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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Maria Vitória Ricarte Gonçalves
Postado dia 15/06/2022

Engenheira Agrônoma pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ativista ambiental e colaboradora do Coletivo Quintal Vivo.















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As preocupações relacionadas à oferta de alimentos tomaram proporções globais no século XX e foram agravadas a partir da Segunda Guerra Mundial (SILVA, 2014). As armas químicas e mecânicas, ao final da Guerra, foram utilizadas para o desenvolvimento de novas tecnologias a serem aplicadas na agricultura (DUTRA e SOUZA, 2017), levando ao surgimento de maquinário pesado, fertilizantes industriais, agrotóxicos e melhoramento genético (MAZOYER e ROUDART, 2010). Esse período ficou marcado como “Revolução Verde” e difundiu-se amplamente na década de 1960 sob o pretexto de que esse modelo produtivo era necessário para acabar com a fome mundial.

A problemática da fome, todavia, foi agravada após o novo modelo agrícola. Os camponeses não puderam se adaptar à realidade das novas tecnologias, além de perderem sua autonomia pela dependência dos insumos industriais. Isso agravou a desestruturação social (LUTZENBERGER, 2001) e o sistema de monocultivos empregado promoveu a devastação ambiental. A difusão da monocultura está ligada ao desmatamento de extensas áreas, desintegrando o equilíbrio ecossistêmico e provocando consequências como redução da fertilidade, mudança da dinâmica microbiológica do solo, redução do estoque de carbono e outros (KUZYAKOV, 2010).

A perda da biodiversidade promovida pelo atual modelo é um fator que auxilia nas mudanças climáticas e agrava dificuldades socioeconômicas. Todas essas problemáticas geram a necessidade de um modelo produtivo sustentável, capaz de produzir alimentos ao mesmo tempo que é capaz de conservar o meio ambiente. Diante dessa perspectiva, os sistemas agroflorestais (SAFs) são essenciais.

Os tipos de SAFs são diversos, podendo constituir desde um sistema simples, com pouca variedade de espécies e baixo índice de manejo, ou conter maior complexidade, com elevado nível de biodiversidade e maior intensidade de manejo da área. Dentre as múltiplas classificações, pode-se resumir os sistemas em três: silvipastoris, o qual consiste na criação animal, com associação entre pastagens e espécies arbóreas; agrossilvipastoris, em que há o consórcio de espécies agrícolas e florestais em conjunto ou sequência à criação animal; e agrossilviculturais, em que se tem o uso de culturas agrícolas anuais e espécies florestais (MICCOLIS et al., 2016).

Outras denominações são criadas a partir das classificações mencionadas, mas observando as problemáticas citadas anteriormente, o modelo que traz ótimas propostas de soluções é o que se enquadra na chamada “Agricultura Sintrópica”, idealizada por Ernst Götsch, em que o sistema agroflorestal é desenvolvido priorizando a sucessão ecológica (BALEEIRO e JÚNIOR, 2018). O agroecossistema criado visa “imitar” um sistema natural e abundante, que abriga ampla diversidade de espécies, entre florestais e agrícolas, com espaçamentos curtos, intenso manejo e grande aporte de matéria orgânica.

A expansão do conhecimento e uso das agroflorestas é algo recente, porém as técnicas utilizadas nesses sistemas fazem um resgate do saber de povos antigos e povos indígenas, no qual se tem a compreensão da dinâmica de ciclos naturais e da sucessão de espécies, resultando em uma agricultura regenerativa (NETO et al., 2016), que respeita o equilíbrio dos ecossistemas e conserva os recursos naturais. O que difere a agrofloresta sintrópica dos sistemas antigos está principalmente relacionado ao uso de mecanismos naturais do desenvolvimento de uma floresta, que resulta na independência de insumos externos e em melhorias graduais no ambiente (GUIMARÃES e MENDONÇA, 2019).

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Figura 1: Ernst Götsch em seu sistema agroflorestal. Fonte: Agenda Götsch.

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Os sistemas possuem alta diversidade e são planejados em relação às interações benéficas entre as espécies e em relação ao tempo e espaço, aproveitando ao máximo não somente a área de solo, mas também o espaço vertical. O planejamento não inclui somente o uso de espécies de interesse econômico, mas também aquelas que realizarão serviços ecossistêmicos, como a produção de biomassa para a cobertura no solo (GUIMARÃES e MENDONÇA, 2019). Esse material serve como alimento, pois a matéria orgânica será decomposta pelos microrganismos, melhorando as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

As práticas conservacionistas aplicadas nos SAFs são excelentes para as regiões semiáridas, pois promove a recuperação ecológica e econômica de sistemas degradados e protege os recursos hídricos. As espécies arbóreas garantem a circulação ativa dos nutrientes no solo, realizando a manutenção da vida microbiana e favorecendo associações benéficas entre raízes vegetais e microrganismos, como as associações com os fungos micorrízicos arbusculares (FMA), que aumentam a absorção de nutrientes pelas plantas (GEORGE; MARSCHNER; JAKOBSEN, 1995). Espécies arbóreas também auxiliam no controle de enxurradas e erosão do solo, pois ao interceptar a água das chuvas, diminuem o escoamento superficial (ARAÚJO FILHO, 2013).

Esses sistemas são importantes para regiões litorâneas, em que os solos arenosos possuem baixo aporte de matéria orgânica e baixa retenção de umidade. Com os SAFs, torna-se favorável a produção de alimentos diversos e o enriquecimento do solo em sua textura e em atributos químicos, possibilitando a retenção de água e disponibilizando os nutrientes essenciais para as plantas. A figura 2 (A e B) demonstra o sistema agroflorestal implantado na Fazenda Coringa Agrofloresta, situada no município de Trairi, norte do Ceará. O sistema foi instalado em agosto de 2019 e, em menos de dois anos, conseguimos observar a capacidade de adaptação produtiva e o acelerado desenvolvimento do sistema.

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Figura 2: Implantação de SAF na fazenda Coringa Agrofloresta em agosto de 2019 (A) e o sistema em desenvolvimento em junho de 2021 (B). Fonte: Autora.

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As famílias de agricultores e agricultoras que implementam a agrofloresta desenvolvem maior autonomia pela independência de insumos industriais e pela diversificação de seus cultivos, melhorando a renda e o valor nutritivo das espécies alimentícias para autoconsumo. O SAF também auxilia no controle de gases de efeito estufa (GEE) e é capaz de mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A floresta aumenta o sequestro de carbono, enquanto ações como o desmatamento leva a emissões de CO2 (CARVAJAL-AGUDELO e ANDRADE, 2020).

Em resumo, os sistemas agroflorestais sintrópicos conseguem conciliar agricultura e proteção ambiental. Nesse aspecto, diversos serviços ecossistêmicos são fornecidos, como controle da erosão do solo, recuperação da fertilidade, regulação do ciclo hidrológico, promoção da segurança alimentar, enfrentamento das mudanças climáticas e outros benefícios. É necessário o maior investimento em agroflorestas, como recursos para estudos e pesquisas e para a assistência técnica de produtores e produtoras agrícolas, especialmente da agricultura familiar. Com os sistemas agroflorestais, temos em mãos uma ferramenta poderosa de transformação social e ambiental.

Referências:ARAÚJO FILHO, João Ambrósio de. Manejo Pastoril Sustentável da Caatinga. Recife, PE: Projeto Dom Helder Camara, 2013. 200p.

BALEEIRO, André Vinícius Freire et al. Bases científicas e epistemológicas para a Agricultura Sintrópica. Cadernos de Agroecologia, v. 13, n. 1, 2018. Disponível em: http://cadernos.aba-agroecologia.org.br/index.php/cadernos/article/view/1495.

CARVAJAL-AGUDELO, Blanca N.; ANDRADE, Hernán J. Captura de carbono na biomassa de sistemas de uso da terra, município de Yopal, Casanare, Colômbia. Orinoquia, v. 24, n. 1, p. 13-22, 2020.

DUTRA, Rodrigo Marciel Soares; SOUZA, Murilo Mendonça Oliveira de. Cerrado, Revolução Verde e evolução do consumo de agrotóxicos. Sociedade & Natureza, v. 29, p. 473-488, 2022.

GEORGE, Eckhard; MARSCHNER, Horst; JAKOBSEN, Iver. Role of arbuscular mycorrhizal fungi in uptake of phosphorus and nitrogen from soil. Critical reviews in biotechnology, v. 15, n. 3-4, p. 257-270, 1995.

GUIMARÃES, Lorena Abdalla de Oliveira Prata; MENDONÇA, Guilherme. Agricultura sintrópica (agrofloresta sucessional): fundamentos e técnicas para uma agricultura efetivamente sustentável. Incaper em Revista, v. 10, p. 6-21. 2019.

KUZYAKOV, Yakov. Priming effects: interactions between living and dead organic matter. Soil Biology and Biochemistry, v. 42, n. 9, p. 1363-1371, 2010.

LUTZENBERGER, José A. O absurdo da agricultura. Estudos avançados, v. 15, n. 43, p. 61-74, 2001.

MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise contemporânea. Tradução: Cláudia F. Falluh Balduino Ferreira. São Paulo: Editora da UNESP; Brasília, DF: NEAD, 2010.

MICCOLIS, Andrew et al. Restauração ecológica com sistemas agroflorestais: como conciliar conservação com produção: opções para Cerrado e Caatinga. Embrapa Cerrados-Livro técnico (INFOTECA-E), 2016. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1069767.

NETO, Nelson Eduardo Corrêa et al. Agroflorestando o mundo de facão a trator. Petrobrás Ambiental. Barra do Turvo, 2016. Disponível em https://13207642-fc58-a931-ebb1-b02fa4c1196a.filesusr.com/ugd/e4b2ec_6f67a1a70da04f54b839e2224c3af5ba.pdf.

SILVA, Sandro Pereira. A trajetória histórica da segurança alimentar e nutricional na agenda política nacional: projetos, descontinuidades e consolidação. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA. 2014. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/3019/1/TD_1953.pdf.

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