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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Lucas Neves Perillo
Postado dia 05/02/2022

Biólogo, doutor em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre - UFMG. Residente pós-doutoral do mesmo programa. Diretor e co-fundador da Bocaina, realiza o curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência - Amerek.















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O mercado do conhecimento

Não é difícil concordar que o conhecimento científico deve e precisa ser aberto e disponível para todos que quiserem se informar. A linguagem utilizada em um artigo científico já limita a acessibilidade (e o interesse) ao conhecimento, já que são em sua maioria estritos em inglês e são estruturados com o uso de uma linguagem técnica, que atrai sobretudo os leitores que já tem um certo domínio no assunto. Mas, pelo menos para os cientistas, pesquisadores e professores de ensino superior, essa máxima de conhecimento livre deveria ser respeitada. 
Mas normalmente as revistas científicas cobram um valor muito elevado para acessar os artigos.
 
O periódico científico mais antigo do planeta, pelo menos em inglês, é o Philosophical Transactions of the Royal Society (algo como “Transações Filosóficas da Sociedade Real”), estabelecido em 1665 pela Royal Society de Londres. Mais de 350 anos se passaram e, ainda hoje, as instituições de ensino e pesquisa têm o artigo científico como o principal meio de divulgação das descobertas científicas e dos resultados dos projetos. Como exemplo, no dia 20 de agosto de 1858, o artigo escrito por Charles Darwin e Alfred R. Wallace anunciou em primeira mão a teoria da evolução por seleção natural. O artigo On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection   (“Sobre a tendência das espécies para formar variedades; e sobre a Perpetuação de Variedades e Espécies por Meios Naturais de Seleção") foi publicado no terceiro volume da revista Journal of the Proceedings of the Linnean Society of London. No ano seguinte, o célebre livro A Origem das Espécies foi publicado. Mas, por incrível que pareça, o artigo de 1858 ainda é fechado e precisamos pagar para lê-lo, mesmo 164 anos após sua publicação!

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O que é um artigo científico afinal?!

O artigo é a plataforma na qual os pesquisadores publicam os achados de suas pesquisas. Portanto, para o momento de a publicação de um trabalho chegar, inúmeras etapas precisam ser realizadas. A observação de um fenômeno na natureza, a formulação de uma pergunta, hipóteses e predições, a busca por informações já publicadas, a escolha de um método, o desenho amostral, a coleta/ observação, o preparo do material, as análises e finalmente a escrita. Durante a produção de um artigo, os pesquisadores da conservação podem fazer colaborações e convidar coautores que possam contribuir nas análises e suas discussões. Quando o trabalho está “pronto”, chega a hora de escolher uma revista científica para a publicação. Existem dezenas de periódicos que aceitam trabalhos com a temática. Alguns de importância local e outros de alcance global (veja alguns exemplos no fim do texto). Claro que, normalmente, quanto mais relevante é o periódico para a comunidade científica, mais concorrido é publicar seu trabalho nele. Alcance, número de citações, corpo editorial... Algumas métricas utilizadas para definir o mérito da revista podem ser questionáveis, mas isso é papo para outro dia...

O primeiro passo, depois de padronizar o texto baseado nas regras definidas pela revista, é a submissão do manuscrito para apreciação de revisores, que fazem este trabalho voluntário para as revistas. Controverso, já que a maioria das editoras ganham muita grana com a produção científica.

Mesmo com todo esse zelo no preparo, na maioria das vezes, os trabalhos são recusados sem ao menos passar pelo processo de revisão. O próprio editor da revista tem a autonomia para recusá-los, caso considere que ele não atende os pré-requisitos da revista (estima-se que de 30 a 50% dos artigos submetidos são recusados sem passar pelo processo de revisão). Passando por essa rigorosa etapa, finalmente o status do texto muda para under review (em revisão). Normalmente dois revisores anônimos, além do editor, leem o texto, listam as críticas, sugerindo modificações para a melhoria do texto. Este processo de revisão por pares ajuda na eliminação de possíveis erros e na indicação de melhorias, além de proporcionar uma credibilidade aos artigos. Após as correções (que podem durar meses dentre as inúmeras rodadas), finalmente o artigo recebe uma proof (o texto final diagramado para o autor conferir se existem erros) e depois vai para a fila da publicação. Antigamente todas as revistas tinham volumes impressos, mas atualmente a maioria produz apenas no meio digital.



Como funciona o sistema de publicação

Antigamente, a maioria das revistas científicas eram organizadas e geridas pelas sociedades e associações de cada área do conhecimento. A Conservation Biology , por exemplo, é organizada pela Society for Conservation Biology e surgiu dois anos depois da sociedade. Normalmente as revistas eram abertas (ao menos para os sócios) e o processo de publicação sem taxas (ou com taxas razoáveis). Mas o mercado das publicações caiu nas mãos das editoras. Os grandes conglomerados começaram a gerenciar as publicações e cobrar um valor astronômico. Hoje, é comum a cobrança de 40 dólares (R$218,00) apenas para lermos UM artigo! Este é o valor praticado pela maioria das grandes empresas. Springer, Wiley, Taylor & Francis, ... Cada uma com inúmeras revistas associadas. Os principais clientes destas revistas são as próprias universidades. O portal periódico CAPES paga por volta de 100 milhões de dólares anuais (R$545.000.000,00) para que estudantes e pesquisadores das instituições públicas de ensino e pesquisa do Brasil possam ter acesso à determinadas revistas. Este valor nem contempla a totalidade das revistas e uma boa parte da produção científica ainda fica bloqueada para acesso. Para o Brasil, que agora tem uma moeda desvalorizada internacionalmente, o cenário é ainda mais perturbador. Como comparação de recursos destinados às pesquisas nacionais, o gasto de três bilhões de dólares equivale a 263.388 artigos publicados em boas revistas, ou a 636.521 anos de bolsas de doutorado no Brasil.

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No caso das revistas denominadas open access (acesso livre), modelo que deveria ser mais praticado, podemos ler qualquer artigo de graça. Mas, nesses casos, quem fica com o prejuízo são os próprios autores. As revistas cobram pela publicação. Algumas cobram 11.000 dólares (aprox. R$60.000,00) para a publicação de apenas um artigo. Os valores praticados, além de muitas vezes inviabilizar a publicação, ainda gera uma desconfiança sobre a idoneidade das revistas que recebem o aceite, já que quanto mais artigos são publicados, maior é o lucro da empresa.

O principal problema nem é só o pagamento per se, mas a maneira na qual o sistema é mantido. Os revisores das revistas, que normalmente são pesquisadores especialistas nos temas discutidos, trabalham de maneira voluntária para as revistas (e em consequência para as editoras). O benefício que recebem são sobretudo: 1. um pequeno incremento do currículo, já que revisar artigos gera métricas de avaliação de professores e valem pontos em baremas de concursos, e 2. permite uma aproximação dos pesquisadores em primeira mão às informações pioneiras de sua área. Participar de uma revisão também é importante para o pesquisador em formação, que aprende muito buscando os erros e suas soluções em um trabalho. Mas, convenhamos, estes não são motivos tão significativos para que a manutenção do sistema seja justificada. Um artigo publicado em 2021 levantou esta problemática. Os autores estimaram que a valoração do custo dos pesquisadores em processos de revisão ultrapassa 1 bilhão de dólares no ano anterior apenas considerando os EUA, a China e o Reino Unido.

Então, um resumo do absurdo: o pesquisador gasta dinheiro público para fazer sua pesquisa, paga para a editora publicar e lucrar com seu trabalho, não ganha nada em troca e a revista ainda faz a etapa mais especial do processo contando com a ajuda de revisores voluntários!



Roubando conhecimento dos gigantes

Uma solução, mesmo que ilegal, para amenizar a tirania praticada pelas editoras e garantir um acesso irrestrito ao conhecimento é o Sci-Hub. A iniciativa Robin Hood da ciência internacional, idealizada pela cazaque Alexandra Elbakyan, é um site pirata que quebra a proteção dos artigos e os libera gratuitamente. Alexandra responde à processos em diversos países, mas já ajudou milhares de estudantes de pós-graduação e pesquisadores ao acesso de informações essenciais para suas teses, dissertações e artigos. Claro que somente esta iniciativa não resolve o problema das taxas abusivas, sobretudo das revistas open access, já que o acesso dos leitores já está garantido, mas a cobrança também já foi feita.

A luta pelo livre acesso universal aos estudos científicos continua, e esta pressão deve ter a participação de toda a área acadêmica.




Revistas importantes que publicam artigos sobre conservação:

Conservation Biology: https://conbio.onlinelibrary.wiley.com/journal/15231739?tabActivePane=undefined

Biological Conservation: https://www.journals.elsevier.com/biological-conservation

Biodiversity and Conservation: https://www.springer.com/journal/10531

Perspectives in Ecology and Conservation: https://www.journals.elsevier.com/perspectives-in-ecology-and-conservation

Ecology and Society: https://www.ecologyandsociety.org/

Trends in Ecology & Evolution: https://www.cell.com/trends/ecology-evolution/home

Conservation Letters: https://conbio.onlinelibrary.wiley.com/journal/1755263x

Frontiers in Conservation Science: https://www.frontiersin.org/journals/conservation-science

Ambio: https://www.springer.com/journal/13280


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Este texto foi produzido como atividade da disciplina de Introdução aos Blogs do curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da UFMG, o @amerek_ufmg , ministrada pelo professor Roberto Takata.

Foto da capa: Lucas Perillo

Mais sobre o autor:

Link para curriculum lattes: http://lattes.cnpq.br/9100354010857966
Link para LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/lucas-perillo-5889414b/
Instagram: @lucasnperillo
e-mail: [email protected]
Referências:Society for Conservation Biology: https://conbio.org/

Aczel, B., Szaszi B., Holcomb, AO. 2021. A billion-dollar donation: estimating the cost of researchers’ time spent on peer Research Integrity and Peer Review 6:14 https://doi.org/10.1186/s41073-021-00118-2

Porcentagem de artigos rejeitados antes da revisão: https://www.elsevier.com/connect/authors-update/5-ways-you-can-ensure-your-manuscript-avoids-the-desk-reject-pile

Post no Instagram sobre o Sci-hub: https://www.instagram.com/p/CZDdskAtC1p/?utm_medium=copy_link

Post no Twitter sobre os cálculos dos valores de publicações em relação ao gasto com bolsas: https://twitter.com/ajkowaltowski/status/1484104080150732801?s=21

Post no Instagram sobre o preço das revistas:
https://www.instagram.com/p/CYKdqA2p6Sr/?utm_medium=copy_link

Estimativa de 2016 dos gastos com a Capes: http://sbera.org.br/pt/2016/05/capes-negocia-reducao-de-us-20-milhoes-em-contratos-e-mantem-portal-de-periodicos