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Economia ecológica: o caminho para a conservação e preservação dos recursos da natureza
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Vanêssa Gomes Pedroza
Postado dia 11/04/2022

Economista Ecológica, mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Federal do Ceará (UFC), voluntária no Greenpeace Fortaleza. Atualmente se dedica à pesquisa sobre os impactos dos agrotóxicos no meio ambiente e na saúde humana, e aos estudos sobre Economia Ecológica.















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Contexto Histórico

O crescimento econômico foi prioridade no século XX e ainda hoje é prioridade de muitos países. Muitos problemas sociais e ecológicos foram sustentados em prol desse crescimento. Com a industrialização e as atividades desencadeadas por ela, a teoria econômica, de 1935 a 1960, construiu a imagem da natureza como um armazém de recursos à espera de serem usados. Ou seja, em sua maioria, os economistas anglo-americanos (desde mais ou menos 1880) tiraram a natureza da Economia (DALY, FARLEY, 2004).

Dessa forma, ao longo do tempo, o pensamento econômico tradicional não se ajustou às alterações no meio ambiente que ajudou a criar. Pelo contrário, continuou a justificar e a causar uma rápida e consistente mudança ecológica através de seu obcecado crescimento econômico. Paralelo a isso, por volta de 1880 à 1970, o mundo intelectual também esteve unido em negar as alterações ambientais que estavam acontecendo. Enquanto muitos economistas ignoravam a natureza, existiam também muitos ecologistas que faziam de conta que a humanidade não existia.
Nesse caso, ao se constatar a urgência de superar os limites disciplinares que impedia uma visão de conjunto da problemática ecológico-econômica, a Economia Ecológica (EE) surgiu como tentativa de integração da Economia e da Ecologia, mas sem dependência disciplinar delas. Ela teria que ser, portanto, transdisciplinar, e focar nas relações entre ecossistemas e sistemas econômicos da forma mais abrangente possível (CAVALCANTI, 2010). Assim, muitas das ideias que depois se tornaram parte da EE foram colocadas em movimento por volta de 1970. Em seguida, o campo foi nomeado e institucionalizado. Isso aconteceu em grande parte por volta de 1989 com o estabelecimento da International Society for Ecological Economics e a criação do jornal acadêmico Ecological Economics.

ECONOMIA TRADICIONAL / ECONOMIA NEOCLÁSSICA x ECONOMIA ECOLÓGICA

Segundo Daly e Farley (2004), a economia é o estudo da atribuição de recursos limitados ou escassos entre fins alternativos e competidores. A atribuição pode ser definida como o processo de atribuir proporcionalmente recursos à produção de diferentes bens e serviços. Nesse sentido, a economia neoclássica (ENC) ocupa-se do mercado como se fosse o único mecanismo de atribuição, enquanto a EE reconhece que o mercado é apenas um desses possíveis mecanismos. Ela questiona a crença dominante segundo a qual os mercados revelam todos os nossos desejos e que são o sistema ideal não só para atribuir todos os recursos de forma eficaz, mas também para distribuí-los de forma justa pelas pessoas.

Assim, segundo Cavalcanti (2010), a economia tradicional não leva em conta as conexões existentes entre o sistema ecológico e as atividades de produção e consumo que representam o âmago de qualquer sistema econômico, como pode ser visto na Figura 1.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: A economia – atividade como sistema isolado (visão econômica da economia)

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Esse modelo econômico típico da economia não contempla a natureza e seus limites ambientais. Ele foca apenas em fluxos e variáveis do domínio econômico. Nesse modelo apresentam-se fluxos monetários que circulam, em laço fechado, entre famílias e empresas, fazendo girar apenas valor de troca. A natureza, aí, é o que ficou conhecida como uma “externalidade” (CAVALCANTI, 2010). Dessa forma, ao contrário dessa visão dominante da economia, a EE vê a economia como subsistema do todo maior que é a natureza, como pode ser visto na Figura 2.

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Figura 2: A economia – atividade como sistema aberto dentro do ecossistema (visão ecológica da economia)

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A questão apresentada na Figura 2 é conceber a economia-atividade como sistema aberto dentro do ecossistema. Como Cavalcanti (2010) explica: matéria e energia entram no sistema econômico, passam pelo processo que se chama em inglês de throughput (em português poderia ser “transumo”) e viram lixo ou matéria e energia degradadas. Aí não há propriamente criação de riqueza. Existe transformação de matéria e energia de baixa entropia (recursos) em matéria e energia de alta entropia (lixo) – como estabelecem as leis da termodinâmica. É essa também a compreensão biofísica do processo econômico de Georgescu-Roegen (2012), considerado por muitos economistas ecológicos o ‘’pai da Economia Ecológica’’.

Assim, baseado em todo esse entendimento, segundo a International Society for Ecological Economics:

‘’A economia ecológica existe porque cem anos de especialização disciplinar na investigação científica nos deixaram incapazes de entender ou gerenciar as interações entre os componentes humanos e ambientais de nosso mundo. Embora ninguém conteste os insights que a especialização disciplinar trouxe, muitos agora reconhecem que ela também se tornou nosso calcanhar de Aquiles. Em um mundo interconectado em evolução, a ciência reducionista expandiu o envelope do conhecimento em muitas direções diferentes, mas nos deixou desprovidos de ideias sobre como formular e resolver problemas que derivam das interações entre humanos e o mundo natural. Como o comportamento humano está conectado a mudanças nos ciclos hidrológicos, de nutrientes ou de carbono? Quais são os feedbacks entre os sistemas sociais e naturais e como eles influenciam os serviços que recebemos dos ecossistemas? A economia ecológica como campo tenta responder a questões como essas.’’

Dessa maneira, os (as) economistas ecológicos (as) com seus desacordos essenciais com o pensamento econômico normalizado não partilham das perspectivas de muitos economistas como, por exemplo, que o crescimento econômico resolverá, por si, o problema econômico, que a tecnologia conseguirá sempre substituir um recurso natural desaparecido, que o mercado consegue proporcionar eficazmente todos os tipos de artigos, que as leis da termodinâmica são irrelevantes para o pensamento econômico e que pode haver um crescimento econômico infinito num mundo com recursos finitos (DALY, FARLEY, 2004).

ECONOMIA ECOLÓGICA x RECURSOS DA NATUREZA

O crescimento é definido como um aumento na produção, a qual é o fluxo de recursos a partir do ambiente, através da economia, e de novo regressando à natureza como lixo. É um aumento quantitativo nas dimensões físicas da economia e ou do fluxo de detritos produzidos pela economia. Esse tipo de crescimento, como é perceptível, não pode continuar indefinidamente, porque a Terra e os seus recursos não são infinitos (DALY, FARLEY, 2004).

Aumentar a produção econômica, então, significa sacrifício de recursos da natureza, tais como florestas, solo, água, biodiversidade etc. E o que é produzido desmorona ou se dissipa, retornando de volta para a natureza. Ter noção desse problema leva à necessidade da visão ecológica da economia e traz a reflexão sobre a importância da preservação e conservação dos recursos da natureza (CAVALCANTI, 2010).

Como o sucesso da Revolução Industrial aumentou a extração de recursos não renováveis, aumentou também o consumo material pelo homem. O crescimento econômico que a acompanhou ameaça agora a anterior abundância dos bens e serviços produzidos pela natureza e dos quais dependemos. Georgescu-Roegen (2012) já enfatizava que o desenvolvimento industrial não podia ser indefinidamente durável porque esse desenvolvimento econômico singular depende não apenas das reservas acessíveis de combustíveis fósseis não renováveis, mas também de estruturas materiais (minerais úteis) que têm de ser extraídos das jazidas acessíveis da crosta terrestre, de matérias-primas minerais que envelhecem e se degradam irremediavelmente.

Assim, a EE também tem como propósito dizer em que medida o uso dos recursos da natureza pode ser feito sustentavelmente, por exemplo: quanto pode ser extraído e quanto pode ser devolvido ao meio ambiente por meio do processo econômico? Ou seja, qual é a escala da economia compatível com sua base ecológica? (CAVALCANTI, 2010).

Como dito no início deste artigo, a economia é a ciência da atribuição de recursos escassos dentre fins alternativos. Assim, os recursos da natureza se tornaram os novos recursos escassos e teremos de redesenhar nosso sistema econômico para enfrentar essa realidade. Cabe aqui também ressaltar que o crescimento econômico ser controlado ou parado não implica o fim do desenvolvimento, o qual se define como ‘’mudança qualitativa, realização de potencial’’, evolução no sentido de uma estrutura ou sistema melhorado mas não maior (DALY, FARLEY, 2004).

Por fim, cumpre ressaltar que a mudança no nosso sistema econômico é inevitável. A única questão é saber se ocorrerá como resposta caótica a perturbações imprevistas no sistema global de apoio vital ou como uma cuidadosa e planejada transição para um sistema que opere dentro dos limites biofísicos impostos por um planeta finito. A resposta depende muito de quão rápido agirmos, e a questão premente é: quanto tempo ainda temos? (DALY, FARLEY, 2004).

A EE defende e incentiva a colaboração entre as disciplinas e a verdadeira fertilização cruzada das ciências naturais e sociais como um pré-requisito importante para cuidarmos do meio ambiente e seus recursos, como meio de enfrentar o agravamento das crises ecológicas e sociais do século XXI. Também entende que a economia deve ser construída a partir de fundamentos biofísicos e por valores normativos compartilhados que priorizam o bem comum sobre as preferências individuais de interesse próprio (FARLEY, KISH, 2021).

Referências:CAVALCANTI, Clóvis. Concepções da economia ecológica: suas relações com a economia dominante e a economia ambiental. Estudos Avançados, v. 24, n. 68, p. 53-67, 2010.
DALY, Herman; FARLEY, Joshua. Economia Ecológica: princípios e aplicações. Lisboa: Instituto Piaget, 2004. 530 p.
FARLEY, Joshua; KISH, Kaitlin. Ecological economics: the next 30 years. Ecological Economics, p. 2-10. dez. 2021.
GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. O Descrescimento: entropia, ecologia, economia. São Paulo: Editora Senac, 2012. 258 p.
International Society for Ecological Economics. Welcome to the International Society for Ecological Economics. Disponível em: <https://www.isecoeco.org/>. Acesso em: 15.mar.2022.
O’NEILL, Dan. What is Ecological Economics?. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=vUF7s4Bp_ok >. Acesso em: 10.mar.2022.

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