Receba as novidades do blog e conteúdos exclusivos de conservação

Início > Conteúdos > Ciência em Ação > O que há no fundo dos grandes rios amazônicos? O que as espécies que habitam esse ambiente podem nos revelar?

O que há no fundo dos grandes rios amazônicos? O que as espécies que habitam esse ambiente podem nos revelar?
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Cleber Duarte
Postado dia 26/03/2022

Biólogo, doutor em Ciências Biológicas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA. Atualmente é professor substituto na Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. Tem interesse em Ecologia de Ambientes Aquáticos.















Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

A pluralidade de ambientes amazônicos abriga uma alta diversidade da peixes de água doce, sendo a mais diversa do mundo (Albert & Reis, 2011). Somente a América do Sul contém mais de 5 mil espécies descritas de peixes de água doce, das quais aproximadamente metade é encontrada na Bacia Amazônica (Reis et al. 2016; Jézéquel et al. 2020). Apesar do elevado número de espécies de peixes descritas para esta região, a ictiofauna que habita as profundezas dos canais principais dos grandes rios tropicais está entre a menos conhecida, muitas vezes devido às dificuldades de obtenção de amostras nesse biótopo (Duarte et al. 2019).

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 1: Coleta de arrasto bentônico no Rio Purus, mostrando (A) a preparação das “portas” utilizadas para afundar a rede; (B) lançamento da rede; (C) arrasto trawl com auxílio da canoa e; (D) retirada da rede para coleta dos peixes. Fotos: Felipe Rossoni Cardoso, Instituto Piagaçu – IPI

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Historicamente, a amostragem em ambientes profundos dos grandes rios tropicais só foi possível graças ao trabalho pioneiro realizado por Lopez-Rojas et al. (1984) para coletas no rio Orinoco na Venezuela, utilizando a rede de arrasto bentônico, trawl, como uma forma adaptada do apetrecho de pesca do camarão marinho. 

Posteriormente, na década de 90, foi aprovado o projeto CALHAMAZON (1993- 1996), em que John Lundberg (ANSP - Academy of Natural Sciences in Philadelphia) e diversos ictiólogos brasileiros e norte-americanos navegaram pelos grandes rios amazônicos coletando com esse apetrecho, tendo o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) como base para toda a logística do projeto. Porém, com a proficiência adquirida durante o projeto CALHAMAZON, o INPA desencadeou uma série de expedições para coletas de trawl ao longo de quase todas as drenagens amazônicas, colecionando um considerável acervo de peixes bentônicos ou da calha dos rios.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 2: Esquema da utilização da rede de arrasto bentônico - trawl. Ilustração: Luciana F. Assakawa

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Estudos realizados neste tipo de ambiente muitas vezes têm levado à descoberta de novos táxons e registros de espécies raras (e. g., Lundberg et al. 2013, Walsh et al. 2015), sendo composta principalmente por peixes bentônicos (= vivem no fundo ou próximo ao fundo), como os bagres (ordem Siluriformes) e peixes-elétricos (ordem Gymnotiformes) adaptados a esse tipo de ambiente. Entre as adaptações que essas espécies apresentam para viveram num ambiente quase sem luz e com correnteza acentuada, podemos destacar o tamanho pequeno, corpo achatado ou alongado, boca ventral, olhos reduzidos e especializações sensoriais: tácteis, químicas e/ou elétricas (Crampton 2007).

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 3: Espécimes de peixes bentônicos coletados com trawl no Rio Purus. Foto: Cleber Duarte

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 4: Espécime de peixe-elétrico Orthosternarchus tamandua coletado com trawl no Rio Purus. Foto: Cleber Duarte

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

O canal principal dos rios também tem sido considerado como rota preferencial para os peixes acessarem locais de crescimento, alimentação e desova. Estudos revelam que os ovos de algumas espécies de grandes bagres migradores (e.g., Brachyplatystoma spp.) são transportados pela corrente no canal principal do rio (inclusive próximo ao fundo), e seus estágios larvais se desenvolvem antes de atingir o estuário do rio Amazonas, que serve como local de crescimento dos juvenis (e.g., Barthem & Goulding 1997; Cella-Ribeiro et al. 2015).

Apesar do esforço nas pesquisas realizadas nos últimos anos na Amazônia, ainda há inúmeras questões ecológicas a serem respondidas, por exemplo: O ciclo sazonal de enchente, cheia, vazante e seca, pode influenciar os peixes que habitam o fundo do canal dos grandes rios amazônicos? O que se sabe até o momento, é que durante a enchente e cheia, quando as áreas marginais são inundadas, muitos peixes migram lateralmente em direção a essas áreas, onde supostamente encontram melhores condições de forrageamento e de refúgio contra predadores. Já na vazante, quando o nível da água baixa, os peixes acompanham esse movimento de volta ao canal dos rios, havendo assim, grande concentração de peixes no canal principal, o que explica as maiores capturas nessa fase do ciclo hidrológico. No entanto, existe uma parcela significativa de espécies de peixes que habita exclusivamente o canal profundo dos grandes rios amazônicos, e não apresenta esse padrão sazonal de ocupação de habitats diferenciados.

Com isso, estudos que buscam identificar as espécies que habitam um determinado ambiente e os fatores que afetam a dinâmica dessa comunidade tornam-se fundamentais para futuros programas de manejo e conservação (Magurran & Dornelas 2010), principalmente, diante de atividades antrópicas, incluindo superexploração de recursos, habitat e mudanças climáticas, que atualmente estão causando profundas transformações nos ecossistemas e perda sem precedentes da diversidade biológica (Tedesco et al. 2013, Frederico et al. 2021). Em particular, a ictiofauna que habita exclusivamente o canal deve sofrer um maior impacto da atividade de garimpo ilegal, como tem sido observado mais intensamente nos rios Tapajós e Madeira, uma vez que essa atividade – além de ocasionar a contaminação do ambiente e da população por mercúrio – promove a dragagem do fundo do rio, revolvendo seu sedimento. Além disso, de acordo com projeções de mudanças climáticas, a Amazônia está sujeita a eventos climáticos extremos, como enchentes intensas e secas prolongadas, podendo afetar essas espécies de peixes através de alterações na dinâmica natural do ciclo hidrológico (Tedesco et al. 2013; Frederico et al. 2021), assim como os impactos diretos à população ribeirinha, que tem o pescado como principal fonte de proteína.

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 5: Balsas de garimpo na calha do Rio Madeira. Foto: Cleber Duarte

Imagem da Bocaina - Blog Ciência em Ação

Figura 6: Pesca artesanal em comunidade ribeirinha no Rio Madeira. Foto: Cleber Duarte

Referências:Albert & Reis (2011). Historical Biogeography of Neotropical Freshwater Fishes. Berkeley: University of California Press.
Reis et al. (2016). Fish biodiversity and conservation in South America. Journal of Fish Biology, 89, 12–47.
Jézéquel et al. (2020). A database of freshwater fish species of the Amazon Basin. Scientific Data, 7, 96.
Duarte et al. (2019). What happens in the darkness? The seasonal variation of tropical benthic fish assemblages. Marine and Freshwater Research, 71(4), 419-431.
Lopez-Rojas et al. (1984). Design and operation of a small trawling apparatus for use with dugout canoes. North American Journal of Fisheries Management, 4, 331-334.
Lundberg et al. (2013). Sternarchella calhamazon n.sp., the Amazon’s most abundant species of apteronotid electric fish, with a note on the taxonomic status of Sternarchus capanemae Steindachner, 1868 (Gymnotiformes, Apteronotidae). Proceedings of the Academy of Natural Sciences of Philadelphia, 162(1), 157-173.
Walsh et al. (2015). Revision of Tympanopleura Eigenmann (Siluriformes: Auchenipteridae) with description of two new species. Neotropical Ichthyology, 13(1), 1-46.
Crampton (2007). Diversity and adaptation in deep channel Neotropical electric fishes. In: Sebert et al. (Eds). Fish Life in Special Environments. Science Publishers.
Barthem & Goulding (1997). The Catfish Connection: Ecology, Migration and Conservation of Amazon Predators. Columbia Univ. Press.
Cella-Ribeiro et al. (2015). Temporal and spatial distribution of young Brachyplatystoma spp. (Siluriformes: Pimelodidae) along the rapids stretch of the Madeira River (Brazil) before the construction of two hydroelectric dams. Journal of Fish Biology, 86, 1429-1437
Magurran & Dornelas (2010). Biological diversity in a changing world. Philosophical Transactions of the Royal Society of London – B. Biological Sciences, 365, 3593–3597.
Tedesco et al. (2013). A scenario for impacts of water availability loss due to climate change on riverine fish extinction rates. Journal of Applied Ecology, 50, 1105–1115.
Frederico et al. (2021). The representativeness of protected areas for Amazonian fish diversity under climate change. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, 1–9.

VEJA OS ÚLTIMOS TEXTOS PUBLICADOS NO BLOG CIÊNCIA EM AÇÃO