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Conservação do colorido: como impactos antrópicos podem afetar as cores dos seres vivos
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Milton Mendonça Jr.
Rodrigo Lima Massara
Ricardo Spaniol
Lucas Perillo
Cristiano Iserhard















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Postado dia 25/12/2021

A conservação biológica busca preservar a biodiversidade enquanto padrão e processo. Em ações práticas, seu foco está em manter ambientes íntegros e funcionais (Mace 2014). Ao longo do tempo, temos visto uma ampliação e diversificação nas preocupações sobre o que precisamos focar na conservação: primeiro as espécies em si e sua diversidade genética, depois os ambientes, mais recentemente as interações ecológicas, além das nossas relações com a biodiversidade ao compreendermos que estamos incluídos nela, e com os sistemas ecológicos ao tirarmos “proveito” (serviços, Constanza et al. 1997) deles enquanto exploração ou até mesmo como contemplação e bem estar. Com estas inúmeras facetas de que devemos cuidar, a biodiversidade é uma preocupação constante e complexa. Mais que isso ainda, temos ampliado nossas percepções para incluir as diversidades filogenética e funcional, e encaixando-as na nossa percepção de biodiversidade, ampliamos por consequência nossos objetivos de conservação também (por exemplo avaliando a originalidade das espécies, Pavoine & Ricotta 2021).

Fica evidente que a biodiversidade tem diferentes aspectos. E a coloração é um atributo (ou conjunto de atributos funcionais) extremamente importante para a história de vida dos organismos em diferentes sentidos (Stevens 2013). Cores podem atrair, repelir ou camuflar. Podem ainda enviar mensagens variadas, seja para coespecíficos do mesmo ou de outro sexo, para espécies competidoras, predadoras ou mutualísticas… A gama de situações em que as colorações aparecem como importantes ecológica e evolutivamente em diferentes organismos atesta seu papel central na ecologia evolutiva como um atributo funcional crucial. É possível pensar mesmo numa subdisciplina que se ocupa desses aspectos da funcionalidade dos organismos, sejam visuais, auditivos, etc, que é chamada ecologia sensorial.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: Caligo idomeneus (Foto - Ricardo Luís Spaniol)

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A conservação da coloração pode parecer um objetivo diferente e pouco usual, especialmente quando contamos já ser tão difícil querer conservar as espécies e seus hábitats. Mas se enquadra perfeitamente nessa expansão do nosso conceito de biodiversidade. A coloração representando um aspecto da diversidade funcional para muitos grupos de organismos, também deveria fazer parte de nossos esforços de conservação. Uma biota mais colorida significa mais biodiversidade? Sob este aspecto, sim. Uma biota mais colorida é merecedora de preservação e preocupação com evitar sua extinção? Com certeza devemos tentar cuidar dos azuis, amarelos e vermelhos dos nossos organismos, tanto quanto das espécies que os portam.

Um exemplo de caso interessante de diversidade funcional e sua potencial perda pelas ações antrópicas é o das borboletas frugívoras na Amazônia, revelado por um trabalho desenvolvido pelo Dr. Ricardo Spaniol no PPG-Ecologia da UFRGS (Spaniol et al. 2019, 2020), sob orientação dos Profs. Milton Mendonça (UFRGS) e Cristiano Iserhard (UFPel), com colaboração da Profa. Sandra Hartz (UFRGS) e do Prof. Martin Stevens (Universidade de Exeter, Inglaterra). Amostramos em áreas da Amazônia Central pertencentes ao Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF – INPA), o projeto mais longevo no mundo sobre o estudo dos efeitos da fragmentação e perda florestal.

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Figura 2: Trabalho de campo - borboletas da Amazônia

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Identificamos que áreas mais abertas, perturbadas mais recentemente e em processo mais inicial de sucessão ecológica apresentam menor diversidade de coloração nas asas das borboletas frugívoras. Esse efeito fica menos visível num gradiente de fragmentação, e as cores de borboletas em fragmentos de florestas quando comparadas com áreas contínuas difere pouco. Já quando temos ambientes mais abertos, ensolarados e com estrato arbóreo de menor altura ou ausente, as cores parecem responder, encontrando borboletas mais pardacentas, com cores tendendo mais ao avermelhado e marrom.

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Figura 3: Cithaeria andromeda (Foto - Cristiano Agra Iserhard)

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Não menos interessante é a forma como as cores podem ser “resgatadas” gradativamente quando o ambiente passa por uma regeneração pós-distúrbio. Em regiões da floresta amazônica onde as atividades agrícolas e agropecuárias deixam de existir, percebemos que um período de 30 anos é uma estimativa razoável para novamente reunir condições ambientais de abrigo e a moradia aos animais mais coloridos. Nestes locais, as cores em borboletas apresentavam padrões muito próximos de florestas intactas, que mantém uma diversidade ainda maior de cores, incluindo tanto as mais variadas em combinação, semelhantes a um mosaico de um caleidoscópio multicolorido, quanto àquelas únicas e iridescentes como um flash de beleza nas asas das borboletas. Isso demonstra que projetos de restauração florestal são esforços necessários e viáveis para a conservação de uma das facetas mais atraentes da biodiversidade do ponto de vista visual: a coloração estampada no corpo e nas asas dos animais.

Um aspecto muito importante da conservação das cores é a possibilidade de divulgação científica e conscientização da população baseada na impressão positiva e quase instintiva que a coloração evoca nos seres humanos. Por sermos organismos muito visuais, assimilamos as mensagens passadas pelas cores dos organismos de forma mais intuitiva, sendo, portanto, mais facilmente transmissível enquanto informação palatável e atrativa para o público em geral; agrada e enche os olhos. O próprio conceito de diversidade pode ser explicado de forma muito mais didática baseado na variedade de cores que os organismos apresentam em dada situação. Boa parte dos organismos considerados “carismáticos” tem na coloração parte de sua atração, como flores e frutos das Angiospermas, borboletas, aves como araras e tucanos, primatas como os micos e saguis, etc. De forma geral, se pode dizer que os bichos carismáticos que não sejam “fofinhos” (como mamíferos e algumas aves) serão todos coloridos… (e alguns mamíferos e aves são ambos!). A divulgação científica baseada nesta atratividade das cores com certeza tem mais chances de impactar o público em geral, talvez mais do que o próprio conceito de diversidade de espécies. Também pode ser direcionada para públicos infantis com facilidade, levando à produção de material didático com alto potencial de uso (por exemplo: www.instagram.com/p/CPVygrcHYmN ). Desta forma, a ampla divulgação das cores pode inclusive ajudar na ressignificação do mundo natural para as pessoas, trazendo este público cativo e atuante para junto da conservação da biodiversidade. Afinal de contas, somente conservamos o que conhecemos!

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Figura 4: Morpho sp. (Foto - Cristiano Agra Iserhard)

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A resposta positiva causada pela reação a nossa descoberta da restrição à coloração nas comunidades de borboletas frugívoras da Amazônia é um caso igualmente interessante e que exemplifica esta potencial importância da coloração como aspecto da biodiversidade a conservar e divulgar. A mensagem de que as borboletas “perdem” suas cores quando a Amazônia é desmatada correu o Brasil e o mundo, por mais imprecisas que algumas versões dessa informação (quando colocada desta forma) possam parecer a ouvidos de cientistas. Este resultado foi estampado na capa de jornal de circulação nacional (O Globo, 2020 link abaixo) em pleno domingo, e coberto por diferentes jornais e veículos da mídia (ver mais links abaixo) em maio deste ano. Biólogos e não biólogos, jornalistas, escritores e até artistas plásticos (https://uncoolartist.com/do-write-right-to-me-fernanda-froes/ ) perceberam o impacto da perda e destruição dos ambientes florestais como algo mais agressivo e próximo de cada um, mais pessoal, ao imaginarem menos colorido nessas florestas, borboletas menos coloridas a esvoaçar. Acreditamos que essa facilidade de popularização, pode e deve vir em apoio às ações e pensamentos conservacionistas. Acreditamos também que podemos e devemos todos divulgar mais nossos resultados, sejam quais forem os aspectos da diversidade e sua conservação os focados em nossos trabalhos – mas temos de saber como gerar mais e mais profundo impacto. A pesquisa associando conservação e diversidade funcional é crucial. A pesquisa associando conservação e a coloração dos organismos, além de crucial, tem apelo e grande potencial de divulgação.

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Mais sobre os autores:

Milton Mendonça Jr.¹, Ricardo Spaniol² & Cristiano Iserhard³
¹ Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências, UFRGS, Porto Alegre, RS.
² Doutor em Ecologia pelo PPG-Ecologia/UFRGS, Porto Alegre, RS.
³ Departamento Ecologia, Zoologia & Genética, UFPel, Pelotas, RS.

Referências:Costanza, R., d'Arge, R., De Groot, R., Farberk, S., Grasso, M., Limburg, K., et al. (1997). The value of the world's ecosystem services and natural capital. Nature 387, 253–260. DOI: 10.1038/387253a0
Mace, G.M. (2014) Whose conservation? Science 345 (6204): 1558-1560. DOI: 10.1126/science.1254704
Pavoine, S., & Ricotta, C. (2021). On the relationships between rarity, uniqueness, distinctiveness, originality and functional/phylogenetic diversity. Biological Conservation, 263, 109356. DOI: 10.1016/j.biocon.2021.109356
Spaniol, R. L., Duarte, L. D. S., Mendonça, M. D. S., and Iserhard, C. A.. 2019. Combining functional traits and phylogeny to disentangling Amazonian butterfly assemblages on anthropogenic gradients. Ecosphere 10( 8):e02837. <https://doi.org/10.1002/ecs2.2837>
Spaniol, R.L. Mendonça, M. de S., Jr., Hartz, S.M., Iserhard, C.A., Stevens, M. 2020. Discolouring the Amazon Rainforest: how deforestation is affecting butterfly coloration, Biodiversity and Conservation, 29: 2821–2838. <https://doi.org/10.1007/s10531-020-01999-3>
Stevens M (2013) Sensory ecology, behaviour, and evolution. Oxford University Press, Oxford. DOI:10.1093/acprof:oso/9780199601776.001.0001

Artigos de divulgação na mídia:
https://oglobo.globo.com/brasil/meio-ambiente/amazonia-sem-cor-com-desmatamento-borboletas-coloridas-dao-lugar-as-pardas-cinzentas-24997680

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/07/01/desmatamento-da-amazonia-afasta-as-borboletas-coloridas-da-floresta-aponta-pesquisa-do-rs.ghtml

https://umsoplaneta.globo.com/biodiversidade/noticia/2021/05/03/uma-amazonia-sem-cor-com-desmatamento-borboletas-e-perdem-colorido-para-poder-sobreviver.ghtml

https://www.ufrgs.br/jornal/estamos-descolorindo-as-florestas/

https://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2021/06/23/pesquisa-evidencia-como-o-desmatamento-na-amazonia-esta-relacionado-com-a-ausencia-de-cores-nas-borboletas/

https://uncoolartist.com/do-write-right-to-me-fernanda-froes/

Foto da capa: gradiente cores borboletas floresta Amazônica. Spaniol et al. 2020.





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