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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Ana Cristina da Silva Utta
Postado dia 25/05/2022

Bióloga, mestre em Ciências Biológicas pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia - INPA. Atualmente sou aluna de Doutorado em Ciências Biológicas - Ecologia (INPA) e pesquisadora visitante na Università degli Studi di Pavia, UNIPV, Itália.















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Formigas normalmente representam uma grande proporção da biomassa animal, especialmente em áreas de florestas tropicais (Fittkau e Klinge, 1973) e possuem um papel expressivo nas teias tróficas das quais participam, pois auxiliam na ciclagem de nutrientes (Hölldobler e Wilson, 1990). O estabelecimento e a persistência de formigas em determinado local dependem das condições de equilíbrio deste (Neves et al., 2013), da disponibilidade de alimento, locais de nidificação, da competição e presença de predadores, bem como de variáveis abióticas (e.g., topografia, umidade, temperatura) que regulam o acesso a esses recursos.

As formigas desempenham diversas funções nos hábitats onde vivem, é possível encontrar na literatura estudos que demonstrem a importância delas como bioindicadoras de qualidade ambiental (Ribas et al., 2007). Esses organismos necessitam de muito mais tempo para processamento e identificação no laboratório, levando ao aumento dos custos de projeto. Este é um exemplo das limitações práticas e restrições de tempo e dinheiro na avaliação da biodiversidade, que podem ser superadas usando uma abordagem com táxon substituto (Souza et al., 2016). O custo (tempo e dinheiro) do monitoramento ambiental é um fator crucial para sua viabilidade (Margules e Pressey, 2000) e qualquer alternativa confiável deve ser usada para aumentar a área coberta ou a duração da série temporal.

As relações entre a mirmecofauna e gradientes ambientais regem os padrões de distribuição ao longo do tempo, uma vez que variáveis abióticas como temperatura e umidade são essenciais no processo de reprodução, desenvolvimento e sobrevivência dos organismos (Lindsay e Bayoh, 2004). Alguns estudos com invertebrados utilizaram respostas ecológicas, com base em preditores ambientais que determinam a distribuição de organismos, para validar a decisão de reduzir o número de técnicas de amostragem (Souza et al., 2012) ou ainda seleção de espécies frequentes de substituto de diversidade (Franklin et al., 2013).

Como forma de agilizar o levantamento e manejo de áreas, uma alternativa seria se concentrar em um número menor de táxons substitutos ou surrogates, que são capazes de fornecer respostas satisfatórias dentro de um curto espaço de tempo e conhecer a distribuição de espécies naquele meio. Investigar as relações ecológicas entre surrogates e as variáveis ambientais tem importância mais prática do que simplesmente mostrar correlações entre o número de entidades taxonômicas.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: Blepharidatta brasiliensis como potencial espécie de táxon substituto em um estudo realizado em 2006 e 2012 em uma localidade em Manaus.

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Devido às progressivas alterações tanto naturais quanto antrópicas do meio ambiente, são necessários estudos sobre a distribuição e a variação da riqueza e composição de espécies ao longo de gradientes ambientais para que seja possível conhecer a dinâmica da diversidade de cada localidade (McCain, 2007). Nesse caso, o grupo escolhido deve representar grande parte da diversidade da área e responder aos mesmos processos ecológicos que geram e mantem a diversidade total, o que indiretamente inclui as espécies consideradas raras ou pouco frequentes (Siqueira et al., 2012). O uso de taxon substituto para formigas também tem se mostrado eficaz em outros estudos (Groc et al., 2010; Jiménez-Carmona et al., 2020).

Com isso, reiteramos a importância de criar e estabelecer programas que apoiem estudos a fim de desenvolver medidas de atalho confiáveis e econômicas como forma de avaliação da biodiversidade. Permitindo uma redução de gastos em futuros trabalhos e potenciar medidas de manejo das áreas, uma vez que os resultados encontrados são consistentes, sendo passíveis de investigação em outros grupos biológicos e paisagens. O uso das espécies mais frequentes de formigas como táxon substituto da composição da assembleia total pode ser aplicado em locais com fitofisionomias similares e quando o interesse for em descrever as relações ecológicas junto a assembleia de formigas.

Referências:Fittkau, E. J.; Klinge, H. 1973. On biomass and trophic structure of the central Amazonian rain forest ecosystem. Biotropica, 5:2–14 https://doi.org /10.2307/2989676
Franklin, E.; de Moraes, J.; Landeiro, V. L.; Souza, J. L. P.; Pequeno, P. A. C. L.; Magnusson, W. E.; de Morais, J. W. 2013. Geographic position of sample grid and removal of uncommon species affect multivariate analyses of diverse assemblages: the case of oribatid mites (Acari: Oribatida). Ecological Indicators, 34: 172-180 https://doi.org/10.1016/j.ecolind.2013.04.024
Groc, S.; Delabie, J. H. C.; Longino, J. T.; Orivel, J. Majer, J. D.; Vasconcelos, H. L.; Dejean, A. 2010. A new method based on taxonomic sufficiency to simplify studies on Neotropical ant assemblages. Biological Conservation 143 (11): 2832-2839 https://doi.org/10.1016/j.biocon.2010.07.034
Hölldobler, B.; Wilson, E. O. 1990. The ants, Harvard University Press, Cambridge, MA, 732 p
Jiménez-Carmona, F.; Carpintero, S.; Reyes-López, J. L. 2020. Ants (Hymenoptera: Formicidae) as surrogates for epigeic arthropods in Northern Andalusian ‘dehesas’ (Spain). Sociobiology, 67(2), 201–212 https://doi.org/10.13102/sociobiology.v67i2.4895
Lindsay, S. W.; Bayoh, M. N. 2004. Mapping members of the Anopheles gambiae complex using climate data. Physiological Entomology, 29: 204–209 https://doi.org/10.1111/j.0307-6962.2004.00405.x
Margules, C. R.; Pressey, R. L. 2000. Systematic conservation planning. Nature, 405 (6783): 243-253
McCain, C. M. 2007. Could temperature and water availability drive elevational species richness patterns? A global case study for bats. Global Ecology and Biogeography, 16 (1): 1-13 https://doi.org/10.1111/j.1466-8238.2006.00263.x
Neves, F. S.; Queiroz-Dantas, K. S.; Da Rocha, W. D.; Delabie, J. H. C. 2013. Ants of three adjacent habitats of a transition region between the cerrado and caatinga biomes: the effects of heterogeneity and variation in canopy cover. Neotropical entomology, 42 (3): 258-268 https://doi.org /10.1007/s13744-013-0123-7
Ribas, C. R.; Schmidt, F. A.; Solar, R. R. C.; Schoereder, J. H.; Valentim, C. L.; Sanches, A. L. P.; Endringer, F. B. 2007. Formigas podem ser utilizadas como bioindicadoras de recuperação após impactos ambientais? Biológico, 69 (2): 57-60
Siqueira, T.; Bini, L. M.; Roque, F. O.; Couceiro, S. R. M.; Trivinho‐Strixino, S.; Cottenie, K. 2012. Common and rare species respond to similar niche processes in macroinvertebrate metacommunities. Ecography 35 (2): 183-192 https://doi.org/10.1111/j.1600-0587.2011.06875.x
Souza, J. L. P.; Baccaro, F. B.; Landeiro, V. L.; Franklin, E.; Magnusson, W. E.; Pequeno, P. A. C. L.; Fernandes, I. O. 2016. Taxonomic sufficiency and indicator taxa reduce sampling costs and increase monitoring effectiveness for ants. Diversity and Distributions, 22 (1): 111-122 https://doi.org/10.1111/ddi.12371
Souza, J. L. P.; Baccaro, F. B.; Landeiro, V. L.; Franklin, E.; Magnusson, W. E. 2012. Trade-offs between complementarity and redundancy in the use of different sampling techniques for ground-dwelling ant assemblages. Applied Soil Ecology, 56: 63–73 https://doi.org/10.1016/j.apsoil.2012.01.004

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