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Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Rodolfo Assis Magalhães
Postado dia 07/05/2022

Bacharel em Ciências Biológicas (UFMG) e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre (ECMVS/UFMG). Atuo em pesquisa e conservação de mamíferos terrestres, especialmente com o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), espécie com a qual trabalho desde 2017. Atualmente sou bolsista do programa EDGE of Existence da ONG inglesa Zoological Society of London – ZSL (edgeofexistence.org), coordenando o projeto “Ecologia e conservação participativa do tatu-bola no Nordeste do Brasil”.















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Nosso planeta está repleto de criaturas fascinantes. Alguns organismos são particularmente distintos, seja em suas características físicas, funcionamento do corpo ou comportamento. Mas o que os torna tão únicos é algo que eles compartilham: uma história evolutiva singular.

Imagine um equidna, como a espécie Zaglossus bruijnii (Figura 1). Seus pelos espinhosos, focinho tubular e patas robustas chamam a atenção visualmente. Mas os equidnas também chamam a atenção por não possuírem mamas e botarem ovos, ao invés de parirem seus filhotes, como os demais mamíferos fazem. Os equidnas, portanto, não apresentam tais “novidades” evolutivas, como os outros atuais membros da Classe Mammalia. Os equidnas e seu parente mais próximo, o ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus), constituem um grupo de mamíferos muito antigo (Subclasse Prototheria) e distante daqueles mamíferos que normalmente nos vêm em mente. Para se ter ideia, todas as outras espécies de mamíferos brasileiras ou africanas das quais costumamos nos lembrar pertencem a outra Subclasse: Theria. Evidências fósseis indicam que equidnas e ornitorrincos mudaram muito pouco durante os últimos 100 milhões de anos, sendo altamente especializados para diferentes estilos de vida, começando a se diferenciar de outros mamíferos há cerca de 46 milhões de anos (www.edgeofexistence.org/species/western-long-beaked-echidna ). Podemos dizer, então, que espécies como o equidna Z. bruijnii são Evolutivamente Distintas (Evolutionarily Distinct – ED) (Figura 2).

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Figura 2: Árvore evolutiva hipotética demonstrando a alta distinção evolutiva da espécie A, quando comparada às espécies B e C. A distinção evolutiva se baseia na quantidade de tempo em que a espécie evoluiu de forma divergente, dada pelo tamanho do ramo da árvore filogenética ilustrada. A espécie A não tem parentes evolutivos próximos e tem evoluído independentemente por muito mais tempo do que as espécies B e C. Fonte: www.edgeofexistence.org/science .

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O equidna Z. bruijnii não é apenas distinto, como também corre um altíssimo risco de extinção. Essa espécie é atualmente classificada como Criticamente em Perigo (CR) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (www.iucnredlist.org ). Caso tudo continue como está, a espécie poderá ser oficialmente considerada como Extinta na Natureza (EW) no futuro, ou seja, nenhum indivíduo restará em seus ambientes naturais, mas apenas em cativeiro. Esta espécie de equidna se encontra Globalmente Ameaçada (Globally Endangered – GE), assim como muitos outros seres vivos. Além do terrível cenário de eliminar uma espécie da natureza, a extinção deste equidna significaria extinguir uma espécie com características extremamente distintas e uma dentre poucas pertencentes a um grupo muito distinto evolutivamente, levando à extinção de um ramo único da história evolutiva.

Agora imagine que haja uma fonte de financiamento para a conservação de espécies. Recursos são naturalmente limitados (especialmente financeiros!) e, por isso, devem ser sabiamente alocados pelas agências financiadoras. Em um cenário em que esses tomadores de decisão devem escolher em qual espécie investir seus recursos, qual deveria ser priorizada? Pensando nisso, Issac et al. (2007) criaram um método para quantificar a distinção evolutiva e o grau de ameaça, unindo valores de ED e GE em um só índice: o índice EDGE. Esse índice fornece medidas objetivas de dois parâmetros considerados importantes para a priorização de espécies para conservação ao incorporar o seu valor em termos de originalidade ou insubstituibilidade, devido à sua distinção evolutiva (ED) ponderado pela urgência da ação (ou seja, risco de extinção; GE) (Isaac et al., 2007). Por exemplo, vamos considerar o equidna Z. bruijnii e o veado-catingueiro (Mazama gouazoubira, uma espécie brasileira). Como já mencionado, o equidna Z. brujinii representa um ramo único da evolução e está sob forte ameaça de extinção; ele apresenta índices ED = 46,5; GE = 4; EDGE = 6,63. Já veado-catingueiro é uma espécie comum, não distinta evolutivamente e não ameaçada, com índices ED = 1,7; GE = 0; EDGE = 0,99. Nesse cenário, fica claro que o equidna apresenta prioridade para conservação sobre o veado-catingueiro, considerando-se os dois parâmetros avaliados (ED e GE).

Junto ao índice EDGE, foi criado o EDGE of Existence Programme (ou programa EDGE), voltado ao financiamento e capacitação técnica para desenvolvimento de projetos para a conservação de espécies EDGE, ou seja, aquelas espécies ameaçadas de extinção ranqueadas de acordo com o índice EDGE (www.edgeofexistence.org/edge-lists ). No Brasil, duas espécies já foram contempladas pelo programa EDGE: o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e, atualmente, o tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricinctus) (www.edgeofexistence.org/edge-fellows ). Ambas também estão atualmente classificadas como em risco de extinção sob a categoria Vulnerável pela IUCN (2021). Na lista brasileira de espécies ameaçadas realizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) (Reis et al., 2015), o tatu-bola-do-nordeste foi classificado como Em Perigo (EN), uma categoria ainda mais preocupante do que a avaliação feita pela IUCN (Figura 3a).

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Figura 3: O tatu-bola do Nordeste. (A) indivíduo apresentando comportamento de defesa, enrolado como uma bola, e respectivo estado de conservação de acordo com a avaliação brasileira (Em Perigo – EN; Reis et al., 2015); (B) distribuição da espécie (em vermelho no mapa); (C) peso e tamanho médio da espécie. Fonte: elaborada pelo autor.

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Os tatus-bolas compreendem duas espécies pertencentes ao gênero Tolypeutes (Cingulata: Chlamyphoridae): T. matacus e T. tricinctus. Eles são os únicos tatus capazes de enrolarem seus corpos como uma bola, protegendo-se contra predação, por meio de sua carapaça rígida (Figura 3a). Ambas as espécies ocorrem apenas na América do Sul, mas o tatu-bola-do-nordeste é restrito ao Brasil, ocorrendo principalmente na Caatinga do Nordeste brasileiro, bem como em algumas regiões de Cerrado adjacentes (Figura 3b). Além de sua distribuição restrita, essa espécie se encontra altamente ameaçada pela caça e pela perda de hábitat, especialmente na Caatinga e Cerrado, respectivamente (Reis et al., 2015). Até a sua redescoberta, nos anos 80, o tatu-bola-do-nordeste passou pelo menos 20 anos sendo considerada extinta (Santos et al., 1994).

As duas espécies de tatu-bola são muito pouco conhecidas pela ciência. Por exemplo, acreditava-se que os tatus-bolas eram os únicos tatus que não escavavam suas próprias tocas, mas somente utilizavam aquelas escavadas por outros tatus. Somente na última década, evidências de escavação de tocas por essas espécies foram publicadas (Attias et al., 2016; Figura 4). E apenas no ano passado, foram publicados os primeiros registros de predação do o tatu-bola-do-nordeste, neste caso, pela onça-pintada (Panthera onca) (Magalhães et al., 2021; Figura 5).

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Figura 4: Escavação de tocas pelo tatu-bola-do-nordeste e suas respectivas dimensões. Fonte: modificada de Attias et al. (2016).

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Figura 5: Registro de predação do tatu-bola-do-nordeste pela onça-pintada (Panthera onca) obtido por meio de armadilhamento fotográfico. Fonte: acervo do autor.

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Ações de conservação do tatu-bola-do-nordeste têm tido algum suporte, mas ainda longe da atenção necessária para salvar as espécies. Até a última década, a este tatu encontrava-se protegido por apenas nove áreas protegidas (Reis et al., 2015), as quais cobriam menos de 10% de sua área de distribuição (Zimbres et al., 2012). A espécie foi eleita a mascote da copa do mundo de futebol promovida pela FIFA em 2014 no Brasil (quem se lembra do FulecoTM?). Contudo, poucos foram os resultados positivos efetivos para a sua conservação (Bernard & Melo, 2019). Uma das maiores iniciativas para a conservação dos tatus-bolas foi o desenvolvimento de um Plano de Ação Nacional (PAN) em 2014, no qual uma série de objetivos e ações foram estabelecidos como prioridades para se alcançar a conservação de ambas as espécies. O plano atualmente está incorporado a um plano único para tamanduás e tatus (PAN Tata).
 
Portanto, o tatu-bola-do-nordeste encontra-se altamente ameaçado de extinção, apresenta distribuição restrita, o conhecimento sobre sua biologia ainda é escasso e pouca atenção tem sido dada à sua conservação. O somatório desses fatores fez com que essa espécie fosse classificada como prioritária para pesquisa e conservação (Superina et al., 2014; www.edgeofexistence.org/edge-lists ).

Em 2017, uma população recentemente descoberta de tatu-bola-do-nordeste passou a ser monitorada em uma área de Caatinga no estado da Bahia. Os resultados dos estudos realizados mostraram que a espécie parece ser abundante e amplamente distribuída na área, ao contrário do que se esperava, dado que ela já foi considerada extinta em diferentes localidades. Essa população se tornou, então, alvo de um projeto conduzido dentro do programa EDGE.
 
O projeto Ecologia e Conservação Participativa do tatu-bola no Nordeste do Brasil (instagram.com/ecptatubola ) teve início em 2021. Ele é realizado com apoio do programa EDGE, Fondation Segré e da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, e tem, como objetivo, subsidiar a conservação de longo prazo da população de tatu-bola-do-nordeste monitorada desde 2017. Para isso, o projeto busca, dentre outros, (1) avaliar a distribuição e o tamanho populacional da espécie na área da comunidade de Sumidouro no interior da Bahia, (2) implementar um programa de ciência-cidadã para a coleta de dados de ocorrência e história natural da espécie por moradores da comunidade, (3) desenvolver, junto aos moradores de Sumidouro, um plano de ação para a conservação da espécie no local. Espera-se que, com a conclusão do projeto, informações hoje limitadas ou inexistentes sobre a biologia do tatu-bola-do-nordeste sejam geradas (e.g., densidade populacional, distribuição, longevidade), bem como o desenvolvimento de ações de conservação que levem em conta os interesses das partes envolvidas (e.g., comunidades locais, empresas de geração de energia eólica, órgãos fiscalizadores) para maximizar a probabilidade de sucesso. O projeto se sustenta em dois pilares: conservação baseada em evidências (veja www.conservationevidence.com ) e planejamento participativo para conservação.
 
A ciência da conservação é historicamente considerada uma ciência da crise, na qual uma corrida contra o tempo se estabelece para evitar a extinção de espécies, rompimento de processos ecológicos e colapso de ecossistemas. Nessa corrida, os recursos são limitados, e, assim, os alvos de conservação devem ser priorizados com base em critérios objetivos, de modo a maximizar o benefício esperado. Para a conservação de espécies, a união de sua distinção evolutiva e grau de ameaça podem orientar a tomada de decisão. Porém, esta é naturalmente um processo social, que deve levar em conta aspectos geográficos e culturais que interferem na efetividade das ações de conservação em diferentes escalas de planejamento. No Brasil, diversas espécies evolutivamente distintas e globalmente ameaçadas esperam por ações de conservação que possam evitar ainda mais perdas na história evolutiva escrita em nosso planeta ao longo de milhões de anos. Cabe aos ecólogos e conservacionistas dar esse passo adiante.

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Mais sobre o autor:
Referências:Attias, N., Miranda, F. R., Sena, L. M. M. de, Tomas, W. M., & Mourão, G. M. (2016). Yes, they can! Three-banded armadillos Tolypeutes sp. (Cingulata: Dasypodidae) dig their own burrows. Zoologia (Curitiba), 33(4), e20160035. https://doi.org/10.1590/S1984-4689zool-20160035
Bernard, E., & Melo, F. P. L. (2019). FulecoTM revisited: football, conservation and lessons learned from the 2014 FIFA World Cup. Biotropica, 51(4), 473–476. https://doi.org/10.1111/btp.12681
Isaac, N. J. B., Turvey, S. T., Collen, B., Waterman, C., & Baillie, J. E. M. (2007). Mammals on the EDGE: conservation priorities based on threat and phylogeny. PLoS ONE, 2(3), e296. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0000296
Magalhães, R. A., Sena, L. M. M. de, & Rodrigues, F. H. G. (2021). First records of Brazilian three-banded armadillo (Tolypeutes tricinctus, Mammalia, Cingulata, Chlamyphoridae) predation by jaguar (Panthera onca, Mammalia, Carnivora, Felidae). Papeis Avulsos de Zoologia, 61, e20216158. https://doi.org/http://doi.org/10.11606/1807-0205/2021.61.58
Reis, M. L., Chiarello, A. G., Campos, C. B., Miranda, F. R., Xavier, G. A. A., Mourão, G. de M., Ohana, J. A. B., Barros, N. de M., & Anacleto, T. C. da S. (2015). Avaliação do Risco de Extinção de Tolypeutes tricinctus (Linnaeus, 1758) no Brasil. In: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio. Avaliação do Risco de Extinção de Xenartros Brasileiros (pp. 237–248). ICMBio.
Santos, I. B., Fonseca, G. A. B. da, Rigueira, S. E., & Machado, R. B. (1994). The rediscovery of the Brazilian three banded armadillo and notes on its conservation status. Edentata, 1(1), 11–15.
Superina, M., Pagnutti, N., & Abba, A. M. (2014). What do we know about armadillos? An analysis of four centuries of knowledge about a group of South American mammals, with emphasis on their conservation. Mammal Review, 44, 69–80. https://doi.org/10.1111/mam.12010
Zimbres, B. Q. C., Aquino, P. D. P. U. de, Machado, R. B., Silveira, L., Jácomo, A. T. A., Sollmann, R., Tôrres, N. M., Furtado, M. M., & Marinho-Filho, J. (2012). Range shifts under climate change and the role of protected areas for armadillos and anteaters. Biological Conservation, 152, 53–61. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2012.04.010

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