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Os Efeitos das Mudanças Climáticas na Saúde Humana*









As mudanças climáticas têm sido alvo de preocupação científica, de organizações intergovernamentais e não governamentais ao redor do mundo, com muita repercussão na mídia atualmente, e certamente você já leu ou ouviu falar disso em algum momento da sua vida até agora. E por que você deveria se preocupar?

E se te contarmos que existem pesquisas relacionando o aumento na temperatura com o aumento de crimes nas cidades? Que nossos corpos estão sofrendo com as mudanças de temperatura, já causando mortalidade ao redor do mundo por isso? Inclusive, que a crise climática pode agravar alergias, asma e doenças pulmonares? E que teremos mais proliferação de vetores como pulgas, mosquitos, carrapatos, piolhos e ratos? Quer saber mais?

Esse texto tem o objetivo de trazer uma dimensão geral dos impactos das mudanças climáticas na saúde humana. Quem sabe assim possa ficar claro que estamos cada dia mais fritos, literalmente.

Os extremos de temperatura podem causar mudanças no corpo humano?

Sim! Em baixas temperaturas, por exemplo, a evaporação pela pele e pulmões pode provocar um resfriamento maior que a geração metabólica de calor. Ou seja, a exposição prolongada ao frio, evaporação e vento pode resultar em hipotermia, desorientação mental e rápida interrupção da circulação sanguínea das extremidades do corpo, levando à morte (World Health Organization, 2003).

Já em altas temperaturas, há o aumento da viscosidade do sangue e é plausível que o estresse por calor possa desencadear um evento vascular como ataque cardíaco ou derrame (Kilbourne, 1992). A exposição a altas temperaturas causa sudorese elevada e sem a reposição adequada de sais minerais pode provocar exaustão por calor, como cansaço, náuseas, vômitos, vertigem e cãibras, até resultar em desidratação, ou mesmo falhas no sistema circulatório, provocando a insolação (World Health Organization, 2003).

Será que a produção de serotonina no nosso corpo é afetada?

As estruturas neurais reagem às mudanças da temperatura ambiente, a fim de regular a nossa temperatura interna (Benzinger, 1970). À medida que a temperatura do ambiente aumenta, os níveis de serotonina diminuem para regularem a temperatura do nosso corpo. Então, uma hipótese que tem sido estudada é que com esses baixos níveis de serotonina, essa neurotransmissão diminui, contribuindo então para o comportamento agressivo das pessoas (Pietrini et al., 2000; Moore et al., 2002).

Semelhantes neurotransmissores, neuromoduladores e hormônios, como testosterona, norepinefrina, hormônio liberador de corticotropina e colesterol, também podem conectar a temperatura ao comportamento violento, mas estudos sobre isso ainda são incipientes (Davidson et al., 2000; Seo et al., 2008).

E como essas mudanças de temperatura podem afetar nossa sociedade?

De acordo com a Organização das Nações Unidas (2019), os danos fisiológicos causados pelo estresse térmico resultante do aumento de 1,5ºC na temperatura global devem ocasionar, ainda, perdas mundiais de produtividade no equivalente a 80 milhões de empregos em tempo integral no ano de 2030. Os países mais pobres seriam os mais afetados. No Brasil, o valor seria de 850 mil empregos.
Violência
Recomendamos o estudo Climate and Conflict de Burke et al. (2015) que evidencia a relação entre aumento de temperatura e crimes. Nesta pesquisa houve a revisão de 56 artigos publicados que relacionam clima e conflitos, violência e instabilidade política, desses, os autores reprocessaram dados de 24 artigos com metodologia própria para padronizar a análise. As variáveis climáticas analisadas foram temperatura, precipitação e anomalias de curto prazo, como um ano mais seco ou mais quente, uma onda de calor no verão de alguns dias - não necessariamente por mudanças climáticas a longo prazo. E consideraram como variáveis dependentes, os crimes interpessoais, como roubo, assassinato, estupro e intergrupos, como motim, politicamente organizados, conflitos civis, conflitos armados.

Os resultados foram que com o aumento da temperatura houve o aumento de conflitos interpessoais em 2,4% e conflitos intergrupais em 11,3%.

Sabemos que as condições climáticas não causam conflito por si só, mas as mudanças no clima afetam muitos fatores socioeconômicos que por sua vez, levam ao aumento de conflitos, como mobilidade residencial (Bohra-Mishra et al., 2014) e faturamento agrícola (Schlenker; Lobell, 2010). Por exemplo, em períodos mais quentes ou chuvosos que afetam a produtividade agrícola e preços dos produtos, há consequentemente aumento de crises e instabilidades que resultam em conflitos.

Você sabia que a expressão “estou morrendo de calor” já é uma realidade hoje em dia e se intensificará nos próximos anos?

O fenômeno chamado “ondas de calor” ocorre quando faz mais calor que o comum ao longo dos dias. Desta forma, o calor afeta a termorregulação dos organismos, tornando-se um problema de saúde, levando as pessoas à mortalidade.
A meteorologista Micheline Coelho, co-autora do artigo “Quantifying excess deaths related to heatwaves under climate change scenarios: A multicountry time series modelling study” (Guo et al., 2018), e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP explicou para o Jornal da USP:

"Quando o ambiente está muito quente, o organismo não consegue fazer essa troca e a regulação do nosso corpo perde o equilíbrio, podendo levar a graves problemas ou à morte. O desequilíbrio da temperatura corporal promove mudanças em hormônios e enzimas, atingindo os mais diversos órgãos".

Segundo o estudo citado, o Brasil está entre os países que serão mais afetados por mortes relacionadas às ondas de calor. Outros países que se destacam são: Filipinas, Colômbia, Vietnã e Estados Unidos, como pode ser visto na imagem abaixo.
Imagem Bocaina

Figura 1: Locais de comunidades e variação média percentual do excesso de mortes relacionadas a ondas de calor em 2031-2080, em comparação com 1971-2020, no Cenário RCP8.5 e cenário populacional de alta variante, com suposição de não adaptação – Fonte: RCP, Representative Concentration Pathway.

João da Silva
Durante uma onda de calor extrema, de acordo com Song et al. (2018), a taxa de mortalidade por doenças respiratórias aumenta em 93%, sendo as mulheres o maior grupo de risco. Crianças e idosos também são muito afetados pelas ondas de calor, segundo o epidemiologista Nelson Gouveia, professor da Faculdade de Medicina da USP: “Crianças e idosos são os grupos mais suscetíveis à variação térmica por causa da baixa capacidade de manter a temperatura corporal”. Também a exposição ao calor extremo durante a gravidez pode ser perigoso para a saúde do recém-nascido (Xu et al., 2014).

Considerado um dos cientistas do clima mais influentes, Rahmstorf afirma que “à medida que o planeta aquece, mais teremos extremos de calor”. As ondas de calor já afetam cidades no mundo todo e geram milhares de vítimas.
Mais doenças pela frente...

O aumento de doenças é um outro possível efeito de eventos extremos causados pela crise climática. Espera-se um agravamento nos casos de alergias, asma, doenças pulmonares, câncer, diminuição da saúde mental, entre outros. Afinal, é difícil ser saudável em um planeta doente.
Lixo no Mar
Alergias

São esperadas mudanças significativas nos padrões de exposição a pólen e fungos. Além disso, maior concentração de poluentes (e a interação entre poluentes), eventos de tempestade de areia e pó, resultarão em impactos negativos na saúde respiratória (Katelaris e Beggs, 2018).

O estudo de Katelaris e Beggs (2018) mostrou que o aquecimento global agrava os sintomas de alergia, principalmente durante a primavera. Há provas suficientes de que o aumento da temperatura e do nível de CO2 impactam a produção de pólen e plantas. Para muitas plantas, níveis altos de CO2 representam mais recurso vital e, consequentemente, maior reprodução e geração de pólen.

Já com relação à exposição aos fungos, os efeitos adversos à saúde podem ocorrer por uma variedade de mecanismos, incluindo infecção, alergia, irritação e toxicidade, dependendo da natureza e da dose da exposição. A infecção pode ser observada em pacientes normais e imunocomprometidos. A proliferação de fungos pode ser ocasionada pelo aumento das inundações, outra consequência das mudanças climáticas. As inundações resultam em elevação da umidade em residências e promovem o crescimento de fungos. Por exemplo, após o furacão Katrina em Nova Orleans, EUA, foram observadas altas contagens de fungos em ambientes internos e externos. O aumento da umidade junto com as temperaturas e os níveis de CO2 mais elevados estimulam o crescimento de fungos.
Outro tipo de alergia que pode ser agravada pelo aquecimento global é a alergia aos alimentos. Alguns estudos mostram evidências de que maiores concentrações de CO2 podem alterar a alergenicidade de algumas comidas. Isso já foi observado em um estudo que mostrou um maior poder alergênico do amendoim quando produzido em condições com elevada presença de gás carbônico (Ziska et al., 2016).

Doenças infecciosas transmitidas por vetores

Em países tropicais, frequentemente há mais doenças transmitidas por vetores, sendo um dos principais problemas de saúde pública resultantes do aquecimento global (Barcellos et al., 2009). Elas constituem, ainda hoje, importante causa de morbidade e mortalidade no Brasil e no mundo, e o ciclo de vida de seus vetores está fortemente relacionado à dinâmica ambiental dos ecossistemas onde estes vivem (Fiocruz, 2018).

Doenças como dengue, malária, leishmaniose tegumentar e visceral, febre amarela, a filariose, a febre do oeste do Nilo, a doença de Lyme, e outras transmitidas por carrapato e inúmeras arboviroses, têm variável importância sanitária em diferentes países de todos os continentes. A mudança no clima, aliado ao impacto nos ecossistemas locais, podem ocasionar um aumento no caso dessas doenças. Infelizmente, os mais afetados serão as populações mais vulneráveis (Fiocruz, 2018).

Além disso, eventos de chuvas fortes podem transportar agentes microbiológicos terrestres para fontes de água potável, resultando em surtos de criptosporidiose, giardíase, amebíase, febre tifóide e outras infecções.
Imagem Bocaina
O clima pode aumentar diretamente a quantidade de patógenos na água, seja aumentando o reservatório biótico do agente infeccioso ou diminuindo a quantidade de água em um rio ou lagoa e, portanto, aumentando a concentração de bactérias. Inundações podem causar a contaminação do abastecimento público de água com bactérias e parasitas à medida que a descarga superficial flui para os rios e reservatórios, enquanto a seca pode aumentar a concentração de patógenos no limitado abastecimento de água. A redução na disponibilidade de água limpa aumenta o risco de beber suprimentos contaminados e também reduz a quantidade de água disponível para higiene pessoal, levando a infecções de pele.
Segundo o estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research (Carleton et al., 2020), as mortes pelo aquecimento global podem chegar a 221 para cada 100.000 pessoas, número que superaria o número de mortes por doenças cardiovasculares. Caso haja ações de mitigação das mudanças climáticas, esse número seria reduzido para 73 mortes para cada 100.000 pessoas.
É urgente que comecemos a realmente a integrar a pauta climática nas nossas vidas, em todas as profissões e nas políticas públicas. Então é muito importante que as pessoas possam se despertar o quanto antes, para que exista vida e maneiras melhores de viver para os outros que virão depois de nós. A partir das nossas atitudes de hoje poderemos adiar o fim do mundo.
Há uma parte no livro “Ideias para adiar o fim do mundo” do Ailton Krenak que, eu, Mauê adoro:
“Sentimo-nos como se estivéssemos soltos num cosmos vazio de sentido e desresponsabilizados de uma ética que possa ser compartilhada, mas sentimos o peso dessa escolha sobre as nossas vidas. Somos alertados o tempo todo para as consequências dessas escolhas recentes que fizemos. E se pudermos dar atenção a alguma visão que escape a essa cegueira que estamos vivendo no mundo todo, talvez ela possa abrir a nossa mente para alguma cooperação entre os povos, não para salvar os outros, mas para salvar a nós mesmos”.
Essas palavras dizem tudo, somos alertados o tempo todo para as consequências das escolhas erradas que fizemos. Basta olhar nossos rios e oceano estão cheios de resíduos, vemos o desmatamento crescer em diversos biomas brasileiros, a extinção de espécies, a ausência de chuvas, o branqueamento de corais, o aumento de CO2 na atmosfera, tantos efeitos das mudanças climáticas, são várias dívidas ecológicas que geram a sobrecarga da Terra. Herdamos muitos problemas e continuamos intensificando eles ou criando novos, tudo isso porque nos distanciamos da sustentabilidade do ser, gerando a nossa cegueira, aceitando camadas de projeções e desejos do sistema para nossas vidas, e se não nos despertarmos, mudarmos nossa configuração mental sobre o porquê estamos aqui, não deixaremos nada além de resíduos e dívidas climáticas para as futuras gerações. E precisamos nos despertar, como disse o Krenak, para salvar a nós mesmos.

Autoras: Alice Dias da Cruz e Maria Eugênia Fernandes Freitas
Imagem Bocaina

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Mais sobre a autora:

Referências:

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