Receba todas as nossas novidades e conteúdos exclusivos

Início > Conteúdos > Ciência em Ação > A importância da Educação Ambiental para a Conservação da Biodiversidade

A importância da Educação Ambiental para a Conservação da Biodiversidade
Por: Pâmela Rodrigues Braga                               Postado dia 13/05/2021Bióloga; cursando licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP)









O Brasil abriga uma enorme biodiversidade, estando entre os países considerados “megadiversos”, com grande variedade climática e ecológica em sua extensão territorial, formando ecossistemas terrestres e marinhos que refletem essa riqueza de flora e fauna brasileiras (ICMBio, 2018). Mas o que é biodiversidade? O conceito biológico refere-se a três níveis hierárquicos interligados: a diversidade genética – toda informação genética presente nos seres vivos; a diversidade em espécies – as espécies presentes na área; a diversidade ecológica – os ecossistemas constituídos pelas diferentes populações de seres vivos, seu ambiente físico e suas interações (LEVÉQUE, 1999).

A partir da primeira metade do século XX houve no Brasil uma crescente preocupação em relação aos impactos da industrialização e urbanização intensiva sobre o meio ambiente, e a biologia da conservação se estabeleceu como um campo de pesquisa e influência em políticas públicas com o intuito de proteger a biodiversidade (MITTERMEIER et al., 2005). Desde então, o conceito se popularizou na mídia e na ciência pelas discussões relacionadas aos problemas de sua redução (MOTOKANE; KAWASAKI; OLIVEIRA, 2010).

A educação ambiental também ganhou maior relevância no cenário mundial a partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (Estocolmo-Suécia) em 1972, onde é recomendada como a principal forma de se criticar e combater os problemas ambientais da época (DIAS; MARQUES; DIAS, 2016). Além disso, segundo Sauvé (2005), a educação ambiental tem como objeto “de fato, fundamentalmente, nossa relação com o meio ambiente”, direcionando a educação às interações e relações dos seres humanos com o meio que vivem, sendo uma dimensão essencial da educação. Diversas correntes foram propostas para a educação ambiental ao longo desse tempo, segundo Loureiro (2004), as quais podem ser agrupadas em dois grandes blocos político-pedagógicos, o conservador/comportamentalista e o emancipatório/crítico que, consequentemente, diferenciam os projetos e atividades educativas. O primeiro é caracterizado por um “reformismo superficial das relações sociais e de poder” (LOUREIRO, 2004), dando pouca atenção à dimensão política da ação pedagógica, muitas vezes reforçando processos de alienação e a separação entre temáticas da natureza e sociais, enfatizando a educação como um “processo comportamentalista e moral” (LOUREIRO, 2004). O segundo é caracterizado pelo forte caráter político, entendimento de que as questões ambientais estão ligadas às condições sociais e históricas, valorizando o diálogo entre os diferentes saberes científicos e culturais; busca não separar as temáticas sociais e da natureza, sendo entendidas enquanto totalidade (LOUREIRO, 2004).

Vamos pensar então sobre quais seriam algumas das principais ações humanas responsáveis por essa degradação ambiental que ameaçam e reduzem a biodiversidade. Imensas proporções de terra dos biomas já foram desmatadas devido à expansão urbana e do agronegócio; desmatamento para conversão de mais terras para agricultura e criação de gado; atividades de mineração; poluição dos rios por meio do uso intensivo agrotóxicos; expansão urbana e industrial (envolvendo desmatamento, destinação inadequada de esgoto, resíduos sólidos, aumento das emissões de gases estufa, etc); acúmulo de lixo nos mares, entre outras (ICMBio, 2018). Sem falar nos desastres ambientais que periodicamente acontecem em decorrência dessas atividades, como podemos lembrar, o rompimento da barragem de lama e rejeitos de minério de ferro da empresa Vale, em Brumadinho, Minas Gerais.
Exemplo de imagem
Área de monocultura em contato com vegetação nativa por Adriano Gambarini WWF-Brasil (Fonte: https://redecerrado.org.br/historiasdocerrado/ )
Apenas por intermédio de alguns exemplos é possível percebermos que a degradação ambiental acontece em decorrência de ações humanas específicas, relacionadas ao sistema econômico vigente. A questão não é a da presença e ação humana em áreas naturais e sim os instrumentos, as técnicas e tecnologias utilizadas que acompanham esse modo de produção das sociedades urbano-industriais capitalistas. A lógica eurocêntrica dessas sociedades está centrada em uma economia global que visa o lucro, alto consumo e a exploração dos recursos naturais, com uma visão antropocêntrica de separação entre ser humano e natureza (COSTA, 2011). Aqui, é importante pontuar que, historicamente, a vertente clássica conservacionista, produto dessa lógica hegemônica, por muito tempo consolidou e agiu em função da visão de que deveria se preservar a natureza “intocada” e “selvagem”, sem a presença humana, sendo responsável por reproduzir violências à povos tradicionais em função da preservação, por exemplo (COSTA, 2011).

Atualmente, sabemos que essa biodiversidade que vemos é produto da relação profunda entre os povos tradicionais e seus diversos ambientes, que ao longo de muitos anos ocuparam e transformaram as paisagens, desenvolvendo saberes e modos de vida que contribuíram para a manutenção da diversidade, sem colocar em risco as condições de permanência desses ecossistemas (DESCOLA, 2000). Isso nos leva a compreender, de maneira mais ampla, que a diversidade biológica está intrinsicamente ligada a diversidade cultural dessas populações que se sustentam e sobrevivem em relação imediata com o ambiente.
Imagem Bocaina

Foto de Marcus Desimoni WWF-Brasil (Fonte: https://redecerrado.org.br/historiasdocerrado/ )

De maneira geral, os danos e riscos ambientais desse sistema econômico capitalista, marcado por profundas desigualdades sociais e econômicas, tendem a se distribuir também de forma desigual, recaindo sobre as populações que já são mais vulneráveis, de baixa renda e marginalizadas, uma vez que, inversamente, os benefícios econômicos se concentram nas classes sociais altas, processo denominado “injustiça ambiental” (COSTA, 2011; RBJA).

Portanto, apesar do termo “biodiversidade” se referir ao domínio das ciências biológicas, não há como compreender o conceito, pensar na conservação da biodiversidade e na resolução dos problemas da atualidade sem pensar nas questões sociais, econômicas e culturais que permeiam as relações dos seres humanos com o ambiente. Os conhecimentos das ciências da natureza podem ser importantes para compreensão de diversos aspectos dessa discussão, mas não só. As ciências humanas, os saberes e vozes dessas populações devem dialogar para uma compreensão crítica da realidade (DESCOLA, 2000). Do contrário, estaremos fadados a cair na velha ideia de conservação da biodiversidade eurocêntrica, focada apenas nos conhecimentos científicos ocidentais, que serve à manutenção das estruturas econômicas e culturais que produzem os problemas e injustiças ambientais (COSTA, 2011).

Da mesma forma, atividades e projetos de educação ambiental que não levam em consideração a visão e análise crítica do mundo para realizar suas práticas pedagógicas, geralmente são focadas na transmissão de condutas ecologicamente corretas, visando a mudança de atitudes individuais, não servindo para emancipação dos sujeitos em relação aos complexos conflitos socioambientais da atualidade (interessante para os setores que pretendem apenas minimizar alguns impactos, mantendo as coisas como estão) (LOUREIRO, 2007).

Quando pensamos em conservação do bioma cerrado, por exemplo, considerado um Hotspot de biodiversidade, que vem sendo destruído principalmente devido a expansão do agronegócio (KLINK; MACHADO, 2005), é necessário compreender o impacto que essas atividades causam em dimensão biológica/ecológica, a importância do bioma para os ciclos hidrológicos e os interesses econômicos envolvidos. Bem como, compreender que esta área, que hoje chamamos de cerrado, há séculos coexiste com populações humanas (indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores artesanais, etc.) e que essa destruição impacta diretamente a vida dessas pessoas que vivem em função da relação com a natureza (REDE CERRADO). Nesse sentido, uma ação de educação ambiental crítica (em oposição a conservadora), que vise abordar alguma questão relacionada ao bioma cerrado, parte da identificação de um problema central e contextualizado, como a poluição da água de um rio; e possibilita por meio de práticas ativas, a ampliação da discussão para compreensão dos processos históricos de ocupação do território, a percepção das comunidades que vivem próximas ao rio, os fatores antrópicos estão causam o problema, os impactos para as espécies e populações, entre tantas outras abordagens.
Imagem Bocaina

Paisagem do Cerrado por Marcus Desimoni WWF-Brasil (Fonte: https://redecerrado.org.br/historiasdocerrado/ )

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

A partir dessas análises, compreendo que a importância da educação ambiental para a conservação da biodiversidade reside, justamente, na possibilidade de esta abordar diversos temas e problemáticas socioambientais relacionadas a biodiversidade e conservação desta; e em sua abordagem crítica, permitindo a reflexão e a prática que parte de problemas ambientais locais. Dessa maneira é possível buscar “induzir dinâmicas sociais, de início na comunidade local e, posteriormente, em redes mais amplas de solidariedade, promovendo a abordagem colaborativa e crítica das realidades socioambientais, e uma compreensão autônoma e criativa dos problemas que se apresentam e das soluções possíveis para eles” como aponta Sauvé (2005). Nessa perspectiva, a educação ambiental crítica é importante para gerar reflexões e propor intervenções relacionadas a conservação da biodiversidade com justiça ambiental, mas pode ir além, possibilitando diálogos e potencializando movimentos sobre modelos de desenvolvimento alternativos e outras formas de se relacionar com o ambiente (SAUVÉ, 1997).

Existem diversas concepções sobre a “biodiversidade” e sobre “ambiente” que compõem o imaginário da sociedade, e as possibilidades de práticas de educação ambiental são também diversas, mas acredito que em todas, direta ou indiretamente, estaremos refletindo-ensinando-aprendendo-agindo sobre o tema da conservação da biodiversidade.

Conservar a biodiversidade seria então um conjunto de ações que permeiam e refletem os diferentes modelos de sociedade e cultura, e a educação ambiental crítica (e outras que possam ser consideradas sinônimos) uma dimensão educativa privilegiada para as discussões, reflexões e práticas histórica-socialmente situadas relacionadas a essas ações (LOUREIRO 2007). Uma dimensão privilegiada, pois está comprometida com a formação de sujeitos reflexivos, atuantes e críticos que compreendam o sentido de conservar a biodiversidade, a diversidade cultural e os modelos de desenvolvimento das sociedades, que pode movimentar as pessoas para mudanças sociais coletivas, sem simplificar a complexidade da realidade em que vivemos, para que outros modos de viver nesta terra sejam possíveis.

Referências:

COSTA, L. M. da. Territorialidade e racismo ambiental: elementos para se pensar a educação ambiental crítica em unidades de conservação. Pesquisa em Educação Ambiental, vol. 6, n. 1, pp. 101-122, 2011.
DESCOLA, P. Ecologia e Cosmologia. In: DIEGUES, A. C. (Org.). Etnoconservação: novos rumos para a Conservação da Natureza. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2000.
DIAS, L. S.; MARQUES, M. D.; DIAS, L. S. Educação, Educação Ambiental, Percepção Ambiental e Educomunicação. In: DIAS, L. S.; MARQUES, M. D.; DIAS, L. S. (Org.). Educação Ambiental: conceitos, metodologia e práticas. Tupã: ANAP, 2016. pp. 12-43.
INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE, ICMBio. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. vol 1 , 1. ed. Brasília, DF: ICMBio/MMA, 2018.
KLINK, C. A.; MACHADO, R. B. Conservation of the Brazilian Cerrado. Conservation Biology, v. 19, n. 3, p. 707–713, 2005.
LÉVÊQUE, C. A biodiversidade. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração. p.245, 1999.
LOUREIRO, C. F. B. Educação ambiental e gestão participativa na explicitação e resolução de conflitos. Revista Gestão em Ação. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFBA; ISP/UFBA. Salvador, v.7, n.1, jan./abr.,2004, p.37 – 50.
LOUREIRO, C. F. B. Educação ambiental crítica: contribuições e desafios In: MELLO, S. S. de (coord.) Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola. Brasília: Ministério da Educação, Coordenação Geral de Educação Ambiental: Ministério do Meio Ambiente, Departamento de Educação Ambiental: UNESCO, 2007. pp. 65-62.
MITTERMEIER, R. A. et al. Uma breve história da conservação da biodiversidade no Brasil. MEGADIVERSIDADE, v. 1, n. 1, p. 14–21, 2005.
MOTOKANE, M. T.; KAWASAKI, C. S.; OLIVEIRA, L. B. Por que a biodiversidade pode ser um tema para o ensino de ciências? In: MARANDINO, M.; MONACO, L. M.; OLIVEIRA, A. D. (Org.). Olhares sobre os diferentes contextos da biodiversidade: pesquisa, divulgação e educação. São Paulo: GEENF/FEUSP/INCTTOX, p. 94, 2010.
RBJA. Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Disponível em: https://rbja.org/Cartas-Notas/.
REDE CERRADO. Pelos povos e comunidades tradicionais. Porque são eles os conhecedores e guardiões das riquezas do Cerrado. Disponível em: https://redecerrado.org.br/nossa-atuacao/defesa-de-povos-e-comunidades-tradicionais/.
SAUVÉ, L. Educação Ambiental: possibilidades e limitações. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 317-322, maio/ago. 2005.
SAUVÉ, L. Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: uma análise complexa. Revista de Educação Pública, vol. 10, jul/dez, 1997.