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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Virna Mirela Maciel Silva
Postado dia 06/07/2022

Graduada e Mestre em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Ceará. Durante a graduação, tive a oportunidade de participar do programa Ciências Sem Fronteiras, o qual eu cursei um ano de Biologia Marinha na University of Adelaide, na Austrália.
Áreas de interesse: Dinâmica populacional de recursos pesqueiros; Meio Ambiente.















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A atividade pesqueira, não só́ no Brasil, mas no mundo todo, passou e passa por várias fases, principalmente por ser uma prática bastante antiga (Dias-Neto, 2010). No início, acreditava-se que os estoques pesqueiros e a vida marinha eram inesgotáveis. Por conta dessa crença, a exploração sofrida pelos estoques pesqueiros foram se intensificando até um ponto em que perceberam que precisavam criar programas de manejo e estudar sobre as populações de peixes exploradas, para que pudessem entender melhor seus comportamentos, suas características ao longo da vida e assim adaptar as capturas de acordo com tais informações, visando a sustentabilidade. Durante muito tempo, a sobrepesca foi um dos principais impactos ambientais sofridos pelos estoques pesqueiros e o que mais recebia atenção pela sociedade acadêmica.

Hoje já́ são conhecidos outros tipos de impactos ambientais, locais e globais, sofridos pelos estoques pesqueiros. Porém, a sobrepesca continua sendo um dos principais problemas, junto com a mudança climática. Enquanto a sobrepesca é um problema local, o Aquecimento Global, como o nome sugere, é um problema que assola o mundo inteiro, mesmo que alguns países sintam mais as mudanças que outros, no geral todos sofrem.

A exploração intensa de recursos pesqueiros é algo comum em vários locais do mundo, mas em países em desenvolvimento esse problema tem um agravante, a falta de monitoramento, principalmente da pesca de pequena escala. De acordo com a FAO (2016), essa modalidade de pesca pode representar cerca de 50% da produção pesqueira desses países. E, essa falta de controle, acaba prejudicando o manejo pesqueiro e a criação de políticas públicas que auxiliem na exploração sustentável dos estoques.

Existem estudos que mostram que o grande e intenso esforço pesqueiro sobre espécies de peixes, principalmente aquelas de crescimento mais lento, tem efeito negativo e pode fazer com que a densidade populacional de algumas espécies flutuem ao longo dos anos, podendo levá-las a colapsar (Verba et al., 2020; McBride et al., 2013; Dias-Neto, 2010; Sousa-Junior et al., 2008). Em 2008, um estudo feito com espécimes de Lutjanus synagris, peixe conhecido como ariacó, capturados no estado do Ceará, apresentaram um tamanho de primeira maturação menor (Comprimento Total (CT) = 23,3 cm) do que de indivíduos de populações da mesma espécie analisados em outros países, como na Venezuela (CT = 36,8 cm) (Sousa-Junior et al., 2008). Essa diferença no tamanho pode ser influenciada por vários motivos, entre eles o fato do arianó ser um dos peixes mais consumidos e explorados no estado do Ceará, o que pode ter levado os indivíduos a se reproduzirem mais cedo para repor o estoque (Sousa-Junior et al., 2008). Hoje, o estoque desta espécie, ao longo da costa brasileira, encontra-se em desenvolvimento (Verba et al., 2020). Por outro lado, espécies do mesmo gênero e que também são bastante exploradas no Brasil, como pargo - Lutjanus purpureus - e cioba - Lutjanus analis - estão com seus estoques classificados como totalmente explorados no país (Verba et al., 2020).

Com relação à mudança climática, a academia tem buscando entender melhor seus efeitos sobre os estoques pesqueiros. Estudos sugerem que espécies de crescimento mais rápido são mais influenciadas por esse fator do que aquelas com crescimento mais lento (Free et al., 2022; Quetglas et al., 2016). Além disso, espécies que sofrem sobrepesca por um longo período de tempo são mais prováveis de serem influenciadas negativamente pelo aquecimento global, principalmente, se esse aquecimento acontecer de maneira rápida, o que seria um aumento maior que 0,2oC por década (Free et al., 2022).

O exemplo do ariacó, citado anteriormente, mostrou não só indivíduos sexualmente maduros com um CT menor no Brasil, mas também uma flutuação na sua densidade populacional, já́ que o estoque em desenvolvimento demonstra uma crescente após uma baixa na produção pesqueira (Verba et al., 2020; Sousa-Junior et al., 2008). Esses resultados, típicos de atividades de sobrepesca, quando somados ao aquecimento das águas, podem aumentar a chance de um estoque pesqueiro colapsar (Free et al., 2022). Em outras palavras, a sobrepesca e a mudança climática têm tornado estoques pesqueiros menos resilientes e mais vulneráveis ao declínio (Britten et al. 2017; Free et al., 2022).

Portanto, a sobrepesca e o aquecimento global influenciam, diretamente e indiretamente, espécies de peixes de maneiras diferentes, porém a soma dos dois fatores pode acabar trazendo danos imensuráveis para a pesca no mundo todo. Isso demonstra a urgente necessidade de desenvolver políticas públicas para melhor administrar não só́ os estoques pesqueiros do mundo, mas também os problemas que colaboram com o avanço das mudanças climáticas.

Referências:Britten, G.L., Dowd, M., Kanary, L., Worm, B. 2017. Extended fisheries recovery timelines in a changing environment. Nat. Commun. 8, 15325.
Dias Neto, J. 2010. Pesca no Brasil e seus aspectos institucionais um registro para o futuro. Revista CEPSUL: diversidade e conservação marinha, 1 (1): 66 – 80.
FAO, 2016. The state of world fisheries and aquaculture. In: Contributing to Food Security and Nutrition for All. https://doi.org/10.5860/CHOICE.50-5350.
Free, C.M., Thorson, J.T., Pinsky, M.L., Oken, K.L., Wiedenmann, J., Jensen, O.P., 2019. Impacts of historical warming on marine fisheries production. Science 983
(March), 979–983. https://doi.org/10.1126/science.aau1758.
McBride R.S., Vidal T.E., Cadrin S.X., 2013. Changes in size and age at maturity of the northern stock of tilefish (Lopholatilus chamaeleonticeps) after a period of overfishing. Fish Bull 111: 161−175.
Quetglas, A., Rueda, L., Alvarez-Berastegui, D., Guijarro, B., Massutí, E., 2016. Contrasting responses to harvesting and environmental drivers of fast and slow life history species. PLoS ONE 11 (2), 1–15. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0148770.
Sousa-Junior, V.B., Silva, J.R.F., Salles, R., 2008. Análise ovariana do ariacó, Lutjanus synagris (Actinopterygii: Lutjanidae), e considerações sobre sua reprodução no estado do Ceará. Arquivos de Ciências do Mar 41, 90–97.
Verba, J.T., Pennino, M.G., Coll, M., Lopes, P.F.M., 2020. Assessing drivers of tropical and subtropical marine fish collapses of Brazilian Exclusive Economic Zone. Sci. Total Environ. 702, 134940. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2019.134940.

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