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Você saberia o que a geração de energia hidroelétrica, a pesca esportiva e ter um aquário em casa, podem ter em comum?
Por: Roger Paulo Mormul
Postado dia 29/06/2021

Doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais (PEA/UEM), professor do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Coordenador do Laboratório de Ecologia de Lagos Rasos e Invasões, no Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (Nupélia/UEM). Desenvolve pesquisas sobre interações tróficas em lagos rasos e seus efeitos sobre a estabilidade desses ecossistemas, bem como sobre a biologia das invasões por animais e plantas, e como essas invasões afetam a biodiversidade.









Certamente a resposta para essa pergunta não é clara para a maioria das pessoas! Mas, para quem trabalha com invasões biológicas, uma das primeiras coisas que vem à cabeça é a introdução de espécies. Isso mesmo, a construção de usinas ou pequenas centrais hidroelétricas podem levar, entre outros problemas, à introdução de espécies. Muitos reservatórios de hidroelétricas são utilizados, por exemplo, para o cultivo de peixes que consumimos; geralmente as tilápias (Oreochromis niloticus e Coptodon rendalli). A tilápia-do-Nilo (O. niloticus), de origem africana, é uma espécie não nativa do Brasil, ou seja, exótica! Sim, ser exótica, neste caso, significa que ela é diferente do que temos em nosso continente. A tilápia foi introduzida no Brasil principalmente para fins comercias na produção pesqueira. Uma das formas amplamente utilizadas para o cultivo de tilápias é o tanque-rede, um tipo de gaiola que mantém os peixes confinados. Esse tipo de cultivo é bastante difundido nos reservatórios de hidroelétricas, e com crescente expansão no país. Durante o cultivo, os peixes são alimentados com ração e, nos casos de injurias sobre os organismos confinados em gaiolas, por exemplo, ocorrem aplicações de medicamentos e outros químicos na água. Essas práticas acarretam alterações em características físicas e químicas da água, levando à deterioração da qualidade da água nas áreas de cultivo e, dependendo da substância, pode atingir áreas distantes da piscicultura. Se não bastasse, os peixes precisam ser transportados para dentro ou para fora dos tanques, momento em que podem ocorrer escapes. Além disso, ao estarem confinados, passam a ser presa fácil para grandes predadores (como as lontras) que têm capacidade de abrir as grades dos tanques, aumentando os escapes. Mas os escapes não são apenas por causas naturais ou devido à atividade de manejo. Como os tanques frequentemente estão em reservatórios, que geralmente são áreas públicas, eles podem sofrer ações de “vândalos”, os quais abre as telas, furtam os peixes, e deixam elevada parcela escapar durante a ação.

A introdução de espécies oriundas de outros continentes (como o caso das tilápias) não é o único tipo de introdução de espécies que nos preocupa. Quando se trata de espécies aquáticas, a bacia hidrográfica deve ser considerada como a área de origem da espécie, mesmo dentro de um país ou estado. Se uma espécie é transportada de uma bacia hidrográfica para outra, também está ocorrendo a introdução de espécies não nativas. Além disso, dentro de uma mesma bacia hidrográfica, também podem ocorrer introduções de espécies. Para esse caso, considere, por exemplo, a existência de uma cachoeira. A formação de um reservatório de hidroelétrica inunda grandes áreas, e em alguns casos, cachoeiras inteiras são submergidas pelas águas do reservatório. Assim, a formação do reservatório nessas áreas elimina uma barreira geográfica natural que separava espécies que habitavam as áreas acima e abaixo da cachoeira há longos períodos evolutivos. Dessa forma, ao “misturar” essas espécies, há introdução em ambas as direções, rio acima e rio abaixo. Em um estudo recente mostramos que a introdução de peixes através da eliminação de uma cachoeira (as Sete Quedas) teve papel fundamental no declínio de insetos aquáticos nativos em uma porção do rio Paraná. Esse declínio constitui-se em um grande impacto para os humanos, pois os insetos desempenham diversos papeis não apenas nos ecossistemas aquáticos, mas também nos ecossistemas terrestres, como, por exemplo, a polinização da flora e o controle biológico de insetos não nativos.
Professor! E a pesca esportiva? Claro, quem gosta de pescar relata a emoção de fisgar um peixe “brigador”, e depois, nada como um peixe frito, moqueca e outras tantas formas de consumir o peixe. Algumas espécies de peixes se destacam no quesito “briga” e sabor. Por isso, essas espécies são tidas como alvo na pesca esportiva. Surge então o problema. Pescadores do Sul do país, por exemplo, anseiam pescar os tucunarés (Cichla spp.) nativos da bacia Amazônica. Mais fácil que se deslocar até o Norte do país seria ter o peixe no Sul. Assim, ocorre uma introdução de espécie visando a pesca esportiva. Os tucunarés são peixes que se alimentam de outros peixes de menor porte e utilizam principalmente a visão para encontrar suas presas. Ao transportá-lo da bacia Amazônica para qualquer outra que possua águas transparentes (como a dos reservatórios), facilitamos a captura de presas pelo tucunaré. Agora, imagine se os tucunarés ou outras espécies que possuem características similares fossem introduzidas na bacia do rio Iguaçu, por exemplo, onde há elevado número de espécies endêmicas de peixes, que não ocorrem em nenhum outro local do planeta. Exato, isso seria uma catástrofe! A espécie introduzida se alimentaria das espécies endêmicas e poderia leva-las à extinção global. Casos como este são relatados para introduções não apenas entre bacias como relatado sobre o tucunaré, mas também para espécies trazidas de outros continentes para o Brasil, como o black bass e truta arco-íris. Com as introduções de tucunarés e outros peixes “brigadores”, são introduzidos também patógenos e fauna de parasitas. Ainda, como são alvo de pescadores, todos querem utilizar lambarizinhos ou tuviras como isca. Frequentemente essas iscas são transportadas de uma bacia para outra e, no final da tarde, quando acaba a pescaria, as sobras de iscas vivas são lançadas na água; ocorrendo outro evento de introdução.

Fica fácil perceber que a introdução de espécies está correlacionada com as atividades humanas, nossos costumes e/ou culturas “equivocadas” do ponto de vista ecológico, bem como dos nossos desejos de posse da natureza. Nesse último caso, falamos sobre o desejo, por exemplo, de ter um aquário em casa. Pense bem! Se você quer ter um aquário com 10 espécies diferentes, de onde elas vieram? Um enorme número de espécies é cultivado especificamente para atender essa demanda. Similarmente ao que ocorre com a produção pesqueira em tanques-redes, nos cultivos de espécies ornamentais também ocorrem escapes para riachos e outros ambientes naturais. Se não escapa no cultivo, há relatos que ela é introduzida intencionalmente no “corguinho” próximo, simplesmente porque o aquarista desistiu de ter o pet, ou ainda, o peixe colocado no aquário não era adequado para o tamanho do mesmo, levando muitos aquaristas a retirar o peixe do aquário e “soltá-lo” na natureza. Tanto os escapes de cultivo quanto a soltura são introduções de espécies que, particularmente, considero como deliberadas, pois ao cultivar sabe-se da probabilidade do escape, e ao liberar os indivíduos colocamos intencionalmente a espécie em uma área que não é a sua origem. Além disso, introdução de espécies é crime!!! Apenas no estado de Minas Gerais, são registradas mais de 60 espécies de peixes não nativos cultivados para fins ornamentais, com uma produção de mais de 10 milhões de organismos por ano. Um dos principais problemas aqui, por exemplo, é a competição com espécies nativas por alimento e área para reprodução e desova. Imagine que em um ecossistema as espécies nativas se alimentam da comida disponível. Agora, imagine que ao introduzir as espécies não nativas, estas passarão a se alimentar da mesma comida disponível no ecossistema, competindo com as espécies nativas. É como fazer um churrasco para 12 pessoas, e, “do nada” surge meia dúzia de intrusos para comer! Certamente poderá haver alimento para todos, mas é claro, dependendo do quanto as pessoas comerão. Então, a quantidade consumida por pessoa não será a mesma que se esperava. Mas, nada é tão ruim que não possa piorar! Agora imagine que essas pessoas além de comer seu alimento, fiquem para dormir, apesar de não haver espaço para acomodá-las. E pasmem, as espécies introduzidas são aquele tipo de “visita que não vai embora sozinha”, é preciso retirá-la do local. Sim, isso ocorre dentro da água! E as espécies introduzidas aos poucos deixam o alimento mais escasso para as espécies nativas, ocupam locais previamente utilizados pelas espécies nativas para reprodução e desova, e por fim, podem tomar o lugar das espécies nativas.

Enfim, brincadeiras à parte, a introdução de espécies é considerada como uma das mudanças globais, tamanha amplitude de ocorrência e impacto. As atividades humanas estão entre as principais causas de introduções de espécies, e estas por sua vez, têm causado declínios na biodiversidade ambos os ecossistemas (terrestres e aquáticos), com prejuízos diretos e indiretos aos humanos. Políticas internacionais como, por exemplo, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), um tratado da Organização das Nações Unidas, assim como, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e a Carta da Terra, colocam a identificação e controle de espécies não nativas como uma das metas ou objetivos a serem atingidos pelos países signatários. No entanto, mais que legislações internacionais, é preciso comprometimento e engajamento público para realizar um realinhamento das atividades humanas rumo ao desenvolvimento sustentável, algo que necessita reflexão por parte da população quanto aos seus hábitos e costumes. Quanto às políticas nacionais, infelizmente, o Governo atual não enxerga o potencial da biodiversidade brasileira, e tem adotado medidas que facilitam a introdução de espécies não nativas como, por exemplo, o mais recente Decreto Federal 10576/2020, que encoraja o cultivo de espécies não nativas. Esperamos que governos futuros percebam a necessidade em reduzir a distância entre a ciência, a sociedade e as políticas públicas que não apenas afetam a vida do ser humano, eleitor, mas que afetam a vida em sua mais ampla exuberância.

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