João da Silva
Eduardo da Silva Videla                                            Postado dia 29/03/2021Biólogo, Mestre em Ciência Ambiental, Doutor em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros e Pós-Doutorando em Estudos Marítimos – Docente na Universidade Salgado de Oliveira e Centro Universitário Gama e Souza
No Brasil, temos presenciado nas últimas décadas, um aumento significativo da degradação dos ambientes marinhos e costeiros, ocasionando uma série de problemas ambientais, econômicos e sociais. Até a década de 1950 ainda se preconizava o uso do mar como destino dos resíduos das cidades à beira-mar, exemplo disso foi a Ilha de Sapucaia na Baía de Guanabara, para onde era destinado até 1949 todo o lixo da Cidade do Rio de Janeiro (Eigenheer, 2009). Dentre os ambientes que são mais afetados pela presença de resíduos sólidos, destacam-se os oceanos abertos (Gregory et al., 1984; Kubota, 1994) e as regiões costeiras (Gregory, 1983; Golik & Gertner, 1992; Pianowski, 1997; Wetzel et al., 2004). Afinal, muito além do que um mero impacto visual esses resíduos afetam diretamente a biota marinha (Ivar & Costa, 2007), uma vez que tartarugas, golfinhos, aves e outras espécies acabam se alimentando dos resíduos, especialmente plásticos, presentes nos oceanos, colocando essas espécies em vulnerabilidade e aumentando o risco de sua extinção.

Durante anos a problemática dos resíduos sólidos nos oceanos foi negligenciada, sendo analisada como uma ameaça de menor potencial, assim como, pela equivocada ideia de que o oceano é uma área vasta, imune à poluição e com uma grande abundância de espécies (Laist, 1987). Entretanto, os impactos negativos relacionados à comunidade biótica são imediatos e preferencialmente mecânicos, como enredamento e afogamento de mamíferos marinhos e quelônios (tartarugas), diminuição na capacidade de procurar alimento e/ou evitar a predação, bloqueio do trato digestivo e ferimentos oriundos da associação de componentes abrasivos ou cortantes (Laist, 1987; Pruter, 1987; IOC/FAO/UNEP, 1989).
Lixo no Mar
Estima-se que aproximadamente um milhão de aves e mamíferos marinhos morram anualmente devido à ingestão de materiais plásticos, os quais, em sua grande maioria, atingem as águas oceânicas oriundos de praias, rios e emissários submarinos. Muito mais do que um mero impacto visual esses resíduos impactam diretamente a integridade da biota marinha (Ivar e Costa, 2007).
A contaminação por resíduos sólidos no ambiente marinho é uma questão preocupante e que exige muita atenção, uma vez que teve início no momento em que o uso de materiais degradáveis foi substituído por outros não degradáveis no processo de fabricação dos mais variados utensílios humanos (Golik & Gertner, 1992). Esse processo contribui para que os impactos negativos sobre os ambientes marinhos sejam acentuados tendo em vista que muitos resíduos sólidos são lançados diretamente nas praias, baias e outras áreas de lazer e acabam, devido à ausência de sistemas de saneamento e coleta adequados, sendo carreados para o mar (Araújo & Costa, 2007).
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A maior parte dos resíduos sólidos são lançados no mar e desses, cerca de 70%, acabam depositados no leito marinho causando, efeitos letais nas espécies (Laist, 1987). Além disso, temos os microplásticos de baixa biodegradabilidade a qual, associada à sua velocidade de dispersão, os tornam, em níveis globais, um dos maiores responsáveis pela poluição dos ambientes marinhos. Com tamanhos menores do que 5 mm (Arthur et al., 2009; Hidalgo-Ruiz et al., 2012), são encontrados, em sua grande maioria, nas regiões costeiras. Entretanto, podem também ser encontrados em regiões oceânicas, carreados especialmente pelas correntes ou provenientes do lançamento indevido por navios de longo curso. O aumento da presença crescente de microplásticos nos ambientes marinhos constitui um sério problema, exigindo a adoção de estratégias específicas para a busca de soluções efetivas (Derraik, 2002; Thompson et al., 2009). Segundo afirma Andrady (2011), o aumento da quantidade de lixo marinho relaciona-se diretamente ao crescimento populacional e os respectivos padrões de consumo das populações, uma vez que anualmente são lançados bilhões de toneladas de lixo e dejetos nos oceanos (UNEP, 2005; Cheshire et al., 2009).

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Os resíduos marinhos se distribuem de modo horizontal e verticalmente na coluna d’água, atingindo todas as profundidades oceânicas (Smith e Edgard, 2014). O monitoramento de áreas remotas como as do Estreito de Fram no Oceano Glacial Ártico demonstra que foram observados resíduos em profundidades maiores que 5.000 metros (Tekman et al., 2016). Expedições de pesquisa realizadas com o auxílio de veículos submarinos operados remotamente, denominados ROV’s (Remotely Operated Underwater Vehicle), têm observado resíduos marinhos em canyons na California (Estados Unidos), Portugal, Japão, Itália e Mediterrâneo (Watters et al., 2010; Mordecai et al., 2011; Miyake et al., 2011; Angiolillo et al., 2015; Tekman et al., 2016).
A poluição dos ambientes costeiros e oceânicos por resíduos sólidos é uma preocupação em nível global e de responsabilidade dos governos, mas também dos cidadãos de todos os países. Nesse sentido, devemos contribuir para a redução da geração de resíduos sólidos na fonte, ou seja, mudando nossos hábitos de consumo, utilizando menos sacolas plásticas e, principalmente realizando a disposição final adequada. Os oceanos representam as maiores fontes de oxigênio e outros componentes para o ar e, ocupando mais de 70% da superfície terrestre, recebem a maior parte da energia solar (Pellegrini, 2002). Além disso, ecossistemas como os recifes de corais são locais de grande biodiversidade, concentrando mais da metade de todas as espécies marinhas que conhecemos, mesmo ocupando apenas 1% de área oceânica. Assim, todos os esforços devem ser realizados para preservar esses ambientes.

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Professor de Graduação e Pós-graduações: Universidade Salgado de Oliveira – Universo (Niterói – RJ) e Centro Universitário Gama e Souza (Rio de Janeiro – RJ). Pós-Doutorando em Estudos Marítimos na Escola de Guerra Naval. Doutor em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros pela Universidade Federal Fluminense. Graduação em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário da Cidade e Mestre em Ciência Ambiental pela Universidade Federal Fluminense. Técnico em Segurança do Trabalho pela Escola Técnica Professor Everardo Passos, Mergulhador Profissional pela Marinha do Brasil, Fotógrafo e cinegrafista submarino pela Professional Association of Diving Instructors - PADI. Experiência nas áreas de Exploração e Produção de Petróleo em unidades offshore e onshore nos segmentos de perfuração, produção, logística, fabricação de umbilicais, lançamento de linhas, mergulho e robótica submarinha com ênfase em GESTÃO AMBIENTAL e Sistemas de Gestão Integrada em Segurança, Saúde e Meio Ambiente. Foi Coordenador do departamento de segurança, saúde e meio ambiente de empresa multinacional de petróleo, respondendo por um navio FPSO. Atuando principalmente na Bacia de Campos e de Santos - Pré-Sal. Consultor para as áreas de segurança, saúde e meio ambiente.

Referências:

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Angiolillo, M., Lorenzo, B, D., Farcomeni, A., Bo, M., Bavestrello, G., Santangelo, G., Cau, A., Mastascusa, V., Cau, A., Sacco, F., Simonepietro, C., 2015. Distribution and assessment of marine debris in the deep Tyrrhenian Sea (NW Mediterranean Sea, Italy). Mar. Pollut. Bull. 92, 149–159. http://dx.doi.org/10.1016/j. marpolbul.2014.12.044.
Araújo, M. C.; Costa, M. An analysis of the riverine contribution to the solid wastes contamination of na isolated beach at the Brazilian Northest. Management of Environmental Quality, v. 18, n 1, p. 6-12, 2007a.
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Arthur, C.; Baker, J. Bamford, H. Proceedings of the International Research Workshop on the Occurrence, Effects and Fate of Microplastic Marine Debris. NOAA Technical Memorandum NOS-OS & R30. Washington, Tacoma, 2009.
Cheshire, A., Adler, E., Barbiere, J., Cohen, Y., Evans, S., Arayabhand, S., Jeftic, L., Jung, R., Kinsey, S., Kusui, T., Lavine, I., Manyara, P., Ooesterbaan, L., Pereira, M., Sheavly, S., Tkalin, A., Varadarajan, S., Wenneker, B., Wesrphalen, G., 2009.
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