamente, mas causam mudanças em suas presas, o que modifica componentes importantes da estrutura ecológica dos oceanos, portanto, é necessário que a indústria global bata suas metas de redução de gases do efeito estufa entre outros poluentes, desta forma diminuindo a aceleração das mudanças climáticas.

A presença humana em habitats de aves marinhas deve ser moderada preferencialmente por uma política de gestão ambiental que leve em consideração os impactos causados nestes animais, evitando o afugentamento das aves. Os animais domésticos são considerados espécies invasoras para as aves marinhas, por isso deve-se evitar levar cães e gatos para habitats de aves marinhas, infelizmente algumas espécies invasoras são levadas acidentalmente para colônias de aves, como por exemplo os ratos, que podem vir a partir do turismo nestas ilhas, quando há um descontrole populacional das espécies invasoras, é necessário um controle ou erradicação destas espécies.

O plástico presente nos oceanos também é uma grande ameaça para as aves marinhas, uma vez que podem ser ingeridos por estes animais, tornando um risco também para nós humanos, que consumimos peixes oceânicos, que podem conter micro plásticos, estes mesmos peixes são ingeridos pelas aves marinhas, contaminando-as a longo prazo. Para mitigar a problemática do plástico é preciso integração entre a população, poder público e setor privado, assim aumentando as formas de destinação correta de resíduos sólidos, buscando substituir o plástico por produtos corretamente biodegradáveis, promovendo educação ambiental e projetos de conservação.

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Referências:

CHAMBERS, Lynda E. Seabirds and Climate Change Movements of Little Penguins at sea View project Mitigation and eradication of threats of Little Penguins View project. [S.l: s.n.], 2009. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/228472983>. Acesso em: 17 maio 2021.
COSTA, Leonardo Lopes et al. Human-induced changes in the trophic functioning of sandy beaches. Ecological Indicators, v. 82, p. 304–315, 1 nov. 2017.
CROXALL, John P et al. Seabird conservation status, threats and priority actions: a global assessment. Bird Conservation International, v. 22, p. 1–34, 2012. Disponível em: <www.wdpa.org>. Acesso em: 17 maio 2021.
DIAS, Maria P. et al. Threats to seabirds: A global assessment. Biological Conservation, v. 237, p. 525–537, 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.biocon.2019.06.033>. Acesso em: 17 maio 2021.
LIMA, Paula; GRANDE, Canabarro Rio. Universidade Federal Do Rio Grande Instituto De Oceanografia Programa De Pós-Graduação Em Gerenciamento Costeiro Programa De Recursos Humanos Da Anp-Prh N° 27 Estudos Ambientais Em Áreas De Atuação Da Indústria Do Petróleo Os Procedimentos De Proteção À F. . [S.l: s.n.], 2014.
PETRY, M.V.; SCHERER, J.F.M.; SCHERER, A.L. Occurrence and feeding habits of and human impacts on seabirds on the coast of Rio Grande do Sul, southern Brazil | Ocorrência, alimentação e impactos antrópicos de aves marinhas nas praias do litoral do Rio Grande do sul, sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia. [S.l: s.n.], 2012. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/279626063>. Acesso em: 17 maio 2021.
RANGEL, D.F.; TAVARES, D.C.; ZALMON, I.R. Composição e abundância de aves marinhas costeiras em Arraial do Cabo, Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Ornithologia. [S.l: s.n.], 13 maio 2020. Disponível em: <http://ornithologia.cemave.gov.br/index.php/ornithologia/article/view/346>. Acesso em: 17 maio 2021.
RANGEL, Danilo Freitas; FREITAS, Eduardo; COSTA, Leonardo Lopes. Diversity of seabirds in Pokémon : an environmental education and Diversidade de aves marinhas em Pokémon : uma ferramenta de educação ambiental e conservação. n. July, 2020.
TAVARES, D. C. et al. Incidence of marine debris in seabirds feeding at different water depths. Marine Pollution Bulletin, v. 119, n. 2, p. 68–73, 30 jun. 2017.
TAVARES, Davi Castro et al. Nests of the brown booby (Sula leucogaster) as a potential indicator of tropical ocean pollution by marine debris. Ecological Indicators, v. 70, p. 10–14, 1 nov. 2016.
WHELAN, Christopher J.; WENNY, Daniel G.; MARQUIS, Robert J. Ecosystem services provided by birds. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1134, p. 25–60, 2008. Disponível em: <http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.458.482&rep=rep1&type=pdf>. Acesso em: 17 maio 2021.
WILCOX, Chris et al. Threat of plastic pollution to seabirds is global, pervasive, and increasing. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 112, n. 38, p. 11899–11904, 22 set. 2015. Disponível em: <www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1502108112>. Acesso em: 17 maio 2021.

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