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A conservação da natureza na era dos drones
Por: Fábio Bolzan                                     Postado dia 13/05/2021Programa de Pós Graduação em Ecologia e Conservação - PPGEC
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS









Drones são aviões robóticos, também conhecidos como veículos aéreos não tripulados, sistemas de aeronaves não tripuladas ou aeronaves pilotadas remotamente. Eles evoluíram e se desenvolveram rapidamente nas últimas décadas, após serem dirigidos principalmente para fins militares e civis. Embora tenham formação militar, fica claro que há muitas outras áreas em que o uso de veículos aéreos não tripulados podem ser úteis. Por exemplo, drones têm sido usados por forças policiais em todo o mundo para tarefas de aplicação da lei, como monitoramento de multidões, seguimento de suspeitos à noite e patrulhamento de fronteiras internacionais; para agricultura de precisão definindo carga de adubação, irrigação e defensivos agrícolas; para monitoramento e gerenciamento de incêndios florestais; para a entrega de medicamentos, produtos comerciais e pacotes; e para o monitoramento da biodiversidade e conservação da natureza.

O uso do sensoriamento remoto na conservação da vida selvagem não é uma novidade. Inicialmente trabalhos de observação e captura de imagens eram operados por aviões e desde o início dos anos 70, através de imagens de satélite. Atualmente, com a miniaturização de sensores e a popularização dos drones, além de técnicas de análise de imagens, como aprendizado de máquina, os drones têm-se tornado uma excelente ferramenta de suporte na conservação e gestão ambiental.
 
De maneira geral e no que diz respeito à temática de conservação, podemos categorizar o uso de drones em dois objetivos principais: a pesquisa científica e a conservação direta propriamente dita. Para o primeiro objetivo, os drones têm sido utilizados na contagem e monitoramento da vida selvagem e outras características biológicas, fornecendo dados potencialmente valiosos para a conservação tanto em ambientes aquáticos quanto terrestres. Um exemplo interessante é o projeto SnotBot (https://whale.org/snotbot/ ), onde drones são utilizados para capturar tanto imagens quanto meleca - isso mesmo - expelida pelas baleias no momento em que elas emergem para respirar. Os pesquisadores sabem que este material contém uma enorme quantidade de informações biológicas, como DNA, hormônios e microorganismos. Eles podem utilizar tais informações para determinar se as baleias estão saudáveis, o seu sexo, fase de gestação e detalhes sobre sua genética e microbiota.

Para coletar as amostras, foram fixadas placas de Petri na estrutura do drone e, de dentro do barco, a equipe de pesquisadores acompanha grupos de baleias francas e jubarte, aguardando o momento oportuno em que elas se aproximam da superfície.
O drone então decola e sobrevoa um indivíduo poucos metros acima da superfície da água, à espera do jato tão desejado (Fig. 1 e 2). Além destas coletas, o drone também registra imagens dos indivíduos, que podem ser cruzados com extensos bancos de dados fotográficos das suas caudas e formatos dos corpos permitindo assim explorar correlações tanto a nível de grupo quanto de indivíduo. O projeto SnotBot pode realmente fazer a diferença ao considerarmos que as baleias são excelentes indicadores da saúde dos oceanos e assim como elas, nós também somos altamente dependentes deles para nossa sobrevivência, tanto pela grande quantidade de alimentos que eles provêm quanto por serem o principal produtor de oxigênio do Planeta.
Um exemplo de iniciativa voltada para a conservação direta vem da empresa BioCarbon, fundada em 2014 em Oxford, Reino Unido. Com o urgente objetivo de restaurar áreas degradadas, a empresa busca reflorestar grandes extensões utilizando drones com um equipamento acoplado capaz de lançar cápsulas contendo um pull de sementes (Fig. 3). Estas cápsulas são biodegradáveis e contém além de sementes, nutrientes e outros componentes necessários para a rápida germinação e crescimento das plantas. Esta tecnologia embarcada em drones pode reduzir o custo de restauração em até 70%, sobretudo em áreas de difícil acesso, como as em relevos declivosos e em locais sem a mínima infraestrutura. Vale destacar que em comparação à semeadura manual, enquanto dois homens conseguem plantar até 3 mil sementes por dia, os mesmos dois homens operando 10 drones podem plantar mais de 400 mil sementes no mesmo período. Além de efetivamente exercer um papel importantíssimo na conservação direta, a empresa ainda trabalha em áreas chaves como o desenvolvimento de softwares para otimização dos plantios, aprimoramento de drones plantadores e também na definição do melhor conjunto de espécies que garanta tanto vigor quanto biodiversidade em campo.

No entanto, a utilização de drones na conservação direta mais comum é na aplicação da lei e no monitoramento de atividades ilegais, principlamente na caça ilegal de animais silvestres (Fig. 4). Os drones podem ser utilizados para fornecer evidências de alta qualidade, peças fundamentais para fortalecer processos jurídicos, além de apoiar equipes de terra na aplicação da lei. Por outro lado, muito do que torna os drones ferramentas úteis contra a caça ilegal tamém pode torná-los muito úteis para os caçadores, que podem utiliza-los para encontrar, identificar e possivelmente até mesmo capturar seus alvos a distância.
Embora a utilização de drones na conservação da natureza já tenha ações relevantes como alguns dos exemplos apresentados, o uso predominante dos drones ainda permanece voltado para a pesquisa científica. Entretanto, estas poderosas ferramentas têm-se posicionado de forma promissora, sobretudo pelo fato de a cada dia estarem se tornando mais confiáveis, robustas, acessíveis e capazes de fazerem mais e distintas tarefas. Bem vindo a era dos drones!

Enquanto há desafios inerentes em organizar e analisar um número grande de dados, fazer isso é essencial para desvendar a complexidade dos sistemas ecológicos, para entender os efeitos profundos que os humanos têm no sistema natural da Terra, e desenvolver políticas ambientais baseadas nas evidências científicas. Os dados ecológicos, após serem analisados pelos cientistas, fornecem um conhecimento para o público geral e pessoas com poder decisivo possam entender melhor os sistemas e processos ecológicos (Kelling et al., 2009).

As ações humanas têm causado uma crise na biodiversidade, com altas taxas de extinção de espécies, além de afetar diretamente os serviços ecossistêmicos dos quais os humanos dependem (Brooks et al., 2006) (Fig. 3). As pessoas se importam mais com o que está próximo delas, portanto métodos efetivos de conservação tendem a ser regionais ou nacionais. Logo, ações de conservação têm sido realizadas diretamente através de informações regionais de mudanças de biodiversidade, vide a tamanha importância de pesquisas nesta área na efetividade de políticas de conservação (Proença et al. 2017).

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