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Lamentar o colapso ou entrar no fluxo?
Por: Ana Raquel de Mesquita Garcia              Postado dia 13/05/2021Bióloga, bailarina, coreógrafa e professora de Dança Árabe









Não é novidade para a Ciência que o século XXI será marcado por epidemias, grandes secas, escassez de água e aumento da temperatura global com inúmeros desdobramentos desafiadores para a sobrevivência humana. Estudiosos falam sobre isso desde a década de 70 e hoje, há mais de cinquenta anos, cá estamos nós, míopes na própria cegueira, insistindo na mortífera lógica ganha-perde que há séculos rege as relações de poder. Alarmismo? Não. Ciência. Estudo de dados reais sobre esse planeta, que é a nossa casa.

Ainda que a partir de hoje cessemos completamente as emissões de gases de efeito estufa, modelos climáticos preveem eventos extremos de megasecas, alterações nos regimes de precipitação e escassez hídrica superficial e subterrânea em um curto prazo de 30 anos (Williams et al., 2020). A lógica ganha-perde do capitalismo chega a beirar insanidade diante da genialidade da lei natural de cooperação que ocorre nos ecossistemas. Deixaremos a marca da nossa influência de magnitude geológica no planeta com a produção de polímeros que não se degradam em menos de 1300 anos; com a inauguração e a consumação da sexta era de extinção em massa de espécies; com a infestação de gases tóxicos na atmosfera; com a substituição dos grandes termorreguladores climáticos do mundo – as florestas – por pastos, campos de mono cultivos e desertos. O limite e o custo para o avanço da doença chamada ganância é a extinção da nossa própria espécie, fechando com chave de ouro o repertório infindo de nossas barbáries civilizatórias suicidas.

Mas, se alertar não ajudou até hoje, ser pessimista tampouco ajudará. O problema é que a situação ultrapassou os níveis de pessimismo para chegar em níveis críticos de realismo. A história contada pelos vencedores mostra que os eventos que mudam os rumos da humanidade são as catástrofes, as guerras e as pestes. Não dá para definir ao certo se o que estamos vivenciando desde março de 2020 se enquadraria em “peste”, “guerra” ou “catástrofe”, ou tudo isso junto. Estamos assistindo ao colapso do sistema capitalista que, com sua mão invisível agora substituída por um vírus, ilumina a ideia de que os mais fortes não estão no topo e que a lógica humana de sobrevivência não é capaz de resistir aos mecanismos de autorregulação de Gaia.

Sob uma óptica otimista, desde o início da pandemia e da necessidade de isolamento social os níveis de gases de efeito estufa diminuíram significativamente na atmosfera, assim como os de material particulado. Enquanto nos isolamos de nós mesmos, Gaia descansa dos nossos abusos. Então começamos a vislumbrar aspectos positivos aonde tudo parece lama e caos. Gaia mostra sua grandeza em cada detalhe: na relação entre os seres, em cada formiga, cada fungo, cada planta, cada vida. Não há opressão de uns sobre outros onde os sistemas estão em equilíbrio. O comportamento ganancioso não existe. Células egoístas em nosso corpo são tumores, cânceres. Precisam ser banidas ou o sistema colapsa. Na natureza todos trabalham por todos, desempenham papéis essenciais ao equilíbrio, como se fôssemos (e somos) parte de um inteligente e engenhoso sistema de fluxo de energia e matéria. Não somos essencialmente diferentes disso.

Passou do tempo em que a ganância deveria ter um CID (Código Internacional de Doenças) e ser tratada como qualquer outro mal psiquiátrico reconhecido pela Organização Mundial de Saúde. Se quisermos permanecer nesse mundo, teremos de nos adaptar ao funcionamento das leis naturais e não o contrário. O colapso está aí para quem quiser ver e viver. Mas como devemos deixar o pessimismo para dias melhores, ainda há esperanças, do verbo esperançar de Paulo Freire. Uma espera ativa na observação e na aprendizagem dos mecanismos de Gaia. Observe os pássaros. Olhe para as trilhas de formigas. Perceba como se comportam. Observe as árvores, suas folhas, suas raízes. Extraia um significado que traga reflexão. Aplique em sua vida diária. Há diversas pessoas despertando para essa realidade imutável da transformação de tudo que existe e para a necessidade de construção de uma nova humanidade mais atenta e pacífica. A primeira e talvez mais importante questão para nossa adaptação e nova reconexão com Gaia seja: vamos lamentar o colapso, nos embebedar com álcool, redes sociais e rivotril ou estudar mecanismos de sobrevivência harmônica e equilibrada com a natureza? Essa escolha vai definir o tipo de civilização humana que seremos daqui para frente. Qual é a sua escolha?

Foto da capa: Castelo de Areia de Lisiane Queiroz