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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Isabela Caroline Oliveira da Silva
Postado dia 18/10/2021

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, mestre em Biologia Animal e graduada em Ciências Biológicas - Bacharelado, pela mesma instituição. Tenho experiência com trabalhos sobre ecologia parasitária, redes ecológicas e taxonomia de metazoários parasitos em hospedeiros anfíbios e répteis.















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O parasitismo é uma das estratégias de vida mais comuns no planeta: parasitos estão presentes em ecossistemas aquáticos e terrestres, com domínio numérico que supera a biodiversidade de vida livre catalogada (Price 1980; Nichols e Gómez 2011). Dentro dos ecossistemas os parasitos exercem importante papel na regulação e estruturação das comunidades animais, contribuindo para a coexistência das espécies no ambiente (Grewell 2008; Leung e Poulin 2008). A regulação de espécies exercida pelos parasitos é um dos fatores que faz com estes organismos sejam tradicionalmente enfatizados somente em relação aos custos econômicos referentes a morbidades e mortalidades (Nichols e Gómez 2011; Gazzinelli et al. 2012). Isto prejudica os esforços de conservação e ocasiona desinteresse em estudos que enfocam a importância ecológica que eles podem fornecer (Marcogliese 2004).

Neste contexto, as informações sobre os parasitos que acometem animais silvestres são ainda mais escassas, e esta falta de compreensão representa uma imensa lacuna sobre o conhecimento da fauna parasitária dos animais (Marcogliese 2004; Nichols e Gómez 2011). A escassez de estudos faz com que muitas informações sobre a história natural de diversos tipos de hospedeiros não sejam exemplificadas de forma integral (Nichols e Gómez 2013). Pois a compreensão sobre a fauna parasitária dos animais pode fornecer informações biológicas adicionais sobre os hospedeiros, servindo como uma ferramenta que complementa o entendimento sobre diversos fatores, como a biogeografia das espécies, suas preferências alimentares, habitat, evolução e taxas de dispersão (Marcogliese 2004; Brooks et al. 2006; Poulin 2007).

Os anfíbios são excelentes modelos para estudos parasitários, pois são hospedeiros definitivos e intermediários de uma ampla gama de espécies de metazoários parasitos (Muzzall et al. 2001; Brooks et al. 2006; Imasuen et al. 2012; Campião et al. 2014). Diversos atributos presentes nos anfíbios contribuem para isto, e o padrão de vida bifásico é um dos fatores principais devido a possibilitar aquisições de parasitos em ecossistemas aquáticos e terrestres (Aho 1990; Todd 2007). Muitas das infecções presentes nestes animais são oriundas da via trófica, devido aos anfíbios serem predadores para diversos tipos de presas, além de servirem como fonte de alimento para outras como aves, mamíferos répteis e até outros anfíbios (Marcogliese e Cone 1997; Wells 2007). Assim os anfíbios podem adquirir muitos parasitos mediante a ingestão de artrópodes infectados, que atuam como hospedeiros intermediários e paratênicos para muitos parasitos (Barton 1999), e também podem transmitir outros parasitos aos seus predadores quando no papel de hospedeiros intermediários (Imasuen et al. 2012; Koprivnikar et al. 2012).

As infecções parasitárias nos anfíbios podem tanto causar impactos sutis, como podem resultar em altas taxas de mortalidade (Koprivnikar et al. 2012). Os parasitos modificam a aptidão dos hospedeiros, podem alterar comportamentos e características fisiológicas e morfológicas das espécies (Johnson et al. 1999; Moretti et al. 2017), sendo isto mais evidente quando estão em elevadas intensidades parasitárias (Kelehear et al. 2011). Estudos anteriores mostraram associações negativas entre intensidade parasitária por nematodas, em relação ao desempenho pulmonar e taxas metabólicas no anfíbio Rhinella icterica (Moretti et al. 2017). Há também relatos de malformações atribuídas a infecções por trematodas do gênero Ribeiroia, como adição de membros e/ou falanges (Johnson et al. 1999; Cohen 2001; Szuroczki e Richardson 2009). Outras ocorrências referem-se a mudanças comportamentais dos hospedeiros, como observado em R. marina, em que os hospedeiros realizaram movimentos bruscos dos membros posteriores, extrusão da língua e piscar dos olhos, na tentativa de expelirem as larvas infectante do nematoda Rhabdias pseudosphaerocephala (Kelehear et al. 2011).

Muitas das infecções parasitárias que resultam em patologias graves são o reflexos de modificações ambientais que alteram a dinâmica hospedeiro-parasito, e ocasionam aumentos na intensidade de infecção para determinados parasitos (Ostfeld et al. 2008; Koprivnikar et al. 2012). Como os parasitos são indicadores da saúde do ambiente, em geral nos ecossistemas que não estão modificados eles vivem em equilíbrio com seus hospedeiros (Lafferty 1997; Sures 2004). Tal fator enfatiza a importância de se conhecer a fauna parasitária presente nos hospedeiros, devido a permitir o monitoramento de possíveis aumentos populacionais nas comunidades parasitárias, que podem ocasionar impactos para os hospedeiros (Koprivnikar et al. 2006; Hartson et al. 2011). Para os anfíbios a compreensão de suas comunidades parasitárias é essencial, em vista do constante declínio populacional que estes vertebrados estão sofrendo (Collins e Crump 2009). Esta perda de espécies ocasiona também a coextinção das espécies de parasitos dependentes, gerando uma perda de biodiversidade ainda maior (Dunn et al. 2009; Hartson et al. 2011). Apesar disto parecer uma vantagem para os hospedeiros, as consequências ao longo prazo são ainda mais prejudiciais, devido principalmente aos aumentos de parasitos patogênicos que podem causar grandes taxas de mortalidade (Dobson et al. 2008; Campião et al. 2015). Em comunidades parasitárias que são diversas, há maior probabilidade de o ecossistema estar em equilíbrio, pois a riqueza de parasitos é capaz de manter a robustez e estabilidade das teias alimentares (Marcogliese e Cone 1997; Lafferty 2012).

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