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Salvando vidas, animais e humanas, nas rodovias brasileiras
Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Simone Rodrigues de Freitas
Postado dia 04/12/2021

Sou bióloga e tenho doutorado em Geografia (UFRJ). Desde 2008, trabalho na Universidade Federal do ABC (UFABC) como professora. Estou credenciada na pós-graduação “Evolução e Diversidade” na UFABC. Atualmente, sou vice-presidente da “Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes” (REET Brasil). Meus interesses de pesquisa se concentram em ecologia de estradas, ecologia de paisagem e ecologia urbana usando ferramentas de geoprocessamento.















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Durante uma viagem em alguma rodovia no Brasil, você já viu algum animal atropelado? Quem viaja com frequência porque estuda em uma cidade e trabalha em outra, por exemplo, tem mais chance de encontrar um animal atropelado. Particularmente se a rodovia tem poucas vias, é pavimentada e está na área rural, a chance é alta de encontrar um animal de médio ou grande porte.

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Figura 1: Onça-parda atropelada na BR-040 (Km 826), em Simão Pereira (MG). Foto tirada pelo Projeto Caminhos da Fauna em parceria com a CONCER em 22/05/2019. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Puma_concolor,_Sim%C3%A3o_Pereira,_2019_02.jpg

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As chances são grandes porque as taxas de atropelamento de vertebrados, como aves, mamíferos, répteis e anfíbios são altíssimas no Brasil. Algumas estimativas indicam cerca de 8,4 milhões de aves e 2,2 milhões de mamíferos mortos nas rodovias por ano no Brasil. Muitas das espécies mais atropeladas em nossas rodovias são ameaçadas de extinção, tais como: lobo-guará, tamanduá-bandeira e onças pardas.

Qual trecho da rodovia, você imaginaria encontrar mais animais atropelados? Próximo de fragmentos florestais ou de pastagens? Os estudos avaliando o efeito das características da paisagem na ocorrência de atropelamentos, indicam que os rios, particularmente com mata ciliar, podem ser locais preferidos pelos animais usarem para deslocamentos longos e podem ser atropelados quando cruzam a rodovia. Muitas espécies usam áreas abertas, inclusive pastagens, ou áreas de silvicultura, para se deslocarem e são atropeladas, mesmo distante de seus habitats naturais (ex. fitofisionomias florestais ou savânicas). Por isso, não necessariamente nos trechos da rodovia que cruzam fragmentos florestais, são os locais onde você encontrará mais animais atropelados.

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Figura 2: Rodovia cruzando fragmentos florestais. Foto disponível em PIXNIO (https://pixnio.com/pt/paisagens/estrada/carro-farol-floresta-arvore-paisagem-madeira-natureza-neblina-estrada)

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As colisões entre veículos e animais de médio e grande porte podem causar acidentes graves que resultam em humanos mortos ou feridos, prejuízos sociais e econômicos e morte de animais silvestres ou domésticos. Algumas espécies são mais registradas nesses acidentes, sendo algumas domésticas (ex. equinos e bovinos) e alguns silvestres (ex. capivara e tamanduá-bandeira). Para evitar esses acidentes, além de respeitar a velocidade recomendada, dirija com atenção e evite viajar à noite, quando a visibilidade é baixa. A maioria dos acidentes graves envolvendo colisão com animal ocorre à noite e quando o motorista não tem tempo de frear quando vê o animal atravessando a rodovia. Alguns acidentes que resultaram em várias pessoas mortas, o motorista tentou evitar atropelar o animal e mudou para a pista oposta, colidindo com um veículo maior, como um ônibus. Outros acidentes não resultam em pessoas mortas, mas feridas, perdendo dias de trabalho, e perda total do veículo. Os custos materiais com o veículo, gastos hospitalares e de seguro, dias de trabalho perdidos, e às vezes, perdas de vidas humanas são relevantes. Em São Paulo, muitos processos buscando compensação financeira chegam ao sistema judiciário e a decisão levam os administradores das rodovias a pagarem em média 2 milhões de reais!

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Figura 3: Reportagem do G1 de 19/07/2019 sobre colisão veículo-animal em Minas Gerais. A chamada da matéria foi: Motorista tenta desviar de lobo-guará e bate carro na BR-365 em Uberlândia; acidente deixa morto e feridos. O subtítulo da matéria foi: Carro de passeio atingiu caminhonete de frente; um dos veículos caiu no barranco. Quatro pessoas ficaram feridas, entre elas uma criança de seis anos. Fonte: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2019/07/19/uma-pessoa-morre-e-quatro-ficam-feridas-em-acidente-na-br-365-em-uberlandia.ghtml

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Como salvar vidas evitando as colisões entre veículos e animais? Mesmo sendo um motorista cauteloso e atento, acidentes acontecem. Para evitar as colisões envolvendo animais, é necessário evitar que os animais cruzem a pista. O administrador da rodovia, responsável pela segurança dos usuários da rodovia, deve implementar medidas mitigadoras construindo estruturas, como o cercamento da rodovia, para impedir a travessia de animais na pista. Sem animais na pista, não há colisão entre veículos e animais.

Para os animais, as cercas isolam populações nas margens da rodovia. Os biólogos já sabem, mas sempre vale lembrar que populações isoladas, aumentam as chances de extinção da espécie. Assim, para garantir a travessia segura do animal em alguns trechos da rodovia, devem ser construídas passagens de fauna: 1) por baixo da rodovia (ex. ecodutos ou dutos de drenagem adaptados) ou, 2) por cima da rodovia (ex. viadutos vegetados). As passagens de fauna possibilitam a manutenção da conectividade de populações que estão nas margens da rodovia, sem o risco de colisões com veículos, quando combinadas com o cercamento.

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Figura 4: Passagem de fauna sob a rodovia (ecoduto) na Holanda. Foto tirada por Simone Freitas em 12/09/2018. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Passagem_de_fauna_inferior_02.jpg

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Figura 5: Passagem de fauna (viaduto vegetado) sobre a rodovia com dois túneis para veículos na Holanda. Foto tirada por Simone Freitas em 12/09/2018. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Passagem_de_fauna_superior_-_2_t%C3%BAneis.jpg

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Na Europa, as autoestradas de muitos países, são cercadas em toda sua extensão e existem passagens de fauna, inclusive para animais de pequeno porte como anfíbios. Para evitar que um animal que consiga atravessar ou pular a cerca para dentro da rodovia, fique preso e aumente a chance dele ser atropelado, são instaladas estruturas, chamadas “jump out”, para possibilitar que o animal pule para fora da rodovia.

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Figura 6: Cercamento com "jump out" (aberta) associado à passagem de fauna superior do tipo viaduto vegetado na Holanda. Foto tirada por Simone Freitas em 12/09/2018. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cerca_com_jump_out_associada_%C3%A0_passagem_de_fauna_superior_02.jpg

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O Brasil tem condições para colocar passagens de fauna em suas rodovias? Qual é o custo-benefício das passagens de fauna? Quanto valem vidas humanas e silvestres? Se quiser colocar a conta no papel, trechos de rodovias que tem muitos atropelamentos de animais de médio e grande porte, que podem levar a processos de milhões de reais para os administradores da rodovia, são os trechos que valeria a pena implementar medidas para reduzir os atropelamentos e para manter a conectividade das populações, ou seja, cercas e passagens de fauna. Já existem muitas passagens de fauna no Brasil, a maioria adaptando dutos de drenagem para possibilitar a travessia segura de animais nas rodovias.
 
Tendo consciência das colisões entre veículos e animais, você motorista ou passageiro das rodovias brasileiras, dirija com prudência e exija dos administradores das rodovias e dos responsáveis pelo licenciamento ambiental que garantam a segurança dos usuários de rodovias em sua região. O financiamento das medidas mitigadoras, como cercas e passagens de fauna, pode vir das empresas concessionárias, do governo ou de empresas que usam a rodovia para transportar suas mercadorias. É possível e é relevante!

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Figura 7: Passagens de fauna (ecoduto) sob a rodovia SP-225, entre Itirapina e Jaú (SP). Postagem da NTC Brasil de 17/08/2015. Fonte:
https://www.ntcbrasil.com.br/blog/sustentabilidade-o-que-sao-pontes-verdes-e-qual-sua-importancia/

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Sugestão de leitura:
Textos do blog Fauna News sobre Ecologia de Transportes, incluindo Ecologia de Estradas: https://faunanews.com.br/category/fauna-e-transportes/


Referências:Abra, F. D.; Granziera, B. M.; Huijser, M. P.; Ferraz, K. M. P. M. B.; Haddad, C. M.; Paolino, R. M. Pay or prevent? Human safety, costs to society and legal perspectives on animal-vehicle collisions in São Paulo state, Brazil. PLoS One, v. 14, p. 1-22, 2019.
Bueno, C.; Faustino, M. T.; Freitas, S. R. Influence of landscape characteristics on capybara road-kill on highway BR-040, southeastern Brazil. Oecologia Australis, v. 17, p. 320-327, 2013.
Bueno, C.; Sousa, C. O. M.; Freitas, S. R. Habitat or matrix: which is more relevant to predict road-kill of vertebrates?. Brazilian Journal of Biology (Online), v. 75, p. 228-238, 2015.
Freitas, S. R.; Barszcz, L.B. A perspectiva da mídia online sobre os acidentes entre veículos e animais em rodovias brasileiras: uma questão de segurança? Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPR), v. 33, p. 261-276, 2015.
Freitas, S. R.; Oliveira, A. N.; Ciocheti, G.; Vieira, M. V.; Matos, D. M. S. How landscape features influence road-kill of three species of mammals in the Brazilian savanna? Oecologia Australis, v. 18, p. 35-45, 2015.
González-Suárez, M.; Zanchetta Ferreira, F.; Grilo, C. Spatial and species-level predictions of road mortality risk using trait data. Global Ecol Biogeogr. v. 27, p. 1093-1105, 2018.
Huijser, M. P.; Abra, F. D.; Duffield, J. W. Mammal road mortality and cost-benefit analyses of mitigation measures aimed at reducing collisions with capybaras (Hidrochoerus hydrochaeris) in São Paulo state, Brazil. Oecologia Australis, v. 17, p. 129-146, 2013.





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