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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Philippe Nicolau Mariano
Postado dia 27/07/2022

Biólogo e Zoólogo especialista em aves silvestres, Doutorando em Biologia de Vertebrados pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Atua em impactos ecológicos por metais pesados em aves (Passeriformes).















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A Serra do Espinhaço é o conjunto de terras altas, de características geológicas e biológicas singulares. Também conhecido como Supergrupo Espinhaço, originou de um processo de rifteamento tectônico (afastamento de rochas) que resultou na formação de dois planaltos, sendo eles o planalto meridional e o planalto setentrional. Os planaltos que compõe a Serra do Espinhaço são compostos por serras que se estende desde Ouro Branco, na região centro-sul de Minas Gerais (Quadrilátero Ferrífero), até a região central da Bahia (Chapada Diamantina), ao longo de aproximadamente 1.000km.

O planalto meridional possui seu início reconhecido nas nascentes do Rio Cipó (Serra do Cipó) estado de Minas Gerais onde sua altitude inicial possui em média 1.200 metros, e percorre até a depressão de Couto Magalhães (divisa do estado de Minas Gerais e Bahia) onde o Espinhaço possui suas maiores altitudes (cerca de 2.062 metros). Já o planalto setentrional inicia inda em Couto Magalhães, porem ainda em altitudes de 1.467 metros e estende até a macrorregião da Chapada Diamantina onde a altitude média pode ser considerada baixa em comparação ao planalto meridional (cerca de 1.200 metros).

A cobertura vegetal do Espinhaço está associada ao tipo de rocha, logo a vegetação nestes ambientes compões as formações vegetacionais dos campos de altitudes. Além disso, a Serra do Espinhaço é considerada como um mosaico fitogeográfico, sendo reconhecidos nele três domínios fitogeográficos (Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica), onde surgem importantes áreas de transição (região ecotonal) entre o Cerrado e a Mata Atlântica e a Caatinga e a Mata Atlântica, representando, portanto, uma barreira geográfica entre a Mata Atlântica e as formações abertas do Brasil (Cerrado e Caatinga).

Além do mais, o complexo montanhoso da cadeia do Espinhaço é uma importante barreira natural da bacia do rio São Francisco e as bacias do rio Doce (MG), Jequitinhonha (MG-BA) e dos rios Vaza-barris, Itapicuru, Real, Paraguaçu, Inhambupe, recôncavo norte e sul, de Contas, Pardo, Leste e Extremo sul (BA), sendo que toda a porção oriental deste divisor de águas mais próxima ao litoral é fortemente influenciada pelo domínio da Mata Atlântica. Além disso, nos ambientes terrestres é possível observar tal barreira geográfica é moduladora das interações e correlações biogeográficas entre espécies determinando ainda diferentes graus de endemismos.

Espinhaço Setentrional
 
Cobertura vegetal

O planalto Setentrional do Espinhaço (Espinhaço Setentrional), congrega elevadas taxas de endemismo e singularidade. Tal fator está associado a dois principais fatores, sendo o primeiro relacionado ao isolamento geográfico devido o soerguimento do planalto, e o segundo devido a surgimento do domínio fitogeográfico da Caatinga durante o Pleistoceno.

Em relação à vegetação do Espinhaço Setentrional, as ilhas de solos abrigam comunidades vegetais agregadas no espaço que são delimitadas pela superfície rochosas, sendo estas típicas no território brasileiro e comumente conhecidas como campos rupestres. Os campos rupestres são ecossistemas localizados em altitudes superiores a 900 metros com afloramentos rochosos de origem pré-cambriana, com predominância de ervas, gramíneas e arbustos. As plantas ocorrentes nos campos rupestres possuem grande capacidade de fixação ao substrato, e são tolerantes à dessecação ou resistentes ao estresse hídrico. A heterogeinidade de substratos, e topografias bem como ao microclima é refletida na estrutura das comunidades e na composição florística dos campos rupestres. Sendo assim, as famílias vegetais mais comuns nesse ecossistema são Amaryllidaceae, Bromeliaceae, Burmanniaceae, Cactaceae, Compositae, Cyperaceae, Droseraceae, Ericaceae, Eriocaulaceae, Euphorbiaceae, Getianaceae, Gutifferae, Leguminosae, Lentibulariaceae, Melastomataceae, Malpighiaceae, Orchidaceae, Rubiaceae, Velloziaceae e Xyridaceae.

Fauna de vertebrados terrestres
 
A Serra do Espinhaço é uma região importante nos contextos geológico, ecológico e biogeográfico no Brasil. Em relação aos anfíbios, parte do conhecimento da composição de espécies do Espinhaço é advinda dos trabalhos realizados a partir da década de 70 Werner C. A. Bokermann e Ivan Sazima, que publicaram a descrição de diversas novas espécies de anuros para o Espinhaço.

Além do mais, assim como grande parte das espécies de lagartos encontrada no Espinhaço é endêmica ou pelo menos apresenta na fitofisionomia de campo rupestre, sua principal área de distribuição. Algumas exceções podem ser observadas, como é o caso dos lagartos Polychrus acutirostris e Tropidurus hispidus, que apresentam ocorrência em áreas de campos rupestres, porém, seus registros são mais intensos em áreas adjacentes a este tipo de formação fitofisionômica.

Em relação as aves com ocorrência na Serra do Espinhaço, esta é um importante centro de endemismo, em especial para as espécies de aves, visto que o mesmo constitui uma barreira geográfica entre o domínio fitogeográfico da Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga. As aves compõem um dos grupos mais bem estudados em qualquer ambiente. Por ocuparem grande diversidade de nichos, são consideradas como bioindicadoras de ecossistemas terrestres, principalmente os florestais.

Os mamíferos também apresentam proporções de riqueza e endemismo elevados no Espinhaço. São seres que exercem importantes funções ecológicas, e estão presentes em diversos nichos ecológicos. Assim como os demais grupos também são indicadoras de qualidade dos ecossistemas, em especial os indivíduos considerados dispersores de sementes e polinizadores que auxiliam na propagação e permanência de espécies vegetais.

Descobertas taxonômica e carência de estudos
 
Mesmo o Espinhaço Setentrional possuindo uma elevada importância do ponto de vista científico, as informações sobre historial natural, nível de endemismo e distribuição das espécies são considerados incipientes. Em relação aos anfíbios e répteis (quelônios, crocodilianos, lagartos e serpentes) a mais recente compilação de dados a respeito da composição de espécies de anuros ao longo da Serra do Espinhaço como um todo sugerem que ocorram no Espinhaço Setentrional 105 espécies de anfíbios (anuros), sendo que 28 táxons apresentam distribuição restrita à esta cadeia de montanhas e apenas cinco espécies, são consideradas restritas ao estado da Bahia: Rupirana cardosoi, Strabomantis aramunha, Bokermannohyla itapoty, B. diamantina e B. oxente. Por outro lado, os répteis do Espinhaço Setentrional são compostos por 64 espécies. Neste trabalho foram registrados exemplares que ainda não eram descritos pela ciência, como lagartos da família Mabuyidae e do gênero Eurolophosaurus e as serpentes Chironius aff. flavolineatus, Tantilla sp. e Taeniophallus gr. occipitalis. Foram registradas ainda espécies com ocorrência desconhecida para a Chapada Diamantina, como as serpentes Sibynomorphus neuwiedi, Siphlophis leucocephalus, Oxyrhopus guibei e Philodryas patagoniensis. Além disso, houve a ampliação da distribuição geográfica da serpente Trilepida koppesi, que até então era desconhecida para o nordeste brasileiro.

Este cenário se repete quando são estudadas as assembleias de aves, onde estudos visaram contribuir com a riqueza, distribuição e interações ecológicas das espécies de aves no Espinhaço Setentrional. Além disso, é importante salientar que no ano de 1965 no município de Igatu (BA) o naturalista alemão Rolf Grantsau foi o primeiro a coletar a espécie Formicivora grantsaui endêmica dos campos rupestres da Chapada Diamantina, sendo, portanto, a última descrição de um novo táxon para esta região.

Estudos envolvendo os mamíferos ocorrente no Espinhaço Setentrional seguem os mesmos cursos de estudo conduzidos para os grupos anteriores. Recentemente as informações sobre a riqueza de espécies de mamíferos do Espinhaço foram apliadas, por meio de trabalhos de campo e consulta a materiais testemunho depositado em coleções científicas de referência. Tais esforços foram fundamentais para o conhecimento de 109 espécies de mamíferos não voadores dos quais cerca de 20% apresentam algum grau de ameaça e aproximadamente 10% apresentam deficiência de dados para análise de seu status de conservação. Além disso, foram conhecidas 16 novas espécies, sendo marsupiais (Família Didelphidae) e roedores típicos de vegetação aberta (cerrado-Caatinga) como Thrichomys inermis (rabudo) e Oligoryzomys rupestris (rato-do-mato) e de ambientes florestais como Akodon cursor (rato-de-chão) para as áreas da Chapada Diamantina, além da espécie endêmica da Caatinga Wiedomys pyrrhorhinos (rato-de-fava) e Trinomys moojeni (rato-de-espinho), única espécie de roedor endêmica do Espinhaço. Já os mamíferos voadores (quirópteros) são conhecidas 32 espécies com ocorrência no Espinhaço Setentrional, o que representa cerca de 20% da riqueza do país.

Conservação
 
Com base nos estudos apresentados e no conhecimento científico atual, é possível concluir que o Espinhaço Setentrional apesar de possuir elevada riqueza e endemismo, a real diversidade de espécies é pouco conhecida. Estes resultados expressam as dificuldades em inventariar a riqueza de espécies em ambientes tropicais, dificuldades de acessos em regiões ainda consideradas como selvagens e baixa quantidade de taxonomistas. Além disso, devido aos grandes potenciais eólicos e fotovoltaicos, o Espinhaço Setentrional se tornou visado do ponto de vista de geração de energia. Como resultado temos áreas desconhecidas para ciência suprimidas, e este fator fomenta a falta de conhecimento zoológicos e ecológicos das espécies. Desta forma, o incentivo a novos pesquisadores explorarem esta região se faz necessário, visto que quanto maior for o conhecimento científico, maior será as descobertas de novas espécies, padrões ecológicos e medidas conservacionistas mais adequadas a singularidade destes ambientes.

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