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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Nicolas Nathan dos Santos
Postado dia 15/01/2022

Biólogo (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Mestre em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente (Instituto de Botânica de São Paulo) atualmente cursando Especialização em Arborização Urbana (lato sensu) (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). Atua como revisor de textos na plataforma digital de educação e divulgação científica Potencial Biótico.















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A urbanização é um processo que modifica os ambientes visando atender às necessidades da espécie humana. No processo de urbanização há a substituição e fragmentação gradativa da cobertura (habitat) original por estruturas urbanas.

Dentre as consequências desse processo podemos destacar os chamados remanescentes (fragmentos dos habitats originais) espalhados em meio à malha urbana e ou circundantes às cidades. Esses são importantes refúgios para biota urbana e prestam relevantes serviços ecossistêmicos, gerando vários benefícios ao meio ambiente e ao bem estar, físico e mental, e saúde humana.

Alguns dos serviços ecossistêmicos prestados pelos remanescentes urbanos são:

● Disponibilização de alimento e abrigo para fauna urbana;

● Atração de dispersores de sementes e agentes polinizadores (Figura 1);

● Refúgio para espécies raras ou ameaçadas;

● Matriz de propágulos de espécies nativas a outros remanescentes que estão fora ou dentro do ambiente urbano;

● Formação de corredor ecológico ou trampolim ecológico que auxilia na dispersão de plantas e animais;

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Figura 1: Atração de animais dispersores e polinizadores. Periquito-rico (Brotogeris tirica) se alimentando dos frutos de uma palmeira (A). Borboleta se alimentando (B).

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● Proteção do solo, corpos d’água e nascentes. Esses são beneficiados graças a diminuição dos efeitos de lixiviação, erosão e assoreamento, o que confere uma melhor qualidade de água, além de contribuir aos processos de ciclagem de nutrientes no solo;

● Auxílio no escoamento e drenagem das águas pluviais ao aumentar a área permeável da cidade (área com vegetação). Também desacelera o escoamento superficial. Contribuindo, assim, no controle de inundações;

● Influenciam na estabilidade dos microclimas: diminuindo a concentração de poluentes atmosféricos e promovendo conforto térmico. Uma das formas que fazem isso é pelo sequestro e estocagem do carbono, elemento que influencia os fenômenos de efeito estufa e aquecimento global;

● Atuam sobre a saúde coletiva através: da remoção de poluentes atmosféricos, promoção do bem estar psicológico, estimulam práticas de lazer/esporte e propiciam suporte às espécies relevantes no controle das espécies consideradas pragas e ou vetores de doenças;

● Geram rendimentos econômicos às instâncias municipais e locais através (Tabela 1), por exemplo, das suas contribuições à saúde coletiva, infraestrutura (verde) urbana e apresentando potencialidade de ingresso ao mercado de créditos de carbono (estoque de carbono);

● Geram ganhos imateriais atrelados aos seus valores sociocultural e socioambiental, como por exemplo: identidade cultural local, educação ambiental e potencial para embelezar e enriquecer o cenário urbano.

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Tabela 1: Quantificação média de serviços ecossistêmicos urbanos em hectare (ha)/ano (y). Fonte: Elmqvist et al. (2015).

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Deve-se ressaltar que o funcionamento viável destes e outros serviços ecossistêmicos dependerá do grau de preservação do remanescente, pois ambientes sob degradação apresentarão diminuição em sua biodiversidade, o que acarreta no comprometimento em seus processos ecológicos de sucessão e regeneração e, consequentemente, impacta na viabilidade de seus serviços ecossistêmicos.

Isso torna estes ambientes menos resilientes a outras perturbações ambientais (tanto de origem naturais ou antropogênicas) e mais suscetíveis à homogeneização biótica.

Falando brevemente sobre a homogeneização biótica: se trata do empobrecimento da diversidade da flora e fauna dos ambientes, deixando ao longo do tempo e do espaço as paisagens mais homogêneas (simplificadas, pouco variadas), isso, gradativamente, torna, as comunidades mais generalistas e menos funcionais. (Figura 2).

Em outras palavras, a estrutura, a composição e a funcionalidade dos ambientes se tornam mais similares entre si, implicando na perda de espécies (extinções locais), de nichos, da resiliência ambiental, dos serviços ecossistêmicos, e aumentando a suscetibilidade para invasões biológicas e doenças.

Um dos principais condutores deste processo é a urbanização, sobretudo quando ocorre de maneira intensa em períodos relativamente curtos e em conjunto com a proliferação ou favorecimento de espécies invasoras.

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Figura 2: Influência da heterogeneidade das paisagens sobre funcionalidade das comunidades. Aumento da modificação e homogeneização (a). Redução da intensidade da modificação e aumento da heterogeneidade (b). Fonte: Gámez-Virués et al. (2015).

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A biodiversidade, como vimos, é relevante na manutenção dos ciclos ecológicos dentro dos remanescentes urbanos. Ela é um dos suportes que possibilita a funcionalidade ecológica, ou seja, o funcionamento desejável e viável dos serviços ecossistêmicos (Figura 3). Vale lembrar que o mesmo se aplica aos ecossistemas fora do âmbito urbano.

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Figura 3: Principais motivações para a conservação da biodiversidade urbana. Fonte: Dearborn; Kark (2009).

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Vivemos um período de incertezas devido aos efeitos das mudanças climáticas, onde eventos climáticos extremos estão sendo registrados com maior intensidade e frequência por todo globo. Isso não só acarreta em transtornos e dificuldades ao meio urbano, mas também em distúrbios ao meio rural, econômico e ambiental.

Tendo em vista os benefícios aqui citados, é possível concluir que os remanescentes são bons exemplos de investimento de médio-longo prazo, sendo vitais ao planejamento, desenvolvimento e gestão de cidades mais sustentáveis. Sua inclusão como parte funcional das cidades é fundamental, assim como sua integração a outros elementos ambientais urbanos (como áreas verdes projetadas, corredores ecológicos, infraestrutura verde e arborização). Evitando assim os desserviços ecossistêmicos (custos e riscos) oferecidos por ambientes degradados, perturbados e mal manejados.

Referências:DALLIMER, M. et al. Biodiversity and the feel-good factor: Understanding associations between self-reported human well-being and species richness. BioScience, v. 62, n. 1, p. 47-55, 2012. Disponível em: <https://doi.org/10.1525/bio.2012.62.1.9>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
DEARBORN, D. C.; KARK, S. Motivations for Conserving Urban Biodiversity. Conservation Biology, v. 24, n. 4, p. 432-440, 2009. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/j.1523-1739.2009.01328.x>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
ELMQVIST, T. et al. Benefits of restoring ecosystem services in urban areas. Current Opinion in Environmental Sustainability, v. 14, p. 101-108, 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.cosust.2015.05.001>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
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LÔBO, D. et al. Forest fragmentation drives Atlantic forest of northeastern Brazil to biotic homogenization. Diversity and Distributions, v. 17, n. 2, p. 287-296, 2011. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/j.1472-4642.2010.00739.x>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
POUDYAL, N. C.; SIRY, J. P.; BOWKER, J. M. Urban forests' potential to supply marketable carbon emission offsets: A survey of municipal governments in the United States. Forest Policy and Economics, v. 12, n. 6 p. 432-438, 2010. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.forpol.2010.05.002>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
SCARANO, F. R.; CEOTTO, P. Brazilian Atlantic forest: impact, vulnerability, and adaptation to climate change. Biodiversity and Conservation, v. 24, n. 9, p. 2319-2331, 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1007/s10531-015-0972-y>. Acesso em: 12 de agosto de 2021.
WANG, Z. et al. Ecosystem Disservice Research into Urban Problem Diagnosis. Landscape Architecture Frontiers, v. 5, n. 6, p. 28-35, 2018. Disponível em: <https://doi.org/10.15302/J-LAF-20170603 >. Acesso em: 12 de agosto de 2021.

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