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O que a estatística tem a ver com conservação?
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Juliana Benck Pasa
Postado dia 29/08/2021

Analista de dados ecológicos, mestra em ecologia (Universidade Federal de São João del Rei – MG) e bióloga (Universidade de Passo Fundo – RS). Tem interesse em ecologia e conservação de carnívoros.









Você já olhou para uma paisagem e se perguntou: quantas espécies ocorrem aqui? Quantos indivíduos de uma espécie habitam essa área? Que tipo de ambiente a espécie prefere usar e porquê? Qual é a dieta? Será que as mudanças climáticas estão afetando essa espécie ou comunidade? Será que outros fatores antrópicos influenciam o comportamento dessa espécie? Quem são os potenciais predadores? E os competidores?

Vamos imaginar que, [email protected] pela primeira pergunta, você foi à campo e coletou informações sobre as espécies em dois fragmentos diferentes, com o intuito de saber qual deles possui uma maior riqueza (número) de espécies. Agora sua tarefa é, através dos dados coletados, avaliar se um dos fragmentos é mais rico do que o outro. Ao analisar o número de espécies entre as duas áreas, você conclui que o fragmento A é mais rico que o fragmento B, pois você registrou 5 espécies a mais. Mas será que o fragmento A é realmente mais rico que o B? Será que a diferença entre o número de espécies entre os fragmentos é mesmo significativa? E será que podem existir espécies em ambos os fragmentos que não foram detectadas?

Ao fazermos esses questionamentos, percebemos que simplesmente atestar que um fragmento é mais rico do que o outro através de um critério pessoal e subjetivo não é suficiente para fazermos inferências confiáveis. Já imaginou se existisse uma forma de analisar esses dados e obter valores que provassem que há uma diferença significativa entre os fragmentos, ou que considerasse uma detecção imperfeita das espécies/indivíduos ao gerar o resultado? E é aí que entra ela, a estatística!

É através desta poderosa ferramenta que conseguimos gerar resultados robustos e confiáveis sobre os fenômenos que observamos na natureza, e, a partir daí, interpretá-los e transformá-los em ações de conservação. A estatística surgiu para trazer um pensamento quantitativo à ciência, o que nos permitiu a elaboração de hipóteses sobre os fenômenos observados, construídas a priori (i. e., antes da coleta dos dados), e confronta-las com os dados coletados (Gotelli e Ellison, 2011). Sendo assim, a estatística é a ciência que nos auxilia a interpretar as nossas observações. A base da estatística é a probabilidade, que é a chance de um evento acontecer. Essa incerteza atribuída à chance existe pois há uma variabilidade natural no mundo, que nem sempre é previsível (Gotelli e Ellison, 2011).

Talvez você esteja pensando: ok, mas se essa ferramenta tem uma chance de estar errada, porque ela é mais confiável que a nossa percepção? Bem, o que acontece é que inferências feitas a partir de análises estatísticas provêm de uma quantificação do fenômeno observado e também da incerteza em torno dele. Primeiramente, precisamos planejar muito bem a coleta dos dados e alinhá-la às hipóteses construídas a priori. Com a coleta de múltiplas observações, geramos, além do resultado, o erro padrão, desvio padrão e/ou intervalos de confiança. Todos esses valores mostram a variabilidade do resultado, sendo que uma pequena variabilidade confere confiança a ele.

Entretanto, mais importante do que entender que a estatística é uma ferramenta confiável e útil à conservação, é saber como usá-la da melhor maneira possível. Pouco adianta ter um robusto banco de dados se você não sabe o que fazer com ele. Por isso, te convido a olhar para a estatística como uma grande ferramenta, que irá te auxiliar no processamento desses dados.

Para isso, vamos supor que, depois de se deparar com a bela paisagem do Parque Estadual do Rio Doce (figura de capa), encontramos no meio do caminho uma espécie de felino de pequeno porte, grandes olhos em relação ao tamanho da cabeça e uma bela e robusta cauda: o gato-maracajá (Leopardus wiedii – Fig. 1). Esse felino é extremamente adaptado à vida arbórea, sendo o único no Brasil que consegue girar as articulações dos tornozelos em até 180°, facilitando escaladas e a caça em cima das árvores (Morales et al., 2018). Infelizmente, o gato-maracajá se encontra vulnerável de extinção, principalmente pela perda do hábitat nativo (Tortato et al., 2012; de Oliveira et al., 2015). É um felino raramente detectado no ambiente e existem poucas informações sobre aspectos populacionais de gatos-maracajá, bem como sobre sua interação com potenciais competidores, como a jaguatirica. Entretanto, apesar de pouco conhecida, a espécie desempenha um papel ecológico importante, visto que atua no controle de animais de pequeno porte, como roedores e aves (Tortato et al., 2012).
Conhecendo um pouco sobre os gatos-maracajá, já conseguimos pensar em algumas perguntas cujas respostas possam preencher lacunas de conhecimento e auxiliar na conservação da espécie. Podemos nos questionar, por exemplo, sobre o tamanho populacional, a existência de uma segregação espaço-temporal entre os gatos-maracajá e as jaguatiricas, ou sobre fatores ambientais que podem influenciar no uso de hábitat. Entretanto, para obtermos essas respostas, precisamos escolher análises estatísticas que respondam adequadamente as nossas perguntas. Para sabermos quantos gatos-maracajá existem no Parque, podemos utilizar modelos de abundância e densidade, que são úteis para acessarmos o tamanho da população e aumentos ou declínios populacionais ao longo do tempo. Através de modelos de co-ocorrência, podemos entender se os gatos-maracajá conseguem utilizar os mesmos ambientes que as jaguatiricas, ou se a pressão de competição é grande o bastante para ocorra segregação. Caso as espécies ocorram nos mesmos ambientes (sobreposição espacial), podemos avaliar se existe uma segregação temporal no uso de recursos, através de análises de padrão de atividade. Ainda, podemos descobrir quais características do ambiente, antropogênicas e climáticas podem influenciar o uso de ambientes pela espécie, utilizando modelos de ocupação e detecção, que estimam a probabilidade de a espécie estar presente em determinado local (ocupação), bem como a intensidade de uso de determinado locais (detecção). Obtendo essas respostas geradas através de análises estatísticas robustas, começamos a compreender os fatores que moldam a existência dos gatos-maracajá, e assim sugerir alternativas certeiras para conservação da espécie, como quais ambientes deveriam ser mais preservados para a sobrevivência do gato-maracajá, que matrizes antropogênicas podem ser mais permeáveis à espécie, como uma alternativa para conectar fragmentos nativos de mata, medidas de mitigação dos impactos antropogênicos, dentre outras.

Por fim, existem as meta-análises, que fornecem uma visão mais geral sobre um fenômeno e promovem conclusões sobre este, baseado em estudos independentes já publicados (Arnqvist e Wooster, 1995). Esse tipo de análise é muito útil, por exemplo, para avaliar o status de conservação de uma espécie ao longo de todo um bioma, país ou continente, e assim mobilizar ações de conservação em uma escala mais ampla.

Através do bom uso da estatística, somos capazes de gerar informações robustas e de qualidade que podem ser importantes aliadas à conservação. Existe uma infinidade de análises distintas, capazes de te ajudar a entender sobre os fenômenos observados na natureza. Essa é a beleza da estatística: oferecer infinitas formas de contribuir com conhecimento de qualidade sobre as espécies, que guiarão ações importantes na conservação. Sendo assim, estatística e conservação devem sempre andar juntas, trilhando o caminho para a persistência de nossa rica biodiversidade.

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Referências:

Arnqvist, G., & Wooster, D. 1995. Meta-analysis: synthesizing research findings in ecology and evolution. Trends in Ecology and Evolution, 10(6): 236 – 240.
de Oliveira, T., Paviolo, A., Schipper, J., Bianchi, R., Payan, E. & Carvajal, S.V. 2015. Leopardus wiedii. The IUCN Red List of Threatened Species 2015: e.T11511A50654216. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2015-4.RLTS.T11511A50654216.en.
Gotelli, N. J., & Ellison, A. M. 2011. Princípios de estatística em ecologia. Artmed Editora. 527 p.
Morales, M. M., Moyano, S. R., Ortiz, A. M., Ercoli, M. D., Aguado, L. I., Cardozo, S. A., & Giannini, N. P. 2018. Comparative myology of the ankle of Leopardus wiedii and L. geoffroyi (Carnivora: Felidae): functional consistency with osteology, locomotor habits and hunting in captivity. Zoology, 126: 46 - 57.
Tortato, M.A., Oliveira, T.G., Almeida, L.B. and Beisiegel, B.M. 2013. Avaliação do risco de extinção do gato-maracajá Leopardus wiedii (Schinz, 1821) no Brasil. Biodiversidade Brasileira 5: 76-83.

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